sábado, 28 de maio de 2011

6º DOMINGO DA PÁSCOA (ano A)



Leitura dos Actos dos Apóstolos
(Actos 8,5-8.14-17)
Naqueles dias, Filipe desceu a uma cidade da Samaria e começou a pregar o Messias àquela gente. As multidões aderiam unanimemente às palavras de Filipe, ao ouvi-las e ao ver os milagres que fazia. De muitos possessos saíam espíritos impuros, soltando enormes gritos, e numerosos paralíticos e coxos foram curados. E houve muita alegria naquela cidade. Quando os Apóstolos que estavam em Jerusalém ouviram dizer que a Samaria recebera a palavra de Deus enviaram-lhes Pedro e João. Quando chegaram lá, rezaram pelos samaritanos, para que recebessem o Espírito Santo, que ainda não tinha descido sobre eles. Então impunham-lhes as mãos e eles recebiam o Espírito Santo.


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 65 (66)
Refrão: A terra inteira aclame o Senhor.

Aclamai a Deus, terra inteira,
cantai a glória do seu nome,
celebrai os seus louvores,
dizei a Deus: «Maravilhosas são as vossas obras».

«A terra inteira Vos adore e celebre,
entoe hinos ao vosso nome».
Vinde contemplar as obras de Deus,
admirável na sua acção pelos homens.

Todos os que temeis a Deus, vinde e ouvi,
vou narrar-vos quanto Ele fez por mim.
Bendito seja Deus que não rejeitou a minha prece,
nem me retirou a sua misericórdia.


Leitura da Primeira Epístola de São Pedro
(1 Pedro 3,15-18)
Caríssimos: Venerai Cristo Senhor em vossos corações, prontos sempre a responder, a quem quer que seja, sobre a razão da vossa esperança. Mas seja com brandura e respeito, conservando uma boa consciência, para que, naquilo mesmo em que fordes caluniados, sejam confundidos os que dizem mal do vosso bom procedimento em Cristo. Mais vale padecer por fazer o bem, se for essa a vontade de Deus, do que por fazer o mal. Na verdade, Cristo morreu uma só vez pelos nossos pecados, o Justo pelos injustos, para nos conduzir a Deus. Morreu segundo a carne, mas voltou à vida pelo Espírito.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
(João 14,15-21)
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Se Me amardes, guardareis os meus mandamentos. E Eu pedirei ao Pai, que vos dará outro Defensor, para estar sempre convosco: o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não O vê nem O conhece, mas que vós conheceis, porque habita convosco e está em vós. Não vos deixarei órfãos: voltarei para junto de vós. Daqui a pouco o mundo já não Me verá, mas vós ver-Me-eis, porque Eu vivo e vós vivereis. Nesse dia reconhecereis que Eu estou no Pai e que vós estais em Mim e Eu em vós. Se alguém aceita os meus mandamentos e os cumpre, esse realmente Me ama. E quem Me ama será amado por meu Pai e Eu amá-lo-ei e manifestar-Me-ei a ele».


PARÁCLITO
Se alguém te perguntasse, «quando nasceu a Igreja?», saberias o que responder? Será que surgiu em Belém, quando os pastores e os reis adoraram o Menino na manjedoura? Ou talvez, quando Jesus chamou Simão, André, Tiago e João, para que O seguissem e fossem seus discípulos? Ou possivelmente, surgiu na última ceia, quando o pão e o vinho, consagrados e partilhados, anteciparam o momento em que o corpo de Jesus foi pregado na cruz…?

Começámos o ano litúrgico com o tempo do Advento, que nos preparou para a grande festa do Natal, para a celebração do nascimento de Jesus e do mistério da Incarnação. Mais tarde, durante quarenta dias e quarenta noites preparámo-nos para a solenidade da Páscoa e para o evento da morte e ressurreição de Cristo. Porém, o ano está longe de terminar e aproxima-se cada vez mais a celebração que recorda o início da história de Igreja. Em toda a narrativa da salvação, desde Génesis até ao Evangelho, encontramos sinais (sementes) que indicam a presença germinal da futura comunidade cristã. Mas é na solenidade de Pentecostes, celebrada cinquenta dias após a Páscoa, que a Igreja nasce definitivamente, acolhe o dom do Espírito Santo e inicia a sua missão de anúncio e testemunho.

