sábado, 25 de dezembro de 2010

FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA (ano A)



Leitura do Livro de Ben-Sirá
(Sir 3, 3-7.14-17a [gr. 2-6.12-14])
Deus quis honrar os pais nos filhos e firmou sobre eles a autoridade da mãe. Quem honra seu pai obtém o perdão dos pecados e acumula um tesouro quem honra sua mãe. Quem honra o pai encontrará alegria nos seus filhos e será atendido na sua oração. Quem honra seu pai terá longa vida, e quem lhe obedece será o conforto de sua mãe. Filho, ampara a velhice do teu pai e não o desgostes durante a sua vida. Se a sua mente enfraquece, sê indulgente para com ele e não o desprezes, tu que estás no vigor da vida, porque a tua caridade para com teu pai nunca será esquecida e converter-se-á em desconto dos teus pecados.


SALMO RESPONSORIAL Salmo 127 (128), 1-2.3.4-5
Refrão: Felizes os que esperam no Senhor e seguem os seus caminhos.

Feliz de ti, que temes o Senhor
e andas nos seus caminhos.
Comerás do trabalho das tuas mãos,
serás feliz e tudo te correrá bem.

Tua esposa será como videira fecunda,
no íntimo do teu lar;
teus filhos serão como ramos de oliveira,
ao redor da tua mesa.

Assim será abençoado o homem que teme o Senhor.
De Sião te abençoe o Senhor:
vejas a prosperidade de Jerusalém,
todos os dias da tua vida.


Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Colossenses
(Col 3, 12-21)
Irmãos: Como eleitos de Deus, santos e predilectos, revesti-vos de sentimentos de misericórdia, de bondade, humildade, mansidão e paciência. Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, se algum tiver razão de queixa contra outro. Tal como o Senhor vos perdoou, assim deveis fazer vós também. Acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição. Reine em vossos corações a paz de Cristo, à qual fostes chamados para formar um só corpo. E vivei em acção de graças. Habite em vós com abundância a palavra de Cristo, para vos instruirdes e aconselhardes uns aos outros com toda a sabedoria; e com salmos, hinos e cânticos inspirados, cantai de todo o coração a Deus a vossa gratidão. E tudo o que fizerdes, por palavras ou por obras, seja tudo em nome do Senhor Jesus, dando graças, por Ele, a Deus Pai. Esposas, sede submissas aos vossos maridos, como convém no Senhor. Maridos, amai as vossas esposas e não as trateis com aspereza. Filhos, obedecei em tudo a vossos pais, porque isto agrada ao Senhor. Pais, não exaspereis os vossos filhos, para que não caiam em desânimo.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 2, 13-15.19-23)
Depois de os Magos partirem, o Anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse-lhe: «Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe e foge para o Egipto e fica lá até que eu te diga, pois Herodes vai procurar o Menino para O matar». José levantou-se de noite, tomou o Menino e sua Mãe e partiu para o Egipto e ficou lá até à morte de Herodes. Assim se cumpriu o que o Senhor anunciara pelo Profeta: «Do Egipto chamei o meu filho». Quando Herodes morreu, o Anjo apareceu em sonhos a José, no Egipto, e disse-lhe: «Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe e vai para a terra de Israel, pois aqueles que atentavam contra a vida do Menino já morreram». José levantou-se, tomou o Menino e sua Mãe e voltou para a terra de Israel. Mas, quando ouviu dizer que Arquelau reinava na Judeia, em lugar de seu pai, Herodes, teve receio de ir para lá. E, avisado em sonhos, retirou-se para a região da Galileia e foi morar numa cidade chamada Nazaré. Assim se cumpriu o que fora anunciado pelos Profetas: «Há-de chamar-Se Nazareno».


