sábado, 29 de novembro de 2008

1º DOMINGO DO ADVENTO (ano B)



Leitura do Livro de Isaías
(Is 63,16b-17.19b; 64,2b-7)
Vós, Senhor, sois nosso Pai e nosso Redentor, desde sempre, é o vosso nome. Porque nos deixais, Senhor, desviar dos vossos caminhos e endurecer o nosso coração, para que não Vos tema? Voltai, por amor dos vossos servos e das tribos da vossa herança. Oh, se rasgásseis os céus e descêsseis! Ante a vossa face estremeceriam os montes! Mas Vós descestes e perante a vossa face estremeceram os montes. Nunca os ouvidos escutaram, nem os olhos viram que um Deus, além de Vós, fizesse tanto em favor dos que n’Ele esperam. Vós saís ao encontro dos que praticam a justiça e recordam os vossos caminhos. Estais indignado contra nós, porque pecámos e há muito que somos rebeldes, mas seremos salvos. Éramos todos como um ser impuro, as nossas acções justas eram todas como veste imunda. Todos nós caímos como folhas secas, as nossas faltas nos levavam como o vento. Ninguém invocava o vosso nome, ninguém se levantava para se apoiar em Vós, porque nos tínheis escondido o vosso rosto e nos deixáveis à mercê das nossas faltas. Vós, porém, Senhor, sois nosso Pai e nós o barro de que sois o Oleiro; somos todos obra das vossas mãos.


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 79 (80)
Refrão: Senhor nosso Deus, fazei-nos voltar,
mostrai-nos o vosso rosto e seremos salvos.

Pastor de Israel, escutai,
Vós que estais sentado sobre os Querubins, aparecei.
Despertai o vosso poder
e vinde em nosso auxílio.

Deus dos Exércitos, vinde de novo,
olhai dos céus e vede, visitai esta vinha.
Protegei a cepa que a vossa mão direita plantou,
o rebento que fortalecestes para Vós.

Estendei a mão sobre o homem que escolhestes,
sobre o filho do homem que para Vós criastes;
e não mais nos apartaremos de Vós:
fazei-nos viver e invocaremos o vosso nome.


Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Coríntios
(1 Cor 1,3-9)
Irmãos: A graça e a paz vos sejam dadas da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo. Dou graças a Deus, em todo o tempo, a vosso respeito, pela graça divina que vos foi dada em Cristo Jesus. Porque fostes enriquecidos em tudo: em toda a palavra e em todo o conhecimento; e deste modo, tornou-se firme em vós o testemunho de Cristo. De facto, já não vos falta nenhum dom da graça, a vós que esperais a manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele vos tornará firmes até ao fim, para que sejais irrepreensíveis no dia de Nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é Deus, por quem fostes chamados à comunhão com seu Filho, Jesus Cristo, Nosso Senhor.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
(Mc 13,33-37)
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: "Acautelai-vos e vigiai, porque não sabeis quando chegará o momento. Será como um homem que partiu de viagem: ao deixar a sua casa, deu plenos poderes aos seus servos, atribuindo a cada um a sua tarefa, e mandou ao porteiro que vigiasse. Vigiai, portanto, visto que não sabeis quando virá o dono da casa: se à tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se de manhãzinha; não se dê o caso que, vindo inesperadamente, vos encontre a dormir. O que vos digo a vós, digo-o a todos: Vigiai!"



A RAPOSA E O PRÍNCIPE
Este Domingo marca o início de um novo ano para a Igreja Católica Romana. É o primeiro Domingo de Advento (do latim Adventus, que significa “chegada”), o primeiro tempo do ano litúrgico, o qual antecede o Natal.

Por três vezes o evangelho desta semana exorta à vigilância. Vigiai! Vigiai! Vigiai! Uma insistência que pode muito bem enganar um leitor inexperiente... Quem é que deve chegar? É um amigo ou um inimigo? Devemos vigiar porque está para regressar um aliado ou alguém que nos aterroriza?

A parábola de hoje, lida só por ela poderia muito bem induzir no erro de dever esperar “com receio” a vinda de Jesus. Mas não nos podemos esquecer que esta parábola não foi escrita como um texto isolado mas está inserida num evangelho que propõe uma imagem muito clara de Deus e do seu Filho.

Quem deve regressar não é um senhor terrível e tirano, mas sim o Deus da Misericórdia e do Amor. Só quem já se apaixonou é que pode entender o tipo de espera e vigilância a que nos convida o evangelho. Nunca vos aconteceu ir espreitar à janela de dez em dez minutos, mesmo sabendo que ainda faltam duas horas para que o vosso amor chegue? Ou olhar para o telemóvel cinco vezes no espaço de meia hora, na esperança de encontrar uma mensagem ou uma chamada não atendida?

O tempo de Advento é o período da espera apaixonada que tão habilmente foi explicado pela raposa ao principezinho numa das mais belas páginas do famoso livro de Saint-Exupéry.

«(...) Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração (...)»

Eis o tempo de Advento! Eis a preparação ao Natal! Esperamos com emoção o Senhor que nos cativou, que conquistou o nosso coração e durante quatro semanas preparamos com alegria a nossa casa e o nosso coração para O poder acolher bem.

(tenham uma boa semana!)

PS: Se por acaso há já muito tempo não lêem o “Principezinho”, ou se nunca o leram (que vergonha!) basta clicar AQUI para tirar a barriga da miséria...



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domingo, 23 de novembro de 2008

SOLENIDADE DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO


Leitura da Profecia de Ezequiel
(Ez 34,11-12.15-17)
Eis o que diz o Senhor Deus: «Eu próprio irei em busca das minhas ovelhas e hei-de encontrá-las. Como o pastor vigia o seu rebanho, Quando estiver no meio das ovelhas que andavam tresmalhadas, para as tirar de todos os sítios em que se desgarraram num dia de nevoeiro e de trevas. Eu apascentarei as minhas ovelhas, Eu as levarei a repousar, diz o Senhor. Hei-de procurar a que anda tresmalhada. Tratarei a que estiver ferida, darei vigor à que andar enfraquecida E velarei pela gorda e vigorosa. Hei-de apascentá-las com justiça. Quanto a vós, meu rebanho, assim fala o Senhor Deus: Hei-de fazer justiça entre ovelhas e ovelhas, entre carneiros e cabritos».


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 22 (23)
Refrão: O Senhor é meu pastor: nada me faltará.

O Senhor é meu pastor: nada me falta.
Leva-me a descansar em verdes prados,
conduz-me às águas refrescantes
e reconforta a minha alma.

Ele me guia por sendas direitas,
por amor do seu nome.
Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos
não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo.

Para mim preparais a mesa
à vista dos meus adversários;
com óleo me perfumais a cabeça
e o meu cálice transborda.

A bondade e a graça hão-de acompanhar-me
todos os dias da minha vida,
e habitarei na casa do Senhor
para todo o sempre.



Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Coríntios
(1 Cor 15,20-26.28)
Irmãos: Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos que morreram. Uma vez que a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos mortos; porque, do mesmo modo que em Adão todos morreram, assim também em Cristo serão todos restituídos à vida. Cada qual, porém, na sua ordem: primeiro, Cristo, como primícias; a seguir, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda. Depois será o fim, quando Cristo entregar o reino a Deus seu Pai. É necessário que Ele reine, até que tenha posto todos os inimigos debaixo dos seus pés. E o último inimigo a ser aniquilado é a morte, porque Deus «tudo submeteu debaixo dos seus pés». Quando todas as coisas Lhe forem submetidas, então também o próprio Filho Se há-de submeter àquele que Lhe submeteu todas as coisas, para que Deus seja tudo em todos.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 25,31-46)
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Quando o Filho do homem vier na sua glória com todos os seus Anjos, sentar-Se-á no seu trono glorioso. Todas as nações se reunirão na sua presença e Ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos; e colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda. Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Vinde, bem ditos de meu Pai; recebei como herança o reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome e destes-Me de comer; tive sede e destes-me de beber; era peregrino e Me recolhestes; não tinha roupa e Me vestistes; estive doente e viestes visitar-Me; estava na prisão e fostes ver-Me’. Então os justos Lhe dirão: ‘Senhor, quando é que Te vimos com fome e Te demos de comer, ou com sede e Te demos de beber? Quando é que Te vimos peregrino e te recolhemos, ou sem roupa e Te vestimos? Quando é que Te vimos doente ou na prisão e Te fomos ver?’ E o Rei lhes responderá: ‘Em verdade vos digo: Quantas vezes o fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes’. Dirá então aos que estiverem à sua esquerda: ‘Afastai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o demónio e os seus anjos. Porque tive fome e não Me destes de comer; tive sede e não Me destes de beber; era peregrino e não Me recolhestes; estava sem roupa e não Me vestistes; estive doente e na prisão e não Me fostes visitar’. Então também eles Lhe hão-de perguntar: ‘Senhor, quando é que Te vimos com fome ou com sede, peregrino ou sem roupa, doente ou na prisão, e não Te prestámos assistência?’ E Ele lhes responderá: ‘Em verdade vos digo: Quantas vezes o deixastes de fazer a um dos meus irmãos mais pequeninos, também a Mim o deixastes de fazer’. Estes irão para o suplício eterno e os justos para a vida eterna».