É em vista dessa grande celebração que a liturgia da Palavra nos propõe hoje esta página do Evangelho. Numa noite de quinta-feira do ano trinta, na véspera da Sua morte na cruz, Jesus reuniu-Se com os seus discípulos numa “ceia”. No decurso dessa “ceia”, Ele despediu-Se e fez as últimas recomendações. As palavras de Jesus soam como um “testamento final”: Ele sabe que vai partir para o Pai e que os discípulos vão continuar no mundo. Jesus convida os discípulos a seguir o Seu caminho de entrega a Deus e de amor radical aos irmãos. É seguindo esse “caminho” que eles se tornarão homens novos e que chegarão a ser a “família de Deus”. Os discípulos, no entanto, estão inquietos e desconcertados. Será possível percorrer esse “caminho” se Jesus não caminhar ao lado deles? Como é que eles manterão a comunhão com Jesus e como receberão d’Ele a força para doar, dia a dia, a própria vida?

Jesus anuncia o envio do “Paráclito”, que estará sempre com eles. A palavra grega “paráklêtos”, utilizada por João, pertence ao vocabulário jurídico e designa, nesse contexto, aquele que ajuda ou defende o acusado. Pode, portanto, traduzir-se como “advogado”, “auxiliar” ou “defensor”. Jesus afirma aos discípulos que não os deixará órfãos. Ele identifica-Se com o Pai, por ter o mesmo Espírito; os discípulos identificar-se-ão com Jesus, por acção do Espírito: «Nesse dia reconhecereis que Eu estou no Pai e que vós estais em Mim e Eu em vós».

Irmãos e irmãs, a grande solenidade de Pentecostes aproxima-se. Peçamos a Deus que nos ajude a eliminar, da nossa vida, todos os obstáculos que impedem a acção do Espírito Santo, para que possamos no mundo ser testemunhas credíveis, missionários corajosos e membros dignos da “família de Deus”: a Igreja una, santa, católica e apostólica.


(Tenham uma boa semana!)



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sábado, 21 de maio de 2011

5º DOMINGO DA PÁSCOA (ano A)



Leitura dos Actos dos Apóstolos
(Actos 6,1-7)
Naqueles dias, aumentando o número dos discípulos, os helenistas começaram a murmurar contra os hebreus, porque no serviço diário não se fazia caso das suas viúvas. Então os Doze convocaram a assembleia dos discípulos e disseram: «Não convém que deixemos de pregar a palavra de Deu para servirmos às mesas. Escolhei entre vós, irmãos, sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria para lhes confiarmos esse cargo. Quanto a nós, vamos dedicar-nos totalmente à oração e ao ministério da palavra». A proposta agradou a toda a assembleia; e escolheram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Parmenas e Nicolau, prosélito de Antioquia. Apresentaram-nos aos Apóstolos e estes oraram e impuseram as mãos sobre eles. A palavra de Deus ia-se divulgando cada vez mais; o número dos discípulos aumentava consideravelmente em Jerusalém e submetia-se à fé também grande número de sacerdotes.


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 32 (33)
Refrão: Esperamos, Senhor, na vossa misericórdia.

Justos, aclamai o Senhor,
os corações rectos devem louvá-1’O.
Louvai o Senhor com a cítara,
Cantai-Lhe salmos ao som da harpa.

A palavra do Senhor é recta,
da fidelidade nascem as suas obras.
Ele ama a justiça e a rectidão:
a terra está cheia da bondade do Senhor.

Os olhos do Senhor estão voltados para os que O temem,
para os que esperam na sua bondade,
para libertar da morte as suas almas
e os alimentar no tempo da fome.


