sábado, 25 de outubro de 2008

XXX DOMINGO DO TEMPO COMUM (ano A)



Leitura do Livro do Êxodo
(Ex 22,20-26)
Eis o que diz o Senhor: «Não prejudicarás o estrangeiro, nem o oprimirás, porque vós próprios fostes estrangeiros na terra do Egipto. Não maltratarás a viúva nem o órfão. Se lhes fizeres algum mal e eles clamarem por Mim, escutarei o seu clamor;inflamar-se-á a minha indignação e matar-vos-ei ao fio da espada. As vossas mulheres ficarão viúvas, e órfãos os vossos filhos. Se emprestares dinheiro a alguém do meu povo, ao pobre que vive junto de ti, não procederás com ele como um usurário, sobrecarregando-o com juros. Se receberes como penhor a capa do teu próximo, terás de lha devolver até ao pôr do sol, pois é tudo o que ele tem para se cobrir, é o vestuário com que cobre o seu corpo. Com que dormiria ele? Se ele Me invocar, escutá-lo-ei, porque sou misericordioso».



SALMO RESPONSORIAL – Salmo 17 (18)
Refrão: Eu vos amo, Senhor: sois a minha força.

Eu Vos amo, Senhor, minha força,
minha fortaleza, meu refúgio e meu libertador.
Meu Deus, auxílio em que ponho a minha confiança,
meu protector, minha defesa e meu salvador.

Na minha aflição invoquei o Senhor
e clamei pelo meu Deus.
Do seu templo Ele ouviu a minha voz,
e o meu clamor chegou aos seus ouvidos.

Viva o Senhor, bendito seja o meu protector;
exaltado seja Deus, meu salvador.
O Senhor dá ao Rei grandes vitórias
e usa de bondade para com o seu ungido.



Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Tessalonicenses
(1 Tes 1,5c-10)
Irmãos: Vós sabeis como procedemos no meio de vós, para vosso bem. Tornaste-vos imitadores nossos e do Senhor, recebendo a palavra no meio de muitas tribulações, com a alegria do Espírito Santo; e assim vos tornastes exemplo para todos os crentes da Macedónia e da Acaia. Porque, partindo de vós, a palavra de Deus ressoou não só na Macedónia e na Acaia, mas em toda a parte se divulgou a vossa fé em Deus, de modo que não precisamos de falar sobre ela. De facto, são eles próprios que relatam o acolhimento que tivemos junto de vós e como dos ídolos vos convertestes a Deus, para servir ao Deus vivo e verdadeiro e esperar dos Céus o seu Filho, a quem ressuscitou dos mortos: Jesus, que nos livrará da ira que há-de vir.



Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 22,34-40)
Naquele tempo, os fariseus, ouvindo dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus, reuniram-se em grupo, e um doutor da Lei perguntou a Jesus, para O experimentar: «Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?». Jesus respondeu: «‘Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu espírito’. Este é o maior e o primeiro mandamento. O segundo, porém, é semelhante a este: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’. Nestes dois mandamentos se resumem toda a Lei e os Profetas».


A CLAVE MUSICAL
Depois da controvérsia sobre o tributo a César, a classe dirigente de Jerusalém continua à procura de argumentos que assegurem a pena capital no processo a Jesus Cristo. No Evangelho deste Domingo vemos como os fariseus procuram colocá-Lo em dificuldade com a delicada questão sobre o valor e a prioridade dos mandamentos. Naquele tempo este tema era objecto de debates intermináveis entre os fariseus e os doutores da Lei. A preocupação obsessiva em actualizar a Lei, de forma a que ela respondesse a todas as questões que a vida do dia a dia punha, tinha levado os doutores da Lei a deduzir um conjunto de 613 preceitos: 365 proibições e 248 acções a pôr em prática.

Para os fariseus o mandamento mais importante era o repouso do Sábado e a transgressão desta regra devia ser punida com a morte. Apesar de serem históricos adversários, os fariseus, saduceus, escribas e doutores da Lei conseguem esquecer momentaneamente as próprias diferenças e unir-se contra Jesus. Pactuam com esta resposta pois recordam bem o que Ele ensinou quando “ousou” curar alguém no sétimo dia: «O Sábado foi feito para o homem, e não o homem para o Sábado» (Mc 2,27).