«LEVANTA-TE, TOMA O MENINO E SUA MÃE E FOGE…»
Este ano, o dia 25 de Dezembro calhou num sábado, o que significa que na liturgia de amanhã (primeiro domingo após o Natal e portanto, Festa da Sagrada Família) encontramos a página do Evangelho que corresponde ao relato do dia seguinte ao nascimento de Jesus. Vinte e quatro horas após as grandes celebrações natalícias somos convidados a visitar de novo o presépio e descobrimos (com surpresa!) que o cenário sereno e bucólico da noite anterior se transformou completamente. Durante a noite de Natal emocionámo-nos com o clima de ternura e de consolação que se respirava no estábulo de Belém. É normal (e justo) que assim seja! É bonito imaginar os pastores que se ajoelham para contemplar o menino e os anjos que cantam «glória a Deus nas alturas». Porém, na manhã seguinte tudo se alterou: os pastores e os reis magos voltaram às próprias vidas e a família de Nazaré foi obrigada a fugir para o Egipto, para escapar da fúria homicida de Herodes.

Infelizmente, muitos (que se dizem) “cristãos” esquecem facilmente que a família de Jesus era uma família emigrante e que os primeiros anos da Sua vida foram passados numa terra onde era estrangeiro. A Festa da Sagrada Família e o episódio da fuga para o Egipto são uma boa ocasião para recordar que milhares de pessoas vivem neste preciso momento o drama de uma emigração triste e traumática, enfrentando geralmente viagens incrivelmente longas e perigosas, leis repressivas e xenófobas e um capitalismo proxeneta que, esfregando as mãos diante do desespero humano, propõe salários ridículos e condições de trabalho desumanas.

Dizia Bonhoeffer, teólogo alemão e mártir nos campos de concentração nazis: «Nós cristãos, não podemos nunca pronunciar as palavras últimas da fé, se antes não tivermos pronunciado as palavras penúltimas». A missão da Igreja é anunciar ao mundo as palavras “últimas”: anunciar o Reino, a esperança e a salvação plena. Mas este anúncio não é completo e autêntico se falta um compromisso sério no campo das realidades “penúltimas”, ou seja, se não nos batermos pela justiça, pelo progresso dos povos e pela dignidade humana.

João Paulo II escreveu nas suas mensagens para o Dia Mundial dos Migrantes e dos Refugiados que «a catolicidade não se manifesta somente na comunhão fraterna dos baptizados, mas exprime-se também na hospitalidade assegurada ao estrangeiro, qualquer que seja a sua pertença religiosa, na rejeição de toda a exclusão ou discriminação racial e no reconhecimento da dignidade pessoal de cada um, com o consequente compromisso de promover os seus direitos inalienáveis.

«Era estrangeiro e acolheste-Me» (Mt 25,35). É tarefa da Igreja não só repropor ininterruptamente este ensinamento de fé do Senhor, mas também indicar a sua apropriada aplicação às diversas situações, que a variação dos tempos continua a suscitar. Hoje o migrante irregular apresenta-se-nos como aquele “estrangeiro”, em quem Jesus pede que seja reconhecido. Acolhê-lo e ser solidário com ele é dever de hospitalidade e fidelidade à própria identidade de cristão.

Na Igreja ninguém é estrangeiro, e a Igreja não é estrangeira a nenhum homem e em nenhum lugar. Enquanto sacramento de unidade, e portanto sinal e força agregante de todo o género humano, a Igreja é o lugar onde também os imigrados ilegais são reconhecidos e acolhidos como irmãos. É tarefa das diversas dioceses [e de cada cristão] mobilizar-se para que estas pessoas, constrangidas a viver fora da rede de protecção da sociedade civil, encontrem um sentido de fraternidade na comunidade cristã».


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Um bom domingo a todos, um santo Natal e se quiserem (re)ler a meditação “natalícia” do ano passado, cliquem aqui.


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sábado, 18 de dezembro de 2010

IV DOMINGO DO TEMPO DO ADVENTO (ano A)



Leitura do Livro de Isaías
(Is 7,10-14)
Naqueles dias, o Senhor mandou ao rei Acaz a seguinte mensagem: «Pede um sinal ao Senhor teu Deus, quer nas profundezas do abismo, quer lá em cima nas alturas». Acaz respondeu: «Não pedirei, não porei o Senhor à prova». Então Isaías disse: «Escutai, casa de David: Não vos basta que andeis a molestar os homens para quererdes também molestar o meu Deus? Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: a virgem conceberá e dará à luz um filho e o seu nome será Emanuel».