Leitura da Primeira Epístola de São Pedro
(1 Pedro 2,4-9)
Caríssimos: Aproximai-vos do Senhor, que é a pedra viva, rejeitada pelos homens, mas escolhida e preciosa aos olhos de Deus. E vós mesmos, como pedras vivas, entrai na construção deste templo espiritual, para constituirdes um sacerdócio santo, destinado a oferecer sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus por Jesus Cristo. Por isso se lê na Escritura: «Vou pôr em Sião uma pedra angular, escolhida e preciosa; e quem nela puser a sua confiança não será confundido» Honra, portanto, a vós que acreditais. Para os incrédulos, porém, «a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular», «pedra de tropeço e pedra de escândalo». Tropeçaram por não acreditarem na palavra, à qual foram destinados. Vós, porém, sois «geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido por Deus, para anunciar os louvores» d’Aquele que vos chamou das trevas para a sua luz admirável.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
(Jo 14,1-12)
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Não se perturbe o vosso coração. Se acreditais em Deus, acreditai também em Mim. Em casa de meu Pai há muitas moradas; se assim não fosse, Eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos um lugar e virei novamente para vos levar comigo, para que, onde Eu estou, estejais vós também. Para onde Eu vou, conheceis o caminho». Disse-Lhe Tomé: «Senhor, não sabemos para onde vais: como podemos conhecer o caminho? Respondeu-lhe Jesus: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por Mim. Se Me conhecêsseis, conheceríeis também o meu Pai. Mas desde agora já O conheceis e já O vistes». Disse-Lhe Filipe: «Senhor, mostra-nos o Pai e isto nos basta». Respondeu-lhe Jesus: «Há tanto tempo que estou convosco e não Me conheces, Filipe? Quem Me vê, vê o Pai. Como podes tu dizer: ‘Mostra-nos o Pai’? Não acreditas que Eu estou no Pai e o Pai está em Mim? As palavras que Eu vos digo, não as digo por Mim próprio; mas é o Pai, permanecendo em Mim, que faz as obras. Acreditai-Me: Eu estou no Pai e o Pai está em Mim; acreditai ao menos pelas minhas obras. Em verdade, em verdade vos digo: quem acredita em Mim fará também as obras que Eu faço e fará ainda maiores que estas, porque Eu vou para o Pai».


SUPERFICIALIDADE
Esta semana no meu curso de francês, durante um exercício de síntese e argumentação oral, uma colega apresentou o tema da secularização (tema, aliás, escolhido pela professora) e não foram precisas muitas “cerejas” para que chegássemos à conversa da igreja, da fé e de Cristo. Como seria de esperar, na nossa turma havia de tudo um pouco: crentes, ateus, agnósticos, pessoas de outras religiões… e inevitavelmente, havia também a posição de quem admira a cultura cristã e os valores que ela defende, mas que vê em Jesus apenas um grande sábio; certamente, não o Verbo Incarnado.

É uma opinião vista por muitos como equilibrada e respeitosa. E ela mesma é digna do respeito de todos. No entanto, permitam-me que partilhe convosco uma ideia que acalento há algum tempo: negar a divindade de Jesus sem porém abandonar a sabedoria e a força do Seu exemplo moral é possível, mas apenas se permanecemos a um nível muito superficial da Sua história e mensagem. Não vos parece que, tal como um equilibrista na corda bamba, bastará pouco para que tombemos (ou para um lado, ou para o outro) à medida que avançamos na leitura do Evangelho? Pois de Jesus, inevitavelmente chegaremos a uma de duas conclusões: ou era realmente o Messias, ou era completamente doido, megalómano, mentiroso!

Bastará ler o Evangelho deste domingo: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por Mim». E ainda: «Quem Me vê, vê o Pai». Sócrates, Aristóteles e Ghandi eram sem dúvida homens sábios, porém nenhum deles ousou declarar-se caminho, verdade e vida! Na História encontramos homens que se reputam iluminados (Buda), ou inspirados (Maomé), mas as afirmações de Jesus superam largamente essas concepções:

EU SOU
Já esta expressão (“egô eimi”) é em si uma identificação que nos leva ao nome revelado por Deus a Moisés, no Antigo Testamento, no livro do Êxodo: «Assim dirás aos filhos de Israel: “Eu Sou” enviou-me a vós!» (Ex 3,13.14). Jesus não pretende ser “mais um profeta”, mas arroga-Se a condição de Filho de Deus: «Quem Me vê, vê o Pai».

O CAMINHO
O Evangelho diz-nos que seguir Jesus não é apenas seguir um mestre, um guia que indica uma estrada. Ele não só caminha connosco, mas é o Caminho em si: «Ninguém vai ao Pai senão por Mim».