Mas a resposta de Jesus segue uma outra linha que surpreende os fariseus e supera o horizonte estreito da pergunta, indo muito mais além, ao nível das opções profundas que o homem deve fazer. Ele cita o livro do Deuteronómio, onde se fala da nossa relação com Deus (Dt 6,5) e o livro do Levítico, no que diz respeito à nossa relação com os outros (Lv 19,18). Na Sua perspectiva, “amor a Deus” e “amor aos irmãos” estão intimamente associados. Não são dois mandamentos diversos, mas duas faces da mesma moeda e a raiz de todos os mandamentos.

Ainda hoje continuamos a viver a tentação de legislar todas as acções possíveis ao homem. Se pareciam demasiados os 613 preceitos da fé hebraica, então o que pensar dos 1752 cânones do Direito Canónico da Igreja Católica? Obviamente a questão mais importante não é o número de regras que nos damos (quem tem mais; quem tem menos...) mas sim qual a lógica que iluminará todos esses mandamentos. Tal como numa composição musical, a clave dá o nome a cada uma das notas na pauta, no caso da fé cristã é o amor a Deus e o amor ao próximo que dão sentido à nossa lei.

Por toda a parte se ouvem debates importantes sobre temas actuais e algumas regras da Igreja.
Fala-se muito, por exemplo, do uso dos contraceptivos, das relações sexuais pré-matrimoniais, da questão do divórcio, do celibato dos sacerdotes, etc.
Mas atenção: nunca teremos uma resposta verdadeiramente cristã se primeiro não conseguirmos interiorizar os dois mandamentos que dão sentido a tudo o resto: amar a Deus e amar o próximo.


(tenham uma boa semana!)



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sábado, 18 de outubro de 2008

XXIX DOMINGO DO TEMPO COMUM (ano A)


Leitura do Livro de Isaías
(Is 45,1.4-6)
Assim fala o Senhor a Ciro, seu ungido, a quem tomou pela mão direita, para subjugar diante dele as nações e fazer cair as armas da cintura dos reis, para abrir as portas à sua frente, sem que nenhuma lhe seja fechada: «Por causa de Jacob, meu servo, e de Israel, meu eleito, Eu te chamei pelo teu nome e te dei um título glorioso, quando ainda não Me conhecias. Eu sou o Senhor e não há outro; fora de Mim não há Deus. Eu te cingi, quando ainda não Me conhecias, para que se saiba, do Oriente ao Ocidente, que fora de Mim não há outro. Eu sou o Senhor e mais ninguém».



SALMO RESPONSORIAL – Salmo 95 (96)
Refrão: Aclamai a glória e o poder do Senhor.

Cantai ao Senhor um cântico novo,
cantai ao Senhor, terra inteira.
Publicai entre as nações a sua glória
em todos os povos as suas maravilhas.

O Senhor é grande e digno de louvor,
mais temível que todos os deuses.
Os deuses dos gentios não passam de ídolos,
foi o Senhor quem fez os céus.

Dai ao Senhor, ó família dos povos,
dai ao Senhor glória e poder.
Dai ao Senhor a glória do seu nome,
levai-Lhe oferendas e entrai nos seus átrios.

Adorai o Senhor com ornamentos sagrados,
trema diante d’Ele a terra inteira.
Dizei entre as nações: «O Senhor é rei»,
governa os povos com equidade.



Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Tessalonicenses
(1 Tes 1,1-5b)
Paulo, Silvano e Timóteo à Igreja dos Tessalonicenses, que está em Deus Pai e no Senhor Jesus Cristo: A graça e a paz estejam convosco. Damos continuamente graças a Deus por todos vós, ao fazermos menção de vós nas nossas orações. Recordamos a actividade da vossa fé, o esforço da vossa caridade e a firmeza da vossa esperança em Nosso Senhor Jesus Cristo, na presença de Deus, nosso Pai. Nós sabemos, irmãos amados por Deus, como fostes escolhidos. O nosso Evangelho não vos foi pregado somente com palavras, mas também com obras poderosas, com a acção do Espírito Santo.



Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 22,15-21)
Naquele tempo, os fariseus reuniram-se para deliberar sobre a maneira de surpreender Jesus no que dissesse. Enviaram-Lhe alguns dos seus discípulos, juntamente com os herodianos, e disseram-Lhe: «Mestre, sabemos que és sincero e que ensinas, segundo a verdade, o caminho de Deus, sem Te deixares influenciar por ninguém, pois não fazes acepção de pessoas. Diz-nos o teu parecer: É lícito ou não pagar tributo a César?». Jesus, conhecendo a sua malícia, respondeu: «Porque Me tentais, hipócritas? Mostrai-me a moeda do tributo». Eles apresentaram-Lhe um denário, e Jesus perguntou:«De quem é esta imagem e esta inscrição?». Eles responderam: «De César». Disse-lhes Jesus: «Então, dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus».


FÉ E POLÍTICA
A classe dirigente do povo judeu decidiu em segredo que é necessário eliminar Jesus. Têm que prendê-lo, processá-lo e condená-lo à morte. Mas é preciso preparar bem a acusação para que não aconteça que saia ilibado. É necessário encontrar argumentos que confirmem em tribunal a imagem do galileu agitador e revolucionário. Resolvem tecer uma armadilha que toca um dos temas mais delicados daquela época: o pagamento do tributo ao imperador de Roma.

A Palestina tinha sido ocupada pelo Império Romano desde 63 a.C. e todos os habitantes eram obrigados a pagar esta humilhante taxa, símbolo de sujeição a César. Se Jesus se pronunciasse a favor do pagamento do tributo, seria acusado de colaboracionismo, mas se se pronunciasse contra o pagamento do imposto, seria acusado de sedição e condenado como inimigo da ordem romana.

«A César o que é de César e a Deus o que é de Deus». A resposta de Jesus supera o nível da pergunta apresentada e vai à origem profunda da questão. É uma afirmação que nos propõe o controverso problema da relação entre a fé e as realidades terrenas, neste caso particular, entre a fé e a política.

Na Bíblia não podemos encontrar um programa de governo, um sistema económico ou uma teoria científica. Deus trata-nos como adultos e confia que os seus filhos tenham inteligência e capacidade para gerir a Sua maravilhosa Criação, sem que Ele tenha de intervir a cada momento e pronunciar-se sobre todos os argumentos. Não podemos apelarmo-nos à Santíssima Trindade para impor as nossas opiniões políticas ou procurar na Palavra revelada se devemos ou não aprovar uma determinada medida económica. As realidades mundanas merecem a própria autonomia e palavras como “deus” ou “bíblia” não podem ser usadas como armas quando não conseguimos fazer valer as nossas ideias.

Mas isto não significa que os cristãos possam refugiar-se numa fé desincarnada e alienar-se do diálogo que constrói a sociedade civil. É preciso tomar posições e denunciar erros e injustiças. O mundo precisa que coloquemos as nossas capacidades e preparação ao serviço da humanidade e que através do diálogo inteligente consigamos iluminar as realidades terrenas com a luz do Evangelho.

O mundo pensa que o centro da economia é o lucro, mas nós acreditamos que ao centro deve estar o homem.
A ciência diz que tudo o que é possível é lícito, mas nós acreditamos no respeito pelo homem e pela vida humana.
A política ensina que se pode impor a razão com o uso da força, mas nós acreditamos que só através do diálogo e do exemplo se possa transformar o mundo.



(tenham uma boa semana!)


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sábado, 11 de outubro de 2008

XXVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM (ano A)




Leitura do Livro de Isaías
(Is 25,6-10ª)
Sobre este monte, o Senhor do Universo há-de preparar para todos os povos um banquete de manjares suculentos, um banquete de vinhos deliciosos: comida de boa gordura, vinhos puríssimos. Sobre este monte, há-de tirar o véu que cobria todos os povos, o pano que envolvia todas as nações; destruirá a morte para sempre. O Senhor Deus enxugará as lágrimas de todas as faces e fará desaparecer da terra inteira o opróbrio que pesa sobre o seu povo. Porque o Senhor falou. Dir-se-á naquele dia: «Eis o nosso Deus, de quem esperávamos a salvação; é o Senhor, em quem pusemos a nossa confiança. Alegremo-nos e rejubilemos, porque nos salvou. A mão do Senhor pousará sobre este monte».