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 23 (24)
Refrão: O Senhor virá: Ele é o rei da glória.

Do Senhor é a terra e o que nela existe,
o mundo e quantos nele habitam.
Ele a fundou sobre os mares
e a consolidou sobre as águas.

Quem poderá subir à montanha do Senhor?
Quem habitará no seu santuário?
O que tem as mãos inocentes e o coração puro,
que não invocou o seu nome em vão nem jurou falso.

Este será abençoado pelo Senhor
e recompensado por Deus, seu Salvador.
Esta é a geração dos que O procuram,
que procuram a face do Deus de Jacob.


Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
(Rom 1,1-7)
Paulo, servo de Jesus Cristo, apóstolo por chamamento divino, escolhido para o Evangelho que Deus tinha de antemão prometido pelos profetas nas Sagradas Escrituras, acerca de seu Filho, nascido da descendência de David, segundo a carne, mas, pelo Espírito que santifica, constituído Filho de Deus em todo o seu poder pela sua ressurreição de entre os mortos: Ele é Jesus Cristo, Nosso Senhor. Por Ele recebemos a graça e a missão de apóstolo, a fim de levarmos todos os gentios a obedecerem à fé, para honra do seu nome, dos quais fazeis parte também vós, chamados por Jesus Cristo. A todos os que habitam em Roma, amados por Deus e chamados a serem santos, a graça e a paz de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 1,18-24)
O nascimento de Jesus deu-se do seguinte modo: Maria, sua Mãe, noiva de José, antes de terem vivido em comum, encontrara-se grávida por virtude do Espírito Santo. Mas José, seu esposo, que era justo e não queria difamá-la, resolveu repudiá-la em segredo. Tinha ele assim pensado, quando lhe apareceu num sonho o Anjo do Senhor, que lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo. Ela dará à luz um Filho e tu pôr-Lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados». Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o senhor anunciara por meio do Profeta, que diz: «A Virgem conceberá e dará à luz um Filho, que será chamado ‘Emanuel’, que quer dizer ‘Deus connosco’». Quando despertou do sono, José fez como o Anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu sua esposa.


MOTIVAÇÃO
Esta semana o Evangelho dominical “acelera” um pouco os tempos e propõe-nos imediatamente (apesar de ainda estarmos no Advento) o relato do nascimento de Jesus na versão do Evangelho de Mateus. Enquanto que Lucas privilegia a figura de Maria, Mateus faz a escolha insólita de nos contar o mistério da Incarnação através dos olhos de José. É uma história tão conhecida que muitos hoje em dia são incapazes de colher o drama que contém. Para que possamos entender a força do que nos é descrito, devemos tentar olhar para esta página como se a lêssemos pela primeira vez.

Um homem chamado José, carpinteiro de uma pequena aldeia, descobre que a sua noiva está grávida e sabe que não é o pai da criança. Podemos supor que alguém, reconhecendo em Maria os primeiros sinais da gravidez, o tenha advertido dessa situação. Ou talvez ele mesmo tenha notado algo de estranho no comportamento da sua noiva. Nunca saberemos com certeza como tudo se desenrolou, pois o texto não se preocupa com esses pormenores. No entanto, podemos facilmente imaginar a dor que ele sentiu ao fazer essa descoberta. A sua vida é repentinamente abalada por uma notícia que altera todos os seus projectos e enche o seu coração de dúvidas e desgosto: Maria está grávida! E para ele, o casamento prometido está anulado…

Mateus diz-nos que mais tarde José volta atrás na sua decisão: casa com Maria e acolhe o menino como seu filho. O Evangelista descreve-nos o sonho do anjo, mas isso não basta para entender o gesto de José. O poeta espanhol Pedro Calderón de la Barca diz-nos que «os sonhos, sonhos são» e uma decisão como esta, que te compromete para a vida, não se pode explicar com apenas um sonho. Tem que haver uma outra motivação, bem maior, bem mais bonita e para mim, só pode ser esta: José amava Maria. Ele amava-a realmente.

É a única resposta com sentido. Qualquer outra motivação (medo, dever, vergonha…) não seria digna de José e tão pouco aceite por Deus. Um “sim” dito sem amor é uma vocação condenada à esterilidade. O amor é o único motor que desde o início dos tempos faz avançar a história da salvação. Encontramo-lo na Criação, na Incarnação e no auge da Redenção: o momento da Cruz. Se não fosse por amor, o gesto de José não teria qualquer sentido. Se não for por amor, se não for o amor a motivar-nos, tudo aquilo que fizermos, por muito nobre que pareça, é estéril e vazio aos olhos de Deus, pois tal como nos recorda são Paulo:

Ainda que eu tenha o dom da profecia
e conheça todos os mistérios e toda a ciência,
ainda que eu tenha tão grande fé que transporte montanhas,
se não tiver amor, nada sou.

Ainda que eu distribua todos os meus bens
e entregue o meu corpo para ser queimado,
se não tiver amor, de nada me serve.





(Bom domingo!)





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sábado, 11 de dezembro de 2010

III DOMINGO DO TEMPO DO ADVENTO (ano A)



Leitura do Livro de Isaías
(Is 35,1-6a.10)
Alegrem-se o deserto e o descampado, rejubile e floresça a terra árida, cubra-se de flores como o narciso, exulte com brados de alegria. Ser-lhe-á dada a glória do Líbano, o esplendor do Carmelo e do Sáron. Verão a glória do Senhor, o esplendor do nosso Deus. Fortalecei as mãos fatigadas e robustecei os joelhos vacilantes. Dizei aos corações perturbados: «Tende coragem, não temais: Aí está o vosso Deus, vem para fazer justiça e dar a recompensa. Ele próprio vem salvar-nos». Então se abrirão os olhos dos cegos e se desimpedirão os ouvidos dos surdos. Então o coxo saltará como um veado e a língua do mudo cantará de alegria. Voltarão os que o Senhor libertar, hão-de chegar a Sião com brados de alegria, com eterna felicidade a iluminar-lhes o rosto. Reinarão o prazer e o contentamento e acabarão a dor e os gemidos.


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 145 (146)
Refrão: Vinde, Senhor, e salvai-nos.

O Senhor faz justiça aos oprimidos,
dá pão aos que têm fome
e a liberdade aos cativos.

O Senhor ilumina os olhos dos cegos,
o Senhor levanta ao abatidos,
o Senhor ama os justos.

O Senhor protege os peregrinos,
ampara o órfão e a viúva
e entrava o caminho aos pecadores.

O Senhor reina eternamente.
O teu Deus, ó Sião,
é rei por todas as gerações.


Leitura da Epístola de São Tiago
(Tg 5,7-10)
Irmãos: Esperai com paciência a vinda do Senhor. Vede como o agricultor espera pacientemente o precioso fruto da terra, aguardando a chuva temporã e a tardia. Sede pacientes, vós também, e fortalecei os vossos corações, porque a vinda do Senhor está próxima. Não vos queixeis uns dos outros, a fim de não serdes julgados. Eis que o Juiz está à porta. Irmãos, tomai como modelos de sofrimento e de paciência os profetas, que falaram em nome do Senhor.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 11,2-11)
Naquele tempo, João Baptista ouviu falar, na prisão, das obras de Cristo e mandou-Lhe dizer pelos discípulos: «És Tu Aquele que há-de vir ou devemos esperar outro?» Jesus respondeu-lhes: «Ide contar a João o que vedes e ouvis: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a boa nova é anunciada aos pobres. E bem-aventurado aquele que não encontrar em Mim motivo de escândalo». Quando os mensageiros partiram, Jesus começou a falar de João às multidões: «Que fostes ver ao deserto? Uma cana agitada pelo vento? Então que fostes ver? Um homem vestido com roupas delicadas? Mas aqueles que usam roupas delicadas encontram-se nos palácios dos reis. Que fostes ver então? Um profeta? Sim – Eu vo-lo digo – e mais que profeta. É dele que está escrito: ‘Vou enviar à tua frente o meu mensageiro, para te preparar o caminho’. Em verdade vos digo: Entre os filhos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João Baptista. Mas o menor no reino dos Céus é maior do que ele».


DESCONCERTO E SURPRESA
A semana passada falei-vos da imagem que João Baptista propôs do Messias que «chega com a pá na mão» e que limpará a eira. Ficaram por explicar outras expressões que o profeta utilizou para falar dos tempos messiânicos. Algumas são metáforas duras e terríveis, que nos falam de ira, de punição e de um machado que se prepara para cortar as árvores infrutíferas pela raiz. Este domingo o Evangelho fala-nos novamente do Baptista e vemos o seu desconcerto quando percebe que Jesus Cristo não corresponde exactamente à ideia de messias que ele tinha anunciado.

Como podemos constatar, o trecho da semana passada e a página de Evangelho deste domingo são separados por oito capítulos. Após descrever no terceiro capítulo a pregação de João, Mateus contou-nos como ele (hesitante) baptizou Jesus, intuindo que se encontrava diante do Filho de Deus (Mt 3,14). Do quarto capítulo até ao décimo primeiro, Mateus relata de forma sistemática o anúncio do “Reino”, manifestado nas palavras e nos gestos de Jesus. Hoje a narração torna novamente a focar a figura de João Baptista e a pergunta que ele, da prisão, pede que coloquem a Jesus: «És Tu Aquele que há-de vir ou devemos esperar outro?»

João esperava um Messias que viesse lançar fogo à terra, castigar os maus e os pecadores, dar início ao “juízo de Deus”. Para sua grande surpresa, Jesus não é o vingador justiceiro que ele esperava e o Seu modo de agir desorienta-o totalmente: desde o início da sua missão, Jesus, em vez de condenar os culpados, procurou aproximar-se dos pecadores, dos marginais e dos impuros. Estendeu-lhes a mão, mostrou-lhes o amor de Deus, ofereceu-lhes perdão e misericórdia. João e os seus discípulos estão muito confusos: será realmente este o Messias esperado, ou houve um engano e é preciso esperar um outro que venha actuar de uma forma mais decidida e mais justiceira?

O desconcerto de João é também o nosso; a sua dificuldade de entrar na lógica do Amor é a nossa dificuldade. Jesus é um Messias totalmente diferente daquele que o povo de Israel esperava. Mesmo as pessoas que vivem a própria fé de uma forma radical (tal como João Baptista) correm o risco de construir um deus à própria imagem e semelhança; um deus que não corresponde ao rosto misericordioso que nos foi revelado por Cristo. Várias vezes ouvi cristãos (e alguns até eram sacerdotes) caírem no erro de dividirem o mundo em maus e bons: os bons (normalmente, nós!) que serão salvos e os maus (os outros…) que serão implacavelmente punidos. Jesus troca-nos as voltas e em vez de condenar e punir, procura acima de tudo salvar e resgatar quem se afastou da Verdade.

Como é surpreendente o Senhor! Nós esperamos num Deus forte e majestoso e Ele vem como um bebé numa manjedoura; nós acreditamos num Deus encolerizado e Ele fala principalmente de amor e perdão; nós aguardamos um Deus triunfal e Ele revela-Se num condenado à morte, pregado numa cruz.

Concluo com a inevitável questão que neste tempo do Advento todos somos convidados a responder: E tu? Qual é o Messias que esperas?


(Bom domingo e boa meditação!)



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sábado, 4 de dezembro de 2010

II DOMINGO DO TEMPO DO ADVENTO (ano A)

Leitura do Livro de Isaías
(Is 11,1-10)
Naquele dia, sairá um ramo do tronco de Jessé e um rebento brotará das suas raízes. Sobre ele repousará o espírito do Senhor: espírito de sabedoria e de inteligência, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de conhecimento e de temor de Deus. Animado assim do temor de Deus, não julgará segundo as aparências, nem decidirá pelo que ouvir dizer. Julgará os infelizes com justiça e com sentenças rectas os humildes do povo. Com o chicote da sua palavra atingirá o violento e com o sopro dos seus lábios exterminará o ímpio. A justiça será a faixa dos seus rins e a lealdade a cintura dos seus flancos. O lobo viverá com o cordeiro e a pantera dormirá com o cabrito; o bezerro e o leãozinho andarão juntos e um menino os poderá conduzir. A vitela e a ursa pastarão juntamente, suas crias dormirão lado a lado; e o leão comerá feno como o boi. A criança de leite brincará junto ao ninho da cobra e o menino meterá a mão na toca da víbora. Não mais praticarão o mal nem a destruição em todo o meu santo monte: o conhecimento do Senhor encherá o país, como as águas enchem o leito do mar. Nesse dia, a raiz de Jessé surgirá como bandeira dos povos; as nações virão procurá-la e a sua morada será gloriosa.


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 71 (72)
Refrão: Nos dias do Senhor nascerá a justiça e a paz para sempre.

Ó Deus, dai ao rei o poder de julgar
e a vossa justiça ao filho do rei.
Ele governará o vosso povo com justiça
e os vossos pobres com equidade.

Florescerá a justiça nos seus dias
e uma grande paz até ao fim dos tempos.
Ele dominará de um ao outro mar,
do grande rio até aos confins da terra.

Socorrerá o pobre que pede auxílio
e o miserável que não tem amparo.
Terá compaixão dos fracos e dos pobres
e defenderá a vida dos oprimidos.

O seu nome será eternamente bendito
e durará tanto como a luz do sol;
nele serão abençoadas todas as nações,
todos os povos da terra o hão-de bendizer.


Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
(Rom 15,4-9)
Irmãos: Tudo o que foi escrito no passado foi escrito para nossa instrução, a fim de que, pela paciência e consolação que vêm das Escrituras, tenhamos esperança. O Deus da paciência e da consolação vos conceda que alimenteis os mesmos sentimentos uns para com os outros, segundo Cristo Jesus, para que, numa só alma e com uma só voz, glorifiqueis a Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo. Acolhei-vos, portanto, uns aos outros, como Cristo vos acolheu, para glória de Deus. Pois Eu vos digo que Cristo Se fez servidor dos judeus, para mostrar a fidelidade de Deus e confirmar as promessas feitas aos nossos antepassados. Por sua vez, os gentios dão glória a Deus pela sua misericórdia, como está escrito: «Por isso eu Vos bendirei entre as nações e cantarei a glória do vosso nome».


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 3,1-12)
Naqueles dias, apareceu João Baptista a pregar no deserto da Judeia, dizendo: «Arrependei-vos, porque está perto o reino dos Céus». Foi dele que o profeta Isaías falou, ao dizer: «Uma voz clama no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas’». João tinha uma veste tecida com pêlos de camelo e uma cintura de cabedal à volta dos rins. O seu alimento eram gafanhotos e mel silvestre. Acorria a ele gente de Jerusalém, de toda a Judeia e de toda a região do Jordão; e eram baptizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados. Ao ver muitos fariseus e saduceus que vinham ao seu baptismo, disse-lhes: «Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir? Praticai acções que se conformem ao arrependimento que manifestais. Não penseis que basta dizer: ‘Abraão é o nosso pai’, porque eu vos digo: Deus pode suscitar, destas pedras, filhos de Abraão. O machado já está posto à raiz das árvores. Por isso, toda a árvore que não dá fruto será cortada e lançada ao fogo. Eu baptizo-vos com água, para vos levar ao arrependimento. Mas Aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu e não sou digno de levar as suas sandálias. Ele baptizar-vos-á no Espírito Santo e no fogo. Tem a pá na sua mão: há-de limpar a eira e recolher o trigo no celeiro. Mas a palha, queimá-la-á num fogo que não se apaga».