A VERDADE
Jesus é directo: revelando Deus Pai, não diz apenas a verdade, mas é a verdade incarnada, pois Deus revela-se n’Ele. «Se Me conhecêsseis, conheceríeis também o meu Pai. Mas desde agora já O conheceis e já O vistes».

E A VIDA
Ninguém é a causa da própria existência; todos somos contingentes, criaturas, que não possuem a vida em sim. Deus, no entanto, é (como se diz em filosofia) a causa primeira, o Ser necessário, a vida com “V” maiúsculo. Jesus identifica-se com a fonte da vida: «assim como o Pai ressuscita os mortos e os faz viver, também o Filho faz viver aqueles que quer». (Jo 5,21)

As afirmações de Jesus deixam-nos pouco espaço de manobra: como conciliar estas declarações com a visão de um mero homem sábio e sensato? Tal como dizia o grande físico e matemático francês Blaise Pascal, de uma forma ou de outra, não podemos não apostar, mas cada um deve “arriscar” uma própria posição: ou consideramos Jesus uma fraude que devemos rejeitar ou aceitamo-Lo na totalidade e tentamos agir em consequência. Ou mente, ou diz a verdade.

No entanto, a nossa resposta não pode ser improvisada, apressada, ou irreflectida: cairíamos de novo no erro da superficialidade. Não bastam noções vagas de religião, mas, munidos de espírito crítico, devemos tentar conhecer em profundidade os elementos que circundam o “caso Jesus”. É incrível que hoje se possa terminar uma licenciatura em História sem sequer roçar o problema da existência do obscuro carpinteiro hebreu que quebrou a História em dois pedaços: antes de Cristo, depois de Cristo. É incrível que alguém se possa diplomar em línguas antigas, estudar tudo sobre os mitos greco-romanos, e nunca analisar os textos gregos do Novo Testamento.

Amigos, não nos podemos dar ao luxo de ser vagos e superficiais, pois a resposta que damos à questão “Jesus Cristo” pode muito bem ser a resposta mais importante da nossa vida.

Bom domingo.



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sábado, 14 de maio de 2011

4º DOMINGO DA PÁSCOA (ano A)



Leitura dos Actos dos Apóstolos
(Actos 2,14a.36-41)
No dia de Pentecostes, Pedro, de pé, com os onze Apóstolos, ergueu a voz e falou ao povo: «Saiba com absoluta certeza toda a casa de Israel que Deus fez Senhor e Messias esse Jesus que vós crucificastes». Ouvindo isto, sentiram todos o coração trespassado e perguntaram a Pedro e aos outros Apóstolos: «Que havemos de fazer, irmãos?» Pedro respondeu lhes: «Convertei-vos e peça cada um de vós o Baptismo em nome de Jesus Cristo, para vos serem perdoados os pecados. Recebereis então o dom do Espírito Santo, porque a promessa desse dom é para vós, para os vossos filhos e para quantos, de longe, ouvirem o apelo do Senhor nosso Deus». E com muitas outras palavras os persuadia e exortava, dizendo: «Salvai-vos desta geração perversa». Os que aceitaram as palavras de Pedro receberam o Baptismo, e naquele dia juntaram-se aos discípulos cerca de três mil pessoas.


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 22 (23)
Refrão: O Senhor é meu pastor: nada me faltará.

O Senhor é meu pastor: nada me falta.
Leva-me a descansar em verdes prados,
conduz-me às águas refrescantes
e reconforta a minha alma.

Ele me guia por sendas direitas por amor do seu nome.
Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos,
não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo
o vosso cajado e o vosso báculo me enchem de confiança.

Para mim preparais a mesa
à vista dos meus adversários;
com óleo me perfumais a cabeça
e o meu cálice transborda.

A bondade e a graça hão de acompanhar-me
todos os dias da minha vida,
e habitarei na casa do Senhor
para todo o sempre.


Leitura da Primeira Epístola de São Pedro
(1 Pedro 2,20b-25)
Caríssimos: Se vós, fazendo o bem, suportais o sofrimento com paciência, isto é uma graça aos olhos de Deus. Para isto é que fostes chamados, porque Cristo sofreu também por vós, deixando-vos o exemplo, para que sigais os seus passos. Ele não cometeu pecado algum e na sua boca não se encontrou mentira. Insultado, não pagava com injúrias; maltratado, não respondia com ameaças; mas entregava-Se Àquele que julga com justiça. Ele suportou os nossos pecados no seu Corpo, no madeiro da cruz, a fim de que, mortos para o pecado, vivamos para a justiça: pelas suas chagas fomos curados. Vós éreis como ovelhas desgarradas, mas agora voltastes para o pastor e guarda das vossas almas.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
(Jo 10,1-10)
Naquele tempo, disse Jesus: «Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que não entra no aprisco das ovelhas pela porta, mas entra por outro lado, é ladrão e salteador. Mas aquele que entra pela porta é o pastor das ovelhas. O porteiro abre-lhe a porta e as ovelhas conhecem a sua voz. Ele chama cada uma delas pelo seu nome e leva-as para fora. Depois de ter feito sair todas as que lhe pertencem, caminha à sua frente e as ovelhas seguem-no, porque conhecem a sua voz. Se for um estranho, não o seguem, mas fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos». Jesus apresentou-lhes esta comparação, mas eles não compreenderam o que queria dizer. Jesus continuou: «Em verdade, em verdade vos digo: Eu sou a porta das ovelhas. Aqueles que vieram antes de Mim são ladrões e salteadores, mas as ovelhas não os escutaram. Eu sou a porta. Quem entrar por Mim será salvo: é como a ovelha que entra e sai do aprisco e encontra pastagem. O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir. Eu vim para que as minhas ovelhas tenham vida e a tenham em abundância».


CONHECER A VOZ
O quarto domingo do tempo Pascal é chamado “Domingo do Bom Pastor” pois, cada ano, a liturgia propõe-nos um trecho do décimo capítulo do Evangelho segundo S. João, onde Jesus se apresenta com esse título.

Na nossa cultura urbana, o “pastor” é quase uma figura de outras eras, que pouco evoca, a não ser um mundo distante e quase fabulista, que pouco ou nada tem a ver com o nosso quotidiano. Em contrapartida, conhecemos bem a figura do presidente, do líder, do chefe: não raras vezes, é alguém que se impõe pela força, que manipula as massas, que escraviza os que estão sob a sua autoridade, que se aproveita dos fracos, que humilha os mais débeis… Ao propor-nos a figura bíblica do “Bom Pastor”, o Evangelho convida-nos a reflectir sobre o serviço da autoridade. É-nos proposta como modelo de líder (ou de “Pastor”) uma figura que oferece a vida, que serve, que respeita a liberdade das pessoas, que se dedica totalmente, que ama gratuitamente.

Para os cristãos, o Pastor por excelência é Cristo: Ele recebeu do Pai a missão de nos conduzir das trevas para a luz, da escravidão para a liberdade, da morte para a vida. No entanto, devemos responder com honestidade: o nosso Pastor é, de facto, Cristo, ou temos outros “pastores” que nos arrastam e que são as referências fundamentais à volta das quais construímos a nossa existência? Qual é a voz que condiciona as nossas opções? A voz do politicamente correcto? A voz da opinião pública? A voz do presidente do partido? A voz do comodismo e da instalação? A voz do preservar os nossos esquemas egoístas e os nossos privilégios? A voz do êxito e do triunfo a qualquer custo? A voz do herói mais giro da telenovela? A voz do programa de maior audiência da televisão? A voz dos instintos, apetites e desejos?

Qual é a voz que te conduz?

Bom domingo e boa reflexão.



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sábado, 7 de maio de 2011

3º DOMINGO DA PÁSCOA (ano A)