SALMO RESPONSORIAL – Salmo 22 (23)
Refrão: Habitarei para sempre na casa do Senhor.

O Senhor é meu pastor: nada me falta.
Leva-me a descansar em verdes prados,
conduz-me às águas refrescantes
e reconforta a minha alma.

Ele me guia por sendas direitas, por amor do seu nome.
Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos,
não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo:
o vosso cajado e o vosso báculo me enchem de confiança.

Para mim preparais a mesa,
à vista dos meus adversários;
com óleo me perfumais a cabeça,
e o meu cálice transborda.

A bondade e a graça hão-de acompanhar-me
todos os dias da minha vida,
e habitarei na casa do Senhor
para todo o sempre.



Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses
(Filip 4,12-14.19-20)
Irmãos: Sei viver na pobreza e sei viver na abundância. Em todo o tempo e em todas as circunstâncias, tenho aprendido a ter fartura e a passar fome, a viver desafogadamente e a padecer necessidade. Tudo posso n’Aquele que me conforta. No entanto, fizestes bem em tomar parte na minha aflição. O meu Deus proverá com abundância a todas as vossas necessidades, Segundo a sua riqueza e magnificência, em Cristo Jesus. Glória a Deus, nosso Pai, pelos séculos dos séculos. Amen.



Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 22,1-14 forma breve)
Naquele tempo, Jesus dirigiu-Se de novo aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo e, falando em parábolas, disse-lhes: «O reino dos Céus pode comparar-se a um rei que preparou um banquete nupcial para o seu filho. Mandou os servos chamar os convidados para as bodas, mas eles não quiseram vir. Mandou ainda outros servos, ordenando-lhes: ‘Dizei aos convidados: Preparei o meu banquete, os bois e os cevados foram abatidos, tudo está pronto. Vinde às bodas’. Mas eles, sem fazerem caso, foram um para o seu campo e outro para o seu negócio; os outros apoderaram-se dos servos, trataram-nos mal e mataram-nos. O rei ficou muito indignado e enviou os seus exércitos, que acabaram com aqueles assassinos e incendiaram a cidade. Disse então aos servos: ‘O banquete está pronto, mas os convidados não eram dignos. Ide às encruzilhadas dos caminhos e convidai para as bodas todos os que encontrardes’. Então os servos, saindo pelos caminhos, reuniram todos os que encontraram, maus e bons. E a sala do banquete encheu-se de convidados.


SENTADOS À MESA COM DEUS
Com certeza que todos nós já fomos convidados para um casamento. À medida que me vou aproximando dos trinta, os convites dos amigos que se casam vão chegando e nestas últimas férias, quando estive em Portugal, pude celebrar uns quantos e ficar para a boda de alguns. E que festas que foram! Deve ter dado muito trabalho para organizar (e algumas dores de cabeça), mas era realmente tudo do bom e do melhor! E o mais bonito foi ver a alegria sincera com que os convidados festejavam. Dançavam, cantavam, comiam... todos felizes por ver o amor que se transforma em vida real, em vida partilhada. O Evangelho deste Domingo compara o Reino de Deus com este tipo de alegria (e sabemos que ainda há-de ser melhor!).

Mas imaginem o que seria uma boda sem convidados. As mesas preparadas, o menú escolhido, a banda já paga (sem possibilidade de reembolso...) e à última hora, os noivos deparam-se com um salão vazio, porque os convidados não quiseram aparecer. Que tristeza!

Quais os motivos que podem levar uma pessoa a recusar o convite para uma festa destas?

