sábado, 27 de março de 2010

DOMINGO DE RAMOS (ano C)



Leitura do Livro de Isaías
(Is 50,4-7)
O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos. Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos, para eu escutar, como escutam os discípulos. O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. Mas o senhor Deus veio em meu auxílio, e por isso não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido.


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 21 (22)
Refrão: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?

Todos os que me vêem escarnecem de mim,
estendem os lábios e meneiam a cabeça:
«Confiou no Senhor, Ele que o livre,
Ele que o salve, se é seu amigo».

Matilhas de cães me rodearam,
cercou-me um bando de malfeitores.
Trespassaram as minhas mãos e os meus pés,
posso contar todos os meus ossos.

Repartiram entre si as minhas vestes
e deitaram sortes sobre a minha túnica.
Mas Vós, Senhor, não Vos afasteis de mim,
sois a minha força, apressai-Vos a socorrer-me.

Hei-de falar do vosso nome aos meus irmãos,
hei-de louvar-Vos no meio da assembleia.
Vós, que temeis o Senhor, louvai-O,
glorificai-O, vós todos os filhos de Jacob,
reverenciai-O, vós todos os filhos de Israel.


Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses
(Filip 2,6-11)
Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz. Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem no céu, na terra e nos abismos, e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 22,14-23,56)

[Lido utilizando três leitores: N = narrador; J = Jesus; R = restantes personagens]

N Quando chegou a hora, Jesus sentou-Se à mesa com os seus Apóstolos e disse-lhes:

J «Tenho desejado ardentemente comer convosco esta Páscoa, antes de padecer; pois digo-vos que não tornarei a comê-la, até que se realize plenamente no reino de Deus».

N Então, tomando um cálice, deu graças e disse:

J «Tomai e reparti entre vós, pois digo-vos que não tornarei a beber do fruto da videira, até que venha o reino de Deus».

N Depois tomou o pão e, dando graças, partiu-o e deu-lho, dizendo:

J «Isto é o meu corpo entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim».

N No fim da ceia, fez o mesmo com o cálice, dizendo:

J «Este cálice é a nova aliança no meu Sangue, derramado por vós. Entretanto, está comigo à mesa a mão daquele que Me vai entregar. O Filho do homem vai partir, como está determinado. Mas ai daquele por quem Ele vai ser entregue!»

N Começaram então a perguntar uns aos outros qual deles iria fazer semelhante coisa. Levantou-se também entre eles uma questão: qual deles se devia considerar o maior? Disse-lhes Jesus:

J «Os reis da nações exercem domínio sobre elas e os que têm sobre elas autoridade são chamados malfeitores. Vós não deveis proceder desse modo. O maior entre vós seja como o menor e aquele que manda seja como quem serve. Pois quem é o maior: o que está à mesa ou o que serve? Não é o que está à mesa? Ora Eu estou no meio de vós como aquele que serve. Vós estivestes sempre comigo nas minhas provações. E Eu preparo para vós um reino, como meu Pai o preparou para Mim: comereis e bebereis à minha mesa, no meu reino, e sentar-vos-eis em tronos, a julgar as doze tribos de Israel. Simão, Simão, Satanás vos reclamou para vos agitar na joeira como trigo. Mas Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça. E tu, uma vez convertido, fortalece os teus irmãos».

N Pedro respondeu-Lhe:

R «Senhor, eu estou pronto a ir contigo, até para a prisão e para a morte».

N Disse-lhe Jesus:

J «Eu te digo, Pedro: não cantará hoje o galo, sem que tu, por três vezes, negues conhecer-Me».

N Depois acrescentou:

J «Quando vos enviei sem bolsa nem alforge nem sandálias, faltou-vos alguma coisa?».

N Eles responderam que não lhes faltara nada. Disse-lhes Jesus:

J «Mas agora, quem tiver uma bolsa pegue nela, bem como no alforge; e quem não tiver espada venda a capa e compre uma. Porque Eu vos digo que se deve cumprir em Mim o que está escrito: ‘Foi contado entre os malfeitores’. Na verdade, o que Me diz respeito está a chegar ao fim».

N Eles disseram:

R «Senhor, estão aqui duas espadas».

N Mas Jesus respondeu:

J «Basta».

N Então saiu e foi, como de costume, para o Monte das Oliveiras e os discípulos acompanharam-n’O. Quando chegou ao local, disse-lhes:

J «Orai, para não entrardes em tentação».

N Depois afastou-Se deles cerca de um tiro de pedra e, pondo-Se de joelhos, começou a orar, dizendo:

J «Pai, se quiseres, afasta de Mim este cálice. Todavia, não se faça a minha vontade, mas a tua».

N Então apareceu-Lhe um Anjo, vindo do Céu, para O confortar. Entrando em angústia, orava mais instantemente e o suor tornou-se-Lhe como grossas gotas de sangue, que caíam na terra. Depois de ter orado, levantou-Se e foi ter com os discípulos, que encontrou a dormir, por causa da tristeza. Disse-lhes Jesus:

J «Porque estais a dormir? Levantai-vos e orai, para não entrardes em tentação».

N Ainda Ele estava a falar, quando apareceu uma multidão de gente. O chamado Judas, um dos Doze, vinha à sua frente e aproximou-se de Jesus, para O beijar. Disse-lhe Jesus:

J «Judas, é com um beijo que entregas o Filho do homem?»

N Ao verem o que ia suceder, os que estavam com Jesus perguntaram-Lhe:

R «Senhor, vamos feri-los à espada?»

N E um deles feriu o servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. Mas Jesus interveio, dizendo:

J «Basta! Deixai-os».

N E, tocando na orelha do homem, curou-o. Disse então Jesus aos que tinham vindo ao seu encontro, príncipes dos sacerdotes, oficiais do templo e anciãos:

J «Vós saístes com espadas e varapaus, como se viésseis ao encontro dum salteador. Eu estava todos os dias convosco no templo e não Me deitastes as mãos. Mas esta é a vossa hora e o poder das trevas.

N Apoderaram-se então de Jesus, levaram-n’O e introduziram-n’O em casa do sumo sacerdote. Pedro seguia-os de longe. Acenderam uma fogueira no meio do pátio, sentaram-se em volta dela e Pedro foi sentar-se no meio deles. Ao vê-lo sentado ao lume, uma criada, fitando os olhos nele, disse:

R «Este homem também andava com Jesus».

N Mas Pedro negou:

R «Não O conheço, mulher».

N Pouco depois, disse outro, ao vê-lo:

R «Tu também és um deles».

N Mas Pedro disse:

R «Homem, não sou».

N Passada mais ou menos uma hora, afirmava outro com insistência:

R «Esse homem, com certeza, também andava com Jesus, pois até é galileu».

N Pedro respondeu:

R «Homem, não sei o que dizes».

N Nesse instante – ainda ele falava – um galo cantou. O Senhor voltou-Se e fitou os olhos em Pedro. Então Pedro lembrou-se da palavra do Senhor, quando lhe disse:‘Antes do galo cantar, Me negarás três vezes’. E, saindo para fora, chorou amargamente. Entretanto, os homens que guardavam Jesus troçavam d’Ele e maltratavam-n’O. Cobrindo-Lhe o rosto, perguntavam-Lhe:

R «Adivinha, profeta: Quem te bateu?»

N E dirigiam-Lhe muitos outros insultos. Ao romper do dia, reuniu-se o conselho dos anciãos do povo, os príncipes dos sacerdotes e os escribas. Levaram-n’O ao seu tribunal e disseram-Lhe:

R «Diz-nos se Tu és o Messias».

N Jesus respondeu-lhes:

J «Se Eu vos disser, não acreditareis e, se fizer alguma pergunta, não respondereis. Mas o Filho do homem sentar-Se-á doravante à direita do poder de Deus».

N Disseram todos:

R «Tu és então o Filho de Deus?»

N Jesus respondeu-lhes:

J «Vós mesmos dizeis que Eu sou».

N Então exclamaram:

R «Que necessidade temos ainda de testemunhas? Nós próprios o ouvimos da sua boca».

N Levantaram-se todos e levaram Jesus a Pilatos. Começaram a acusá-l’O, dizendo:

R «Encontrámos este homem a sublevar o nosso povo, a impedir que se pagasse o tributo a César e dizendo ser o Messias-Rei».

N Pilatos perguntou-Lhe:

R «Tu és o Rei dos judeus?»

N Jesus respondeu-lhe:

J «Tu o dizes».

N Pilatos disse aos príncipes dos sacerdotes e à multidão:

R «Não encontro nada de culpável neste homem».

N Mas eles insistiam:

R «Amotina o povo, ensinando por toda a Judeia, desde a Galileia, onde começou, até aqui».

N Ao ouvir isto, Pilatos perguntou se o homem era galileu; e, ao saber que era da jurisdição de Herodes, enviou-O a Herodes, que também estava nesses dias em Jerusalém. Ao ver Jesus, Herodes ficou muito satisfeito. Havia bastante tempo que O queria ver, pelo que ouvia dizer d’Ele, e esperava que fizesse algum milagre na sua presença. Fez-Lhe muitas perguntas, mas Ele nada respondeu. Os príncipes dos sacerdotes e os escribas que lá estavam acusavam-n’O com insistência. Herodes, com os seus oficiais, tratou-O com desprezo e, por troça, mandou-O cobrir com um manto magnífico e remeteu-O a Pilatos. Herodes e Pilatos, que eram inimigos, ficaram amigos nesse dia. Pilatos convocou os príncipes dos sacerdotes, os chefes e o povo, e disse-lhes:

R «Trouxestes este homem à minha presença como agitador do povo. Interroguei-O diante de vós e não encontrei n’Ele nenhum dos crimes de que O acusais. Herodes também não, uma vez que no-l’O mandou de novo. Como vedes, não praticou nada que mereça a morte. Vou, portanto, soltá-l’O, depois de O mandar castigar».

N Pilatos tinha obrigação de lhes soltar um preso por ocasião da festa. E todos se puseram a gritar:

R «Mata Esse e solta-nos Barrabás».

N Barrabás tinha sido metido na cadeia por causa de uma insurreição desencadeada na cidade e por assassínio. De novo Pilatos lhes dirigiu a palavra, querendo libertar Jesus. Mas eles gritavam:

R «Crucifica-O! Crucifica-O!»

N Pilatos falou-lhes pela terceira vez:

R Mas que mal fez este homem? Não encontrei n’Ele nenhum motivo de morte. Por isso vou soltá-l’O, depois de O mandar castigar».

N Mas eles continuavam a gritar, pedindo que fosse crucificado, e os seus clamores aumentavam de violência. Então Pilatos decidiu fazer o que eles pediam: soltou aquele que fora metido na cadeia por insurreição e assassínio, como eles reclamavam, e entregou-lhes Jesus para o que eles queriam.

N Quando o conduziam, lançaram mão de um certo Simão de Cirene, que vinha do campo, e puseram-lhe a cruz às costas, para a levar atrás de Jesus. Seguia-O grande multidão de povo e mulheres que batiam no peito e se lamentavam, chorando por Ele. Mas Jesus voltou-Se para elas e disse-lhes:

J «Filhas de Jerusalém, não choreis por Mim; chorai antes por vós mesmas e pelos vossos filhos; pois dias virão em que se dirá: ‘Felizes as estéreis, os ventres que não geraram e os peitos que não amamentaram’. Começarão a dizer aos montes: ‘Caí sobre nós’; e às colinas: ‘Cobri-nos’. Porque, se tratam assim a madeira verde, que acontecerá à seca?».

N Levavam ainda dois malfeitores para serem executados com Jesus. Quando chegaram ao lugar chamado Calvário, crucificaram-n’O a Ele e aos malfeitores, um à direita e outro à esquerda. Jesus dizia:

J «Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem».

N Depois deitaram sortes, para repartirem entre si as vestes de Jesus. O povo permanecia ali a observar. Por sua vez, os chefes zombavam e diziam:

R «Salvou os outros: salve-Se a Si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito».

N Também os soldados troçavam d’Ele; aproximando-se para Lhe oferecerem vinagre, diziam:

R «Se és o Rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo».

N Por cima d’Ele havia um letreiro: «Este é o rei dos judeus». Entretanto, um dos malfeitores que tinham sido crucificados insultava-O, dizendo:

R «Não és Tu o Messias? Salva-Te a Ti mesmo e a nós também».

N Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o:

R «Não temes a Deus, tu que sofres o mesmo suplício? Quanto a nós, fez-se justiça, pois recebemos o castigo das nossas más acções. Mas Ele nada praticou de condenável».

N E acrescentou:

R «Jesus, lembra-Te de mim, quando vieres com a tua realeza».

N Jesus respondeu-lhe:

J «Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso».

N Era já quase meio-dia, quando as trevas cobriram toda a terra, até às três horas da tarde, porque o sol se tinha eclipsado. O véu do templo rasgou-se ao meio. E Jesus exclamou com voz forte:

J «Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito».

N Dito isto, expirou. Vendo o que sucedera, o centurião deu glória a Deus, dizendo:

R «Realmente este homem era justo».

N E toda a multidão que tinha assistido àquele espectáculo, ao ver o que se passava, regressava batendo no peito. Todos os conhecidos de Jesus, bem como as mulheres que O acompanhavam desde a Galileia, mantinham-se à distância, observando estas coisas.

N Havia um homem chamado José, da cidade de Arimateia, que era pessoa recta e justa e esperava o reino de Deus. Era membro do Sinédrio, mas não tinha concordado com a decisão e o proceder dos outros. Foi ter com Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. E depois de o ter descido da cruz, envolveu-o num lençol e depositou-o num sepulcro escavado na rocha, onde ninguém ainda tinha sido sepultado. Era o dia da Preparação e começavam a aparecer as luzes do sábado. Entretanto, as mulheres que tinham vindo com Jesus da Galileia acompanharam José e observaram o sepulcro e a maneira como fora depositado o corpo de Jesus. No regresso, prepararam aromas e perfumes. E no sábado guardaram o descanso, conforme o preceito.



R = restantes personagens
Enquanto lia a versão lucana da Paixão de Jesus, sublinhei todas as palavras e expressões que me “falaram” com maior intensidade, esperando que este exercício me ajudasse a escolher o tema deste pequeno comentário. No final deparei-me com seis páginas A4 cheias de linhas vermelhas...

É óbvio que não se pode falar de tudo, mas como posso não mencionar o drama de Pedro, que nega conhecer Jesus, e esquecer aquele momento em que os dois cruzam o olhar? Ou nem sequer acenar aos jogos mesquinhos de Pilatos e Herodes? E omitir totalmente o encontro com Simão de Cirene, com as mulheres de Jerusalém, o diálogo com os malfeitores ou a profissão de fé do centurião romano?

O Evangelho de hoje não é “apenas” o relato das últimas horas de Jesus, mas é a história de todos aqueles que presenciaram a Sua prisão, processo e morte. No fundo, é a nossa história! É o espelho onde nos reconhecemos nas várias personagens que Lucas coloca junto a Cristo, desde o momento da última ceia até ao enterro do Seu corpo sem vida. Se relermos os parágrafos assinalados com a letra “R” (os restantes personagens...) quantas vezes nos encontramos naquelas frases, pronunciadas por pessoas, aparentemente tão distantes da nossa realidade, no tempo e no espaço?

O protagonista da Paixão é um só: Jesus Cristo. Mas a Paixão é algo que todos testemunhamos; que todos nós vivemos. Diante do episódio desconcertante do Filho de Deus que morre na cruz, alguns ainda hoje exclamam: «Não O conheço». Outros dizem: «Salva-te a Ti mesmo e a nós também». Mas poucos conseguem entender que a morte é o culminar da Sua vida; é a afirmação última, porém mais radical e mais verdadeira (porque escrita com sangue), daquilo que Jesus pregou com palavras e com gestos: o amor total, o perdão sincero, o dom sem limites.

(Tenham uma boa Semana Santa!)


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sábado, 20 de março de 2010

5º DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA (ano C)



Leitura do livro de Isaías
(Is 43,16-21)
O Senhor abriu outrora caminhos através do mar, veredas por entre as torrentes das águas. Pôs em campanha carros e cavalos, um exército de valentes guerreiros; e todos caíram para não mais se levantarem, extinguiram-se como um pavio que se apaga. Eis o que diz o Senhor: «Não vos lembreis mais dos acontecimentos passados, não presteis atenção às coisas antigas. Olhai: vou realizar uma coisa nova, que já começa a aparecer; não a vedes? Vou abrir um caminho no deserto, fazer brotar rios na terra árida. Os animais selvagens – chacais e avestruzes – proclamarão a minha glória, porque farei brotar água no deserto, rios na terra árida, para matar a sede ao meu povo escolhido, o povo que formei para Mim e que proclamará os meus louvores».


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 125 (126)
Refrão: Grandes maravilhas fez por nós o Senhor.

Quando o Senhor fez regressar os cativos de Sião,
parecia-nos viver um sonho.
Da nossa boca brotavam expressões de alegria
e de nossos lábios cânticos de júbilo.

Diziam então os pagãos:
«O Senhor fez por eles grandes coisas».
Sim, grandes coisas fez por nós o Senhor,
estamos exultantes de alegria.

Fazei regressar, Senhor, os nossos cativos,
como as torrentes do deserto.
Os que semeiam em lágrimas
recolhem com alegria.

À ida, vão a chorar,
levando as sementes;
à volta, vêm a cantar,
trazendo os molhos de espigas.


Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses
(Filip 3,8-14)
Irmãos: Considero todas as coisas como prejuízo, comparando-as com o bem supremo, que é conhecer Jesus Cristo, meu Senhor. Por Ele renunciei a todas as coisas e considerei tudo como lixo, para ganhar a Cristo e n’Ele me encontrar, não com a minha justiça que vem da Lei, mas com a que se recebe pela fé em Cristo, a justiça que vem de Deus e se funda na fé. Assim poderei conhecer Cristo, o poder da sua ressurreição e a participação nos seus sofrimentos, configurando-me à sua morte, para ver se posso chegar à ressurreição dos mortos. Não que eu tenha já chegado à meta, ou já tenha atingido a perfeição. Mas continuo a correr, para ver se a alcanço, uma vez que também fui alcançado por Cristo Jesus. Não penso, irmãos, que já o tenha conseguido. Só penso numa coisa: esquecendo o que fica para trás, lançar-me para a frente, continuar a correr para a meta, em vista do prémio a que Deus, lá do alto, me chama em Cristo Jesus.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
(Jo 8,1-11)
Naquele tempo, Jesus foi para o Monte das Oliveiras. Mas de manhã cedo, apareceu outra vez no templo, e todo o povo se aproximou d’Ele. Então sentou-Se e começou a ensinar. Os escribas e os fariseus apresentaram a Jesus uma mulher surpreendida em adultério, colocaram-na no meio dos presentes e disseram a Jesus: «Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. Na Lei, Moisés mandou-nos apedrejar tais mulheres. Tu que dizes?». Falavam assim para Lhe armarem uma cilada e terem pretexto para O acusar. Mas Jesus inclinou-Se e começou a escrever com o dedo no chão. Como persistiam em interrogá-l’O, ergueu-Se e disse-lhes: «Quem de entre vós estiver sem pecado atire a primeira pedra». Inclinou-Se novamente e continuou a escrever no chão. Eles, porém, quando ouviram tais palavras, foram saindo um após outro, a começar pelos mais velhos, e ficou só Jesus e a mulher, que estava no meio. Jesus ergueu-Se e disse-lhe: «Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?». Ela respondeu: «Ninguém, Senhor». Disse então Jesus: «Nem Eu te condeno. Vai e não tornes a pecar».


misera et misericordia
A armadilha é perfeita. Os escribas e fariseus arrastam uma mulher surpreendida em flagrante adultério, até que caia junto aos pés de Jesus. «Tu que dizes?» Os olhos do povo fixam-se sobre Ele. Se perdoa, desrespeita a lei hebraica; se a condena à morte, viola a lei romana (a única que podia sentenciar a pena capital). Sem dúvida: é uma armadilha perfeita.

Os ânimos exaltam-se; os escribas e fariseus atiçam a multidão e exigem uma resposta de Jesus. Num ambiente hostil em que todos gritam e ninguém escuta, Ele faz algo que capta a (nossa) atenção e abranda o ritmo frenético do episódio: inclina-se e começa a escrever com o dedo na areia.

Jesus faz aquilo que eles não querem fazer; o que cada juiz deve fazer antes de pronunciar uma sentença: abaixa-se (sinal de humildade; como que para estar mais perto daquela mulher que agoniza no chão) e reflecte. O verdadeiro sentido da Lei, que o “dedo” de Deus escreveu na pedra quase mil e trezentos anos antes, está para ser revelado. E tudo começa com o gesto de um dedo que escreve na areia.

«Quem de entre vós estiver sem pecado atire a primeira pedra». Tal como dizia S. Agostinho, relicti sunt duo: misera et misericordia. Ficaram só os dois: a miséria e a misericórdia. A mulher e Jesus. A Lei (r)escrita permanece intacta, mas ao mesmo tempo, radicalmente transformada. O único sem pecado, que poderia condenar a mulher, prefere salvá-la, distinguindo para sempre o pecado do pecador. A lógica de Deus não é uma lógica de morte, mas uma lógica de vida. A proposta que Deus faz aos homens através de Jesus não passa pela eliminação dos que erram, mas por um convite à vida nova, à conversão, à transformação, à libertação de tudo o que oprime e escraviza. E destruir ou matar em nome de Deus ou em nome de uma qualquer moral é uma ofensa inqualificável a esse Deus da vida e do amor, que apenas quer a realização plena do homem.

(Tenham uma boa semana!)


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sábado, 13 de março de 2010

4º DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA (ano C)



Leitura do Livro de Josué
(Jos 5,9a.10-12)
Naqueles dias, disse o Senhor a Josué: «Hoje tirei de vós o opróbrio do Egipto». Os filhos de Israel acamparam em Gálgala e celebraram a Páscoa, no dia catorze do mês, à tarde, na planície de Jericó. No dia seguinte à Páscoa, comeram dos frutos da terra: pães ázimos e espigas assadas nesse mesmo dia. Quando começaram a comer dos frutos da terra, no dia seguinte à Páscoa, cessou o maná. