sábado, 30 de agosto de 2008

XXII DOMINGO DO TEMPO COMUM (ano A)



Leitura da Profecia de Jeremias
(Jer 20,7-9)
Vós me seduzistes, Senhor, e eu deixei-me seduzir; Vós me dominastes e vencestes.
Em todo o tempo sou objecto de escárnio, toda a gente se ri de mim;porque sempre que falo é para gritar e proclamar: «Violência e ruína!». E a palavra do Senhor tornou-se para mim ocasião permanente de insultos e zombarias. Então eu disse: «Não voltarei a falar n’Ele, não falarei mais em seu nome». Mas havia no meu coração um fogo ardente, comprimido dentro dos meus ossos. Procurava contê-lo, mas não podia.

Salmo 62 (63), 2.3-4.5-6.8-9
Refrão: A minha alma tem sede de Vós, meu Deus.

Senhor, sois o meu Deus:
desde a aurora Vos procuro.
A minha alma tem sede de Vós.
Por Vós suspiro,
como terra árida, sequiosa, sem água.

Quero contemplar-Vos no santuário,
para ver o vosso poder e a vossa glória.
A vossa graça vale mais do que a vida;
por isso, os meus lábios hão-de cantar-Vos louvores.

Assim Vos bendirei toda a minha vida
e em vosso louvor levantarei as mãos.
Serei saciado com saborosos manjares,
e com vozes de júbilo Vos louvarei.

Porque Vos tornastes o meu refúgio,
exulto à sombra das vossas asas.
Unido a Vós estou, Senhor,
a vossa mão me serve de amparo.


Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
(Rom 12,1-2)
Peço-vos, irmãos, pela misericórdia de Deus, que vos ofereçais a vós mesmos como vítima santa, viva, agradável a Deus, como culto espiritual. Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, pela renovação espiritual da vossa mente, para saberdes discernir, segundo a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe é agradável, o que é perfeito.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 16,21-27)
Naquele tempo, Jesus começou a explicar aos seus discípulos que tinha de ir a Jerusalém e sofrer da parte dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas; que tinha de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia.
Pedro, tomando-O à parte, começou a contestá-l’O, dizendo: «Deus Te livre de tal, Senhor! Isso não há-de acontecer!».
Jesus voltou-Se para Pedro e disse-lhe: «Vai-te daqui, Satanás. Tu és para mim uma ocasião de escândalo, pois não tens em vista as coisas de Deus, mas dos homens».
Jesus disse então aos seus discípulos: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Porque, quem quiser salvar a sua vida há-de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la. Na verdade, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida? O Filho do Homem há-de vir na glória de seu Pai, com os seus anjos, e então dará a cada um segundo as suas obras».




UMA VERDADE INCONVENIENTE?
O primeiro discurso de Simão Pedro como “Papa” fica para a história como um verdadeiro desastre. Depois de termos escutado no Domingo passado como Jesus o escolheu para ser a primeira pedra da sua Igreja, hoje vemo-lo ser chamado de Satanás! E se para nós passou uma semana inteira entre as duas leituras, não nos podemos esquecer que na Bíblia elas são separadas só por algumas linhas.

Pedro quer o melhor para a “sua” Igreja. Quer que ela cresça, que se encha de gente, que se torne mais forte. Por isso mesmo, quando o seu Mestre começa a fazer discursos estranhos sobre perseguições, torturas e uma morte violenta que o espera em Jerusalém, Pedro chama-o à parte e protesta: «Mas o que é que estás a dizer? Isso nunca vai acontecer. Não digas essas coisas que assustas e confundes as pessoas». Simão Pedro não era um homem culto, mas conhecia bem o coração da sua gente. Sejamos sinceros, um coração que passados dois mil anos de história, não mudou assim tanto. Ninguém quer ouvir falar de pegar em cruzes, de renunciar ao que quer que seja ou de ter de perder a própria vida. O que as pessoas querem são soluções fáceis, mágicas! Querem que Jesus diga: «Vou libertar-vos dos romanos! Vou eliminar as vossas cruzes, os vossos problemas, as vossas doenças!».

Mas Jesus não pode anunciar um deus ex machina, um “deus-mágico-cura-tudo”, simplesmente porque esse não é o rosto do seu Pai. Quase que consigo ouvir Simão Pedro que me manda calar a mim também... Mas esta é a verdade: mesmo que consigamos vencer uma doença grave, não podemos confundir essa cura (essa graça...) com a verdadeira salvação. Até porque, inevitavelmente, por muito que nos custe enfrentar esta realidade, para todos nós há-de chegar esse dia em que os nossos olhos vão fechar-se, a nossa pele ficará fria... e morreremos.

«(...) mas quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la». A salvação não está em viver muito. Cento e dez anos... cento e cinquenta... duzentos anos... Não é isso que realmente importa. A salvação está em viver uma vida que valha a pena. É essa a prenda que Cristo nos quer dar. Ele quer mostrar-nos como podemos dar sentido à nossa vida. E essa prenda é tão formidável que até a morte perde a sua fealdade e, tal como Francisco de Assis, também nós conseguiremos chamá-la “sorella”, ou seja, irmã.

E o que é uma vida que vale a pena?
Uma vida cheia de amor.
Parece simples, mas não o é, porque aqui estamos a falar do "verdadeiro" amor. Aquele que faz com que realmente renunciemos a nós próprios; com que não sejamos o centro do nosso mundo; com que estejamos dispostos a perdermo-nos por alguém. É o amor que Jesus Cristo nos mostrou. E se conseguirmos segui-Lo, se conseguirmos viver desta forma, podemos confiar que Aquele que nos amou ainda antes que nós nascêssemos, igualmente não se vai esquecer de nós quando chegarmos ao fim dos nossos dias. E há-de querer que fiquemos junto a Ele para sempre. Porque nos ama.



(tenham uma boa semana!)


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