Participar no grande banquete (aceitar o messianismo de Jesus) significa abandonar a imagem de um deus “milagreiro”, de um deus comerciante, a quem podemos comprar a salvação. Significa passar da superstição (renunciar a medalhinhas, “rezas” e promessas/negócios...) a uma verdadeira fé de conversão! É iniciar uma vida onde a oração não é uma récita estéril, mas um profundo diálogo com o Pai; onde a salvação não pode ser negociada, mas depende da gratuidade do amor divino, que nos convida a participar do seu banquete.

A nossa fé não é um conjunto de regras que devemos seguir. Não é uma moral ou uma filosofia de vida. Não é uma lista de mandamentos ou de preceitos religiosos. A nossa fé é uma pessoa: Jesus Cristo. E a salvação é um convite, feito a todas as nações, culturas e tradições. Uma convocação feita por um Pai que aceita respostas em qualquer língua deste mundo. Ele não exige que todos sigam a mesma fórmula mágica, mas sim deseja, que todos se sentem à mesa do Seu banquete.

Infelizmente, muitas pessoas ainda preferem uma visão supersticiosa de Deus em vez do verdadeiro rosto do Pai. Porquê? Porque é fácil.
Acender uma vela? Um minuto, 20 cêntimos e já está.
Visitar Lurdes, Fátima ou Jerusalém? Basta inscrever-se nalguma peregrinação.
É tudo tão fácil... mas não serve a nada (repito: a nada!) se depois não acolhermos o convite de Deus.



(tenham uma boa semana!)


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sábado, 4 de outubro de 2008

XXVII DOMINGO DO TEMPO COMUM (ano A)


Leitura do Livro de Isaías
(Is 5,1-7)
Vou cantar, em nome do meu amigo, um cântico de amor à sua vinha. O meu amigo possuía uma vinha numa fértil colina. Lavrou-a e limpou-a das pedras, plantou-a de cepas escolhidas. No meio dela ergueu uma torre e escavou um lagar. Esperava que viesse a dar uvas, Mas ela só produziu agraços. E agora, habitantes de Jerusalém, e vós, homens de Judá, sede juízes entre mim e a minha vinha: Que mais podia fazer à minha vinha que não tivesse feito? Quando eu esperava que viesse a dar uvas, porque é que apenas produziu agraços? Agora vos direi o que vou fazer à minha vinha: vou tirar-lhe a vedação e será devastada; vou demolir-lhe o muro e será espezinhada. Farei dela um terreno deserto: não voltará a ser podada nem cavada, e nela crescerão silvas e espinheiros; e hei-de mandar às nuvens que sobre ela não deixem cair chuva. A vinha do Senhor do Universo é a casa de Israel, e os homens de Judá são a plantação escolhida. Ele esperava rectidão e só há sangue derramado; esperava justiça e só há gritos de horror.



SALMO RESPONSORIAL – Salmo 79 (80)
Refrão: A vinha do Senhor é a casa de Israel.

Arrancastes uma videira do Egipto,
expulsastes as nações para a transplantar.
Estendia até ao mar as suas vergônteas
e até ao rio os seus rebentos.

Porque lhe destruístes a vedação,
de modo que a vindime quem quer que passe pelo caminho?
Devastou-a o javali da selva
e serviu de pasto aos animais do campo.

Deus dos Exércitos, vinde de novo,
olhai dos céus e vede, visitai esta vinha.
Protegei a cepa que a vossa mão direita plantou,
o rebento que fortalecestes para Vós.

Não mais nos apartaremos de Vós:
fazei-nos viver e invocaremos o vosso nome.
Senhor, Deus dos Exércitos, fazei-nos voltar,
iluminai o vosso rosto e seremos salvos.



Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses
(Filip 4,6-9)
Irmãos: Não vos inquieteis com coisa alguma. Mas, em todas as circunstâncias, apresentai os vossos pedidos diante de Deus, com orações, súplicas e acções de graças. E a paz de Deus, que está acima de toda a inteligência, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus. Quanto ao resto, irmãos, tudo o que é verdadeiro e nobre, tudo o que é justo e puro, tudo o que é amável e de boa reputação, tudo o que é virtude e digno de louvor é o que deveis ter no pensamento. O que aprendestes, recebestes, ouvistes e vistes em mim é o que deveis praticar. E o Deus da paz estará convosco.



Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 21,33-43)
Naquele tempo, disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo: «Ouvi outra parábola: Havia um proprietário que plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar e levantou uma torre; depois, arrendou-a a uns vinhateiros e partiu para longe. Quando chegou a época das colheitas, mandou os seus servos aos vinhateiros para receber os frutos. Os vinhateiros, porém, lançando mão dos servos, espancaram um, mataram outro, e a outro apedrejaram-no. Tornou ele a mandar outros servos, em maior número que os primeiros. E eles trataram-nos do mesmo modo. Por fim, mandou-lhes o seu próprio filho, dizendo: ‘Respeitarão o meu filho’. Mas os vinhateiros, ao verem o filho, disseram entre si: ‘Este é o herdeiro; matemo-lo e ficaremos com a sua herança’. E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e mataram-no. Quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?». Eles responderam: «Mandará matar sem piedade esses malvados e arrendará a vinha a outros vinhateiros, que lhe entreguem os frutos a seu tempo». Disse-lhes Jesus: «Nunca lestes na Escritura: ‘A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; tudo isto veio do Senhor e é admirável aos nossos olhos’? Por isso vos digo: Ser-vos-á tirado o reino de Deus e dado a um povo que produza os seus frutos».



À ESPERA DE RESPOSTA...
Depois dos operários da última hora e dos dois filhos chamados ao trabalho, a liturgia deste Domingo propõe-nos (antecipando de muitos séculos as tradicionais trilogias “holiwoodianas”...) uma terceira parábola onde a vindima e a vinha são colocadas ao centro da atenção.

É-nos descrita um pouco da realidade socioeconómica da Galileia antiga, onde os terrenos de cultivo pertenciam a latifundiários que os arrendavam a camponeses indigentes em troca de uma parte dos produtos recolhidos. Em anos de baixa produção agrícola surgiam facilmente movimentos de revolta campesina. Também o referimento que encontramos na parábola ao assassinato do herdeiro é em linha com as leis daquela altura. Em caso de morte de um latifundiário sem descendência, era previsto que os seus terrenos passassem para as mãos dos primeiros a ocupá-los.

Com esta parábola, Jesus denuncia a conspiração que os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo tecem para O assassinar e sintetiza o percurso da história da salvação. É a história de um amor em crise entre um Deus irremediavelmente apaixonado e uma esposa (uma humanidade...) oportunista e infiel. Ao fim de três anos de pregação, deparamo-nos com um Jesus Cristo cansado e desiludido que reflecte sobre o próximo passo a dar para conseguir abrir os olhos (e o coração) do seu povo. A humanidade não aceita o seu Criador e persegue insistentemente uma ilusão de auto-suficiência.

O grande pecado revelado nesta parábola não é a conspiração homicida, mas a transformação da religião numa espécie de propriedade privada, disponível somente para um grupo restrito de pessoas que acreditam possuir a salvação por motivos de casta ou etnia. Jesus Cristo revela um Deus que ama todos os homens e mulheres deste mundo e uma redenção acessível a todos aqueles dispostos a partilhar os frutos da vinha. A rejeição da Sua mensagem e o repúdio violento da Sua pessoa nascem precisamente da incapacidade de aceitar que a Salvação não é propriedade de ninguém: nem de um povo, nem de um movimento, nem de uma igreja.

Quais as medidas que Deus deve tomar? A resposta chega implacável e severa pela boca dos fariseus que, sem suspeitar, condenam as próprias acções: «é preciso matar sem piedade esses malvados!». Mas o amor do Pai pelos seus filhos não concede espaço a sentimentos de vingança. Preparará um último gesto, um último sinal que revelará ao mundo o Seu amor.

A missão de Cristo culmina na cruz e na dádiva da Sua vida por nós. Não servem (não existem!) outras palavras, gestos ou sinais. Ele deu tudo o que tinha e neste momento, aguarda com esperança a nossa resposta. Já sabes o que Lhe vais dizer?



(tenham uma boa semana!)



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