«TEM A PÁ NA SUA MÃO»
Continuamos a prepararmo-nos para a grande celebração do Natal e este domingo escutamos João Baptista que nos descreve algumas das características do Messias que esperamos: Ele é o Senhor; é quem baptiza no Espírito Santo e no fogo; é Aquele que chega com a pá na sua mão.

Esta última referência à «pá na mão» é no mínimo curiosa e pode até despistar-nos, se começamos a imaginar estranhos paralelismos entre a figura do Messias e a famosa padeira de Aljubarrota*. A pá do Messias não serve para nos dar pancada mas sim para limpar a eira. Para quem não cresceu num ambiente agrícola esta imagem pode parecer estranha, mas uma forma eficaz de separar o trigo da palha é jogando tudo no ar, com a ajuda de uma grande pá especial. A palha aos poucos vai sendo levada pelo vento e os grãos de trigo (mais pesados) voltam a cair no chão da eira.

O Messias anunciado por João Baptista é portanto Aquele que purificará o mundo; que distinguirá o Bem do Mal. E esta distinção é hoje mais necessária que nunca. Sempre foi difícil escolher o bem e renunciar ao mal mas, pelo menos antigamente, todos conseguíamos reconhecer facilmente os dois caminhos. Actualmente, tentam “vender-nos” vícios bem antigos como se fossem novos valores. Trair, roubar, mentir… coisas que ninguém duvidava fossem pecados, hoje (aos olhos de algumas pessoas) parecem quase trunfos! Virtudes das quais podem gabar-se com vaidade!

Precisamos de limpar a nossa eira; de purificar a nossa consciência. João achava que o Messias vinha para julgar o mundo com severidade, mas no fundo o Seu julgamento significa “fazer verdade”, ou seja, chamar as coisas pelo seu nome. Se uma coisa é moralmente errada não percamos tempo a procurar absurdas justificações. Tenhamos a coragem de não nos enganarmos a nós próprios; de não nos escondermos por detrás de ambíguas explicações. Se algo na minha vida não me está a ajudar a ser uma pessoa melhor, então chegou o momento de eliminar esse comportamento; de queimá-lo no forno como palha. Se um vício ou pecado me impedem de abraçar plenamente os valores do Evangelho, tenho de ser corajoso, encarar essa verdade e trabalhar no sentido de renunciar a essa velha vida.

O Evangelho diz-nos claramente que ser “filhos de Abraão” não é garantia de acesso à salvação que Jesus veio oferecer, mas é preciso viver uma vida de fidelidade a Deus. Ou seja, não basta ter o nome inscrito no livro de registos de baptismo da paróquia, nem ter casado na Igreja, nem ter posto os filhos na catequese e aparecer lá para tirar fotografias na festa da primeira comunhão, mas é preciso uma conversão séria e empenhada. Uma conversão verdadeira.

Façamos verdade nas nossas vidas: deixemos que o Senhor separe o trigo da palha!



*Os leitores deste blog que não são portugueses provavelmente não entenderam a referência à “Padeira de Aljubarrota”. Ela é uma célebre heroína portuguesa, cujo nome anda associado à vitória dos portugueses, contra as forças castelhanas, na batalha de Aljubarrota em 1385. Diz a lenda que terminada a batalha, sete soldados espanhóis procuraram refúgio nas casas das redondezas e não encontraram melhor esconderijo que os grandes fornos de uma padaria. Mais tarde foram descobertos pela padeira que se preparava para cozer o pão. Imaginem a surpresa dos sete soldados quando a mulher, em vez de fugir apavorada pela descoberta dos inimigos, resolve pegar na sua pá de padeira e enfrentá-los. Conta-se que lhes deu tanta pancada com essa pá que acabou por matá-los a todos, tornando-se desde então uma espécie de celebridade nacional, para sempre associada à famosa vitória do exército português.


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