Leitura dos Actos dos Apóstolos
(Actos 2,14.22-33)
No dia de Pentecostes, Pedro, de pé, com os onze Apóstolos, ergueu a voz e falou ao povo: «Homens de Israel, ouvi estas palavras: Jesus de Nazaré foi um homem acreditado por Deus junto de vós com milagres, prodígios e sinais, que Deus realizou no meio de vós, por seu intermédio, como sabeis. Depois de entregue, segundo o desígnio imutável e a previsão de Deus, vós destes-Lhe a morte, cravando-O na cruz pela mão de gente perversa. Mas Deus ressuscitou-O, livrando-O dos laços da morte, porque não era possível que Ele ficasse sob o seu domínio. Diz David a seu respeito: ‘O Senhor está sempre na minha presença, com Ele a meu lado não vacilarei. Por isso o meu coração se alegra e a minha alma exulta e até o meu corpo descansa tranquilo. Vós não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos, nem deixareis o vosso Santo sofrer a corrupção. Destes-me a conhecer os caminhos da vida, a alegria plena em vossa presença’. Irmãos, seja-me permitido falar-vos com toda a liberdade: o patriarca David morreu e foi sepultado e o seu túmulo encontra-se ainda hoje entre nós. Mas, como era profeta e sabia que Deus lhe prometera sob juramento que um descendente do seu sangue havia de sentar-se no seu trono, viu e proclamou antecipadamente a ressurreição de Cristo, dizendo que Ele não O abandonou na mansão dos mortos, nem a sua carne conheceu a corrupção. Foi este Jesus que Deus ressuscitou e disso todos nós somos testemunhas. Tendo sido exaltado pelo poder de Deus, recebeu do Pai a promessa do Espírito Santo, que Ele derramou, como vedes e ouvis»


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 15 (16)
Refrão: Mostrai-me, Senhor, o caminho da vida.

Defendei-me, Senhor; Vós sois o meu refúgio.
Digo ao Senhor: Vós sois o meu Deus.
Senhor, porção da minha herança e do meu cálice,
está nas Vossas mãos o meu destino.

Bendigo o Senhor por me ter aconselhado,
até de noite me inspira interiormente.
O Senhor está sempre na minha presença,
com Ele a meu lado não vacilarei.

Por isso o meu coração se alegra e a minha alma exulta
e até o meu corpo descansa tranquilo.
Vós não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos,
nem deixareis o vosso fiel conhecer a corrupção.

Dar-me-eis a conhecer os caminhos da vida,
alegria plena em Vossa presença,
delícias eternas à Vossa direita.


Leitura da Primeira Epístola de São Pedro
(1 Pedro 1,17-21)
Caríssimos: Se invocais como Pai Aquele que, sem acepção de pessoas, julga cada um segundo as suas obras, vivei com temor, durante o tempo de exílio neste mundo. Lembrai-vos que não foi por coisas corruptíveis, como prata e oiro, que fostes resgatados da vã maneira de viver, herdada dos vossos pais, mas pelo sangue precioso de Cristo, Cordeiro sem defeito e sem mancha, predestinado antes da criação do mundo e manifestado nos últimos tempos por vossa causa. Por Ele acreditais em Deus, que O ressuscitou dos mortos e Lhe deu a glória, para que a vossa fé e a vossa esperança estejam em Deus.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 24,13-35)
Dois dos discípulos de Emaús iam a caminho duma povoação chamada Emaús, que ficava a sessenta estádios de Jerusalém. Conversavam entre si sobre tudo o que tinha sucedido. Enquanto falavam e discutiam, Jesus aproximou-Se deles e pôs-Se com eles a caminho. Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem. Ele perguntou-lhes. «Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?» Pararam entristecidos. E um deles, chamado Cléofas, respondeu: «Tu és o único habitante de Jerusalém a ignorar o que lá se passou estes dias». E Ele perguntou: «Que foi?» Responderam-Lhe: «O que se refere a Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo; e como os príncipes dos sacerdotes e os nossos chefes O entregaram para ser condenado à morte e crucificado. Nós esperávamos que fosse Ele quem havia de libertar Israel. Mas, afinal, é já o terceiro dia depois que isto aconteceu. É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos sobressaltaram: foram de madrugada ao sepulcro não encontraram o corpo de Jesus e vieram dizer que lhes tinham aparecido uns Anjos a anunciar que Ele estava vivo. Mas a Ele não O viram». Então Jesus disse-lhes: «Homens sem inteligência e lentos de espírito para acreditar em tudo o que os profetas anunciaram Não tinha o Messias de sofrer tudo isso para entrar na Sua glória?» Depois, começando por Moisés e passando por todos os Profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que Lhe dizia respeito. Ao chegarem perto da povoação para onde iam, Jesus fez menção de ir para diante. Mas eles convenceram-n’O a ficar, dizendo: «Ficai connosco, Senhor, porque o dia está a terminar e vem caindo a noite» Jesus entrou e ficou com eles. E quando Se pôs à mesa, tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho. Nesse momento abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-n’O. Mas Ele desapareceu da sua presença. Disseram então um para o outro: «Não ardia cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?» Partiram imediatamente de regresso a Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os que estavam com ele, que diziam: «Na verdade, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão». E eles contaram o que tinha acontecido no caminho e como O tinham reconhecido ao partir o pão.


PALAVRA E PÃO
Desde as celebrações do Tríduo Pascal, as páginas do Evangelho convidam-nos a repercorrer o difícil caminho que levou a Igreja primitiva a abraçar a fé na Ressurreição de Cristo. Não encontramos “descontos” nestas leituras, nem qualquer tipo de ingénuo facilitismo. Cada episódio narrado propõe um novo indício da Ressurreição, sem que no entanto se esconda ou dissimule a inicial incredulidade dos discípulos e as dificuldades que tiveram em aceitar esta incrível realidade.

O primeiro indício apresentou-se sob a forma de um túmulo vazio, um facto que em si suscita inquietude. No entanto, esses sentimentos de desassossego (e basta-nos pensar nas reacções de Simão Pedro ou de Maria Madalena) nem sempre se traduzem em fé. Depois foi a vez de Tomé Dídimo e com ele escutámos os primeiros relatos de aparições e encontros com o Senhor. Mas não bastou (nem a nós, nem a Tomé) o anúncio e o testemunho dos discípulos: queremos mais; queremos “ver para crer”.

Hoje o Evangelho relata-nos a experiência de dois discípulos que vão a caminho de Emaús. Um chama-se Cléofas. O outro permanece anónimo (como se Lucas nos quisesse dizer que podia ser “qualquer um” de nós). Ambos conhecem a história de Jesus de Nazaré e estão ao corrente do desaparecimento do corpo e dos primeiros anúncios da Ressurreição. Contudo, não acreditam que sejam verdade e nem mesmo aguardam alguns dias em Jerusalém para ver o resultado desses “boatos”, mas apressam-se a regressar à própria aldeia, sem esperança e sem fé, pois para eles, a aventura messiânica do jovem carpinteiro da Galileia terminou no pior dos modos: uma morte vergonhosa numa cruz.

É neste contexto de desespero e de desânimo que os dois discípulos são abordados por um “desconhecido”. É graças a Ele (às Suas palavras e aos Seus gestos) que o encontro entre os três viajantes assume imediatamente contornos que nos são muito familiares e cujo esquema repetimos todos os domingos: a “explicação das Escrituras”, que permite aos discípulos entenderem a lógica do plano de Deus em relação a Jesus e o “partir do pão”, que faz com que os discípulos entrem em comunhão com Jesus e o reconheçam no mistério da Ressurreição, correspondem aos dois momentos essenciais da celebração da Missa: em primeiro lugar, a liturgia da Palavra, seguida ulteriormente pela liturgia Eucarística.

Se a fé na Ressurreição passa pelo encontro pessoal com o Senhor, a página do Evangelho deste domingo ensina-nos que o encontro com Jesus vivo e ressuscitado é possível hoje (e sempre) na celebração comunitária da Santa Missa. Sempre que nos sentamos à mesa com a comunidade e partilhamos a Palavra e o Pão que Jesus nos oferece, damo-nos conta de que o Ressuscitado continua vivo, de que caminha ao nosso lado, alimentando-nos com a esperança que brota das Escrituras e ensinando-nos que a felicidade está no dom, na partilha, no amor. Sempre que nos juntamos com os irmãos à volta da mesa de Deus, celebrando na alegria e na festa o Amor, a partilha e o serviço, encontramos o Ressuscitado a encher a nossa vida de sentido, de plenitude, de vida autêntica.

E quando O encontramos? Que fazer com Ele? Lucas responde: Temos de levá-l’O pelos caminhos do mundo, temos de partilhá-l’O com os nossos irmãos, temos de dizer a todos que Ele está vivo e que oferece aos homens (através dos nossos gestos de amor, de partilha, de serviço) a vida nova, plena e definitiva.

Um bom domingo a todos!


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