????
No evangelho deste Domingo (o último deste ano litúrgico) encontramos quatro pontos de interrogação. Três na primeira parte da parábola e um na segunda. Não estão ali por acaso mas servem para ilustrar o “cair das nuvens” das pessoas que encontram o Rei. O elemento surpresa é parte integrante da mensagem de Jesus. Lembrem-se sempre que muitos dos que se acham “justos” hão-de descobrir-se indignos e que os últimos hão-de ser os primeiros.

Mas aquele ar espantado de que nos fala a parábola não é exclusivo dos que se descobrem longe da vontade do Pai. Aliás, vemos que Mateus decidiu dar um pouco mais de ênfase e espaço às perguntas (e à surpresa) dos que receberam a herança.

«Senhor, quando é que Te vimos com fome e Te demos de comer, ou com sede e Te demos de beber? Quando é que Te vimos peregrino e te recolhemos, ou sem roupa e Te vestimos? Quando é que Te vimos doente ou na prisão e Te fomos ver?»

Eles não sabiam. Não pensavam que estavam a ajudar Cristo. Não tinham os olhos colocados em nenhuma recompensa, mas agiam com espírito de pura gratuidade. Que nome podemos dar a este tipo de acção? Dou-vos duas sugestões: caridade (um termo que, infelizmente, hoje é quase sempre, erroneamente, associado ao dar uma “esmolinha”) ou então, amor. Eu prefiro este segundo.

O verdadeiro amor deve ser assim, tal como o encontramos na parábola deste Domingo: gratuito! Não é a ideia da herança que conduz a vida dos justos. Não foi por interesse que ajudaram os outros. Não foi para ganhar um prémio (parece-me que nem sabiam que havia um prémio!). O que fizeram não tinha segundos fins ou outros propósitos escondidos, mas eram guiados simplesmente pelo desejo de ajudar os que mais precisavam, de amar os irmãos mais necessitados.

Há pessoas que pensam que ser “bons cristãos” é dar muitas esmolas, mas a nossa fé é intensamente mais bonita e profunda. Quando ajudamos alguém não o podemos fazer por “obrigação” (porque somos cristão...), ou porque achamos que assim vamos poder “comprar” a nossa salvação, a nossa parte da herança. Essa não é a vontade do Pai. O que Ele quer é que nós nos amemos uns aos outros. Mas o verdadeiro amor (não se esqueçam!) é livre e gratuito. Gratuito ao ponto de se surpreender quando recebe uma recompensa.



(tenham uma boa semana!)


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sábado, 15 de novembro de 2008

XXXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM (ano A)


Leitura do Livro dos Provérbios
(Prov 31,10-13.19-20.30-31)
Quem poderá encontrar uma mulher virtuosa? O seu valor é maior que o das pérolas. Nela confia o coração do marido, e jamais lhe falta coisa alguma. Ela dá-lhe bem-estar e não desventura, em todos os dias da sua vida. Procura obter lã e linho e põe mãos ao trabalho alegremente. Toma a roca em suas mãos, seus dedos manejam o fuso. Abre as mãos ao pobre e estende os braços ao indigente. A graça é enganadora e vã a beleza; a mulher que teme o Senhor é que será louvada. Dai-lhe o fruto das suas mãos, e suas obras a louvem às portas da cidade.


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 127
Refrão: Ditoso o que segue o caminho do Senhor.

Feliz de ti que temes o Senhor
e andas nos seus caminhos.
Comerás do trabalho das tuas mãos,
serás feliz e tudo te correrá bem.

Tua esposa será como videira fecunda,
no íntimo do teu lar;
teus filhos serão como ramos de oliveira,
ao redor da tua mesa.

Assim será abençoado o homem que teme o Senhor.
De Sião te abençoe o Senhor:
vejas a prosperidade de Jerusalém,
todos os dias da tua vida.


Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Tessalonicenses
(1 Tes 5,1-6)
Irmãos: Sobre o tempo e a ocasião, não precisais que vos escreva, pois vós próprios sabeis perfeitamente que o dia do Senhor vem como um ladrão nocturno. E quando disserem: «Paz e segurança», é então que subitamente cairá sobre eles a ruína, como as dores da mulher que está para ser mãe, e não poderão escapar. Mas vós, irmãos, não andeis nas trevas, de modo que esse dia vos surpreenda como um ladrão, porque todos vós sois filhos da luz e filhos do dia: nós não somos da noite nem das trevas. Por isso, não durmamos como os outros, mas permaneçamos vigilantes e sóbrios.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 25,14-30)
Naquele tempo, Disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola: «Um homem, ao partir de viagem, chamou os seus servos e confiou-lhes os seus bens. A um entregou cinco talentos, a outro dois e a outro um, conforme a capacidade de cada qual; e depois partiu. O que tinha recebido cinco talentos fê-los render e ganhou outros cinco. Do mesmo modo, o que recebera dois talentos ganhou outros dois. Mas, o que recebera um só talento foi escavar na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor. Muito tempo depois, chegou o senhor daqueles servos e foi ajustar contas com eles. O que recebera cinco talentos aproximou-se e apresentou outros cinco, dizendo: ‘Senhor, confiaste-me cinco talentos: aqui estão outros cinco que eu ganhei’. Respondeu-lhe o senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel. Porque foste fiel em coisas pequenas, confiar-te-ei as grandes. Vem tomar parte na alegria do teu senhor’. Aproximou-se também o que recebera dois talentos e disse: ‘Senhor, confiaste-me dois talentos: aqui estão outros dois que eu ganhei’. Respondeu-lhe o senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel. Porque foste fiel em coisas pequenas, confiar-te-ei as grandes. Vem tomar parte na alegria do teu senhor’. Aproximou-se também o que recebera um só talento e disse: ‘Senhor, eu sabia que és um homem severo, que colhes onde não semeaste e recolhes onde nada lançaste. Por isso, tive medo e escondi o teu talento na terra. Aqui tens o que te pertence’. O senhor respondeu-lhe: ‘Servo mau e preguiçoso, sabias que ceifo onde não semeei e recolho onde nada lancei; devias, portanto, depositar no banco o meu dinheiro e eu teria, ao voltar, recebido com juro o que era meu. Tirai-lhe então o talento e dai-o àquele que tem dez. Porque, a todo aquele que tem, dar-se-á mais e terá em abundância; mas, àquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado. Quanto ao servo inútil, lançai-o às trevas exteriores. Aí haverá choro e ranger de dentes’».

ÓPIO DO POVO
Muitos devem estar a perguntar-se: «Mas porque é que o senhor dos servos não deu o mesmo número de talentos a cada um?». Antes de começarmos todos a chorar pelo “pobre” servo que recebeu poucochinho, é bom que saibamos o que é um talento. Um talento não é uma moeda, mas uma unidade de peso. No tempo de Jesus, um “talento” correspondia, mais ou menos, a 36 quilos de prata, ou seja, o salário de aproximadamente 3000 dias de trabalho de um operário não qualificado. O último servo recebeu menos, mas não recebeu pouco. Foi lhe dada a oportunidade de administrar uma verdadeira fortuna.

O que distingue os servos da parábola não é a quantidade de talentos que receberam, mas sim a decisão que tomaram. A questão que o evangelho de hoje propõe é a seguinte: o que andas a fazer com os dons que recebeste?

Infelizmente, por medo e cobardia muitas pessoas demitem-se do próprio papel na construção de um mundo melhor. São pessoas que enterram os talentos na terra e vivem uma vida tranquila e sem riscos. Não fazem mal a uma mosca, mas também não ajudam ninguém. Vivem a própria “vidinha” refugiados num cantinho seguro e tranquilo. Tão seguro e tranquilo quanto a covinha que fizeram para esconder os próprios dons.

A parábola de hoje é a resposta a todos aqueles que acreditam que a religião seja uma distracção para que as pessoas não lutem por uma sociedade mais justa, ou como dizia Karl Marx, o “ópio do povo”. Os servos trabalhadores testemunham a atitude radicalmente diversa e o espírito empreendedor que deve animar cada um de nós. Eles tiveram a ousadia de não se contentar com o que já tinham. Não se deixaram dominar pelo comodismo e pela apatia. Lutaram, esforçaram-se, arriscaram, ganharam.

Na vida é preciso arriscar. Temos que trabalhar e dar o nosso melhor se queremos construir alguma coisa. O nosso esforço e empenho nem sempre garantem o nosso sucesso: por vezes trabalhamos muito e mesmo assim não obtemos o que queríamos. Mas é preciso aceitar esta realidade, porque pior que arriscar e perder é nem sequer arriscar com medo de não ganhar.


(tenham uma boa semana!)


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sábado, 8 de novembro de 2008

FESTA DA DEDICAÇÃO DA BASÍLICA DE LATRÃO - 9 de Novembro

Leitura da Profecia de Ezequiel
(Ez 47,1-2.8-9.12)
Naqueles dias, o Anjo reconduziu-me à entrada do templo. Depois do limiar da porta saía água em direcção ao Oriente, pois a fachada do templo estava voltada para o Oriente. As águas corriam da parte inferior, do lado direito do templo, ao sul do altar. O Anjo fez-me sair pela porta setentrional e contornar o templo por fora, até à porta exterior que está voltada para o Oriente. As águas corriam do lado direito. O Anjo disse-me: «Esta água corre para a região oriental, desce para Arabá e entra no mar, para que as suas águas se tornem salubres. Todo o ser vivo que se move na água onde chegar esta torrente terá novo alento e o peixe será mais abundante. Porque aonde esta água chegar, tornar-se-ão sãs as outras águas e haverá vida por toda a parte aonde chegar esta torrente. À beira da torrente, nas duas margens, crescerá toda a espécie de árvores de fruto; a sua folhagem não murchará, nem acabarão os seus frutos. Todos os meses darão frutos novos, porque as águas vêm do santuário. Os frutos servirão de alimento e as folhas de remédio».


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 45 (46)
Refrão: Os braços dum rio alegram a cidade de Deus, a morada santa do Altíssimo.

Deus é o nosso refúgio e a nossa força,
auxílio sempre pronto na adversidade.
Por isso nada receamos ainda que a terra vacile
e os montes se precipitem no fundo do mar.

Os braços dum rio alegram a cidade de Deus,
a mais santa das moradas do Altíssimo.
Deus está no meio dela e a torna inabalável,
Deus a protege desde o romper da aurora.

O Senhor dos Exércitos está connosco,
o Deus de Jacob é a nossa fortaleza.
Vinde e contemplai as obras do Senhor,
as maravilhas que realizou na terra.


Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Coríntios
(1 Cor 3,9c-11.16-17)
Irmãos: Vós sois edifício de Deus. Segundo a graça de Deus que me foi dada, eu, como sábio arquitecto, coloquei o alicerce e outro levanta o edifício. Veja cada um como constrói: ninguém pode colocar outro alicerce além do que está posto, que é Jesus Cristo. Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá. Porque o templo de Deus é santo e vós sois esse templo.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
(Jo 2,13-22)
Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém. Encontrou no templo os vendedores de bois, de ovelhas e de pombas e os cambistas sentados às bancas. Fez então um chicote de cordas e expulsou-os a todos do templo, com as ovelhas e os bois; deitou por terra o dinheiro dos cambistas e derrubou-lhes as mesas; e disse aos que vendiam pombas: «Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai casa de comércio». Os discípulos recordaram-se do que estava escrito: «Devora-me o zelo pela tua casa». Então os judeus tomaram a palavra e perguntaram-Lhe: «Que sinal nos dás de que podes proceder deste modo?». Jesus respondeu-lhes: «Destruí este templo e em três dias o levantarei». Disseram os judeus: «Foram precisos quarenta e seis anos para construir este templo e Tu vais levantá-lo em três dias?». Jesus, porém, falava do templo do seu Corpo. Por isso, quando Ele ressuscitou dos mortos, os discípulos lembraram-se do que tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus.


As igrejas e a Igreja
A liturgia dominical desta semana é substituída por uma festa que recorda a dedicação (ou consagração) daquela que é considerada a “mãe” de todas as igrejas e uma das catedrais mais bonitas do mundo: a Basílica de S. João de Latrão. Muitas pessoas pensam que a basílica de S. Pedro seja a catedral do Papa, mas enganam-se. A catedral de Roma é S. João de Latrão e portanto, nesta festa convido-vos a reflectir sobre dois temas: o sentido do “templo” para a nossa fé cristã e o papel fundamental que Roma tem na Igreja Católica.

No evangelho deste Domingo vemos Jesus que defende a sacralidade do templo de Deus mas ao mesmo tempo revela-se como o “novo templo”, o novo lugar onde os homens podem fazer a experiência do encontro com Deus. No quarto capítulo do evangelho de João, Jesus diz à samaritana que chegou a hora de adorar o Pai, não no templo de Jerusalém, mas sim no próprio coração «em espírito e verdade» (Jo 4, 24). Cristo é o verdadeiro templo de Deus e com o mistério da Sua incarnação é anulada a divisão entre o sagrado e o profano. Todos os homens, todos os lugares, todos os tempos são consagrados a Deus e é restabelecida a união e harmonia existentes no início da Criação.

Mas se cada um de nós pode adorar Deus no próprio coração (e portanto, na própria casa) porque é que se continua a dar tanta importância à igreja-edifício? Porque é que se continua a dizer que é importante participar aos Domingos na celebração da eucaristía?

A resposta é simples: Jesus não veio ao mundo para nos salvar separados, mas sim, para formar um povo, uma comunidade, uma família. Já nos esquecemos do evangelho do XXIII Domingo? «Onde dois ou três estão reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles» (Mt 18,20). As igrejas (com letra minúscula) são importantes principalmente porque são os locais onde se reúne a Igreja (com letra maiúscula), a assembleia (ecclesia) dos que acreditam em Cristo.

Dizia esta semana o padre Raniero Cantalamessa que, ignorar a Igreja (fundada por Cristo) e os sacramentos (instituídos por Cristo) é cultivar uma fé “bricolage” exposta ao subjectivismo mais absoluto. Se não nos confrontamos com mais ninguém, Deus realmente reduz-se a uma projecção dos desejos e necessidades do homem, tal como defendia o filósofo ateu Feuerbach. Já não é Deus quem cria o homem à Sua imagem, mas o homem cria um deus à sua imagem. Mas é um deus que não nos pode salvar.

E agora pergunto-vos: que garantia temos que este pequeno comentário não seja apenas o fruto da minha interpretação subjectiva do evangelho? Quem vos garante que eu não esteja a criar um “deus” à minha imagem e semelhança? Também neste caso a resposta não é complicada. Celebrando a festa da Catedral de Roma, recordamos a importância da união na Igreja. É a comunhão com a igreja de Pedro que garante a interpretação católica do evangelho de Cristo. É a comunhão com Roma que assegura a continuidade entre a Palavra, pronunciada por Cristo, e as palavras que utilizamos hoje para anunciar o Evangelho.


(tenham uma boa semana!)



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sábado, 1 de novembro de 2008

COMEMORAÇÃO DE TODOS OS FIÉIS DEFUNTOS – 2 de Novembro

(leituras da terceira missa)


Leitura do Livro de Isaías
(Is 25,6a.7-9)
Sobre este monte, o Senhor do Universo há-de preparar para todos os povos um banquete de manjares suculentos. Sobre este monte, há-de tirar o véu que cobria todos os povos, o pano que envolvia todas as nações; Ele destruirá a morte para sempre.O Senhor Deus enxugará as lágrimas de todas as faces e fará desaparecer da terra inteira o opróbrio que pesa sobre o seu povo. Porque o Senhor falou. Dir-se-á naquele dia: «Eis o nosso Deus, de quem esperávamos a salvação; é o Senhor, em quem pusemos a nossa confiança. Alegremo-nos e rejubilemos, porque nos salvou.



SALMO RESPONSORIAL – Salmo 22 (23)
Refrão: O Senhor é meu pastor: nada me faltará.

O Senhor é meu pastor: nada me falta.
Leva-me a descansar em verdes prados,
conduz-me às águas refrescantes
e reconforta a minha alma.

Ele me guia por sendas direitas por amor do seu nome.
Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos,
não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo:
o vosso cajado e o vosso báculo me enchem de confiança.

Para mim preparais a mesa
à vista dos meus adversários;
com óleo me perfumais a cabeça,
e o meu cálice transborda.

A bondade e a graça hão-de acompanhar-me
todos os dias da minha vida
e habitarei na casa do Senhor
para todo o sempre.


Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Tessalonicenses
(1 Tes 4,13-18)
Não queremos, irmãos, deixar-vos na ignorância a respeito dos defuntos, para não vos contristardes como os outros, que não têm esperança. Se acreditamos que Jesus morreu e ressuscitou, do mesmo modo, Deus levará com Jesus os que em Jesus tiverem morrido. Eis o que temos para vos dizer, segundo a palavra do Senhor: Nós, os vivos, os que ficarmos para a vinda do Senhor, não precederemos os que tiverem morrido. Ao sinal dado, à voz do Arcanjo e ao som da trombeta divina, o próprio Senhor descerá do Céu e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro. Em seguida, nós, os vivos, os que tivermos ficado, seremos arrebatados juntamente com eles sobre as nuvens, para irmos ao encontro do Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor. Consolai-vos uns aos outros com estas palavras.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
(Jo 6,51-58)
Naquele tempo, disse Jesus à multidão: «Eu sou o pão vivo que desceu do Céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que Eu hei-de dar é minha carne, que Eu darei pela vida do mundo». Os judeus discutiam entre si: «Como pode Ele dar-nos a sua carne a comer?» Jesus disse-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e Eu o ressuscitarei no último dia. A minha carne é verdadeira comida e o meu sangue é verdadeira bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em Mim e Eu nele. Assim como o Pai, que vive, Me enviou e Eu vivo pelo Pai, também aquele que Me come viverá por Mim. Este é o pão que desceu do Céu; não é como o dos vossos pais, que o comeram e morreram: Quem comer deste pão viverá eternamente».


VIVER SEM MEDO
Há alguns anos atrás, durante um curso de formação para catequistas, um dos participantes partilhou a seguinte experiência: «Sempre me considerei uma pessoa de fé. Vou à missa todos os Domingos desde que tenho idade para me lembrar e comecei o meu serviço como catequista logo após o meu crisma. Não me lembro de alguma vez ter duvidado da existência de Deus ou do Seu amor por nós... mas na semana passada fui a um funeral. A irmã de uma minha amiga tinha morrido. Tentei encontrar alguma palavra que a pudesse confortar. Procurei na minha fé, na minha experiência de catequista, algo que aliviasse (pelo menos um pouco) aquele sofrimento. Mas acabei por ficar em silêncio. Todas as palavras me pareciam inúteis. Senti que a fé, pela primeira vez, não era capaz de dar-me uma resposta. Senti que a morte era mais forte do que a minha fé».

E concluiu com a pergunta: «O que é que nós cristãos podemos dizer ao mundo sobre a morte?»

Depois de alguns momentos de silêncio, resolvemos seguir um dos conselhos que já tínhamos ouvido naquele curso: partir do Evangelho e procurar na vida de Jesus as respostas para as nossas questões.

Acabámos por nos concentrar na obra de Lucas, na narração dos últimos momentos da paixão de Jesus (capítulo 23). São páginas muito duras. Aos olhos do mundo a Sua morte é um fracasso absoluto. Tudo o que Ele fez, tudo o que Ele disse não serviu de nada. Abandonado... torturado... derrotado em todos os sentidos. Até um dos dois malfeitores crucificados com Ele, começa a provocá-Lo:

«Se és o Cristo, salva-te a ti mesmo e salva-nos a nós!» Mas o outro repreendeu-o: «Nem sequer temes a Deus, tu que sofres no mesmo suplício? Para nós isto é justo: recebemos o que mereceram os nossos crimes, mas este não fez mal algum». E acrescentou: «Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino!» Jesus respondeu-lhe: «Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso». (Lc 23,39-43)

Foi nesta resposta que encontrámos algum conforto. Mais precisamente, na palavra “hoje”. Jesus não fala de purgatório, de juízo final ou de “um dia”...
«Hoje estarás comigo no paraíso». Hoje! O homem não foi feito para a morte e a morte não pode aprisionar o homem. O caminho que percorremos nesta terra não é um drama absurdo, sem sentido e sem finalidade que termina no fracasso e na morte. Hoje irás entrar na vida eterna! Não devemos ter medo. Volto a repetir: não tenham medo! A morte chega para todos, mas o projecto de Deus para o homem é um projecto de vida. No nosso horizonte final não está o “nada”, mas sim a comunhão com o Pai, a realização plena do homem, a felicidade definitiva e a vida eterna.


(tenham uma boa semana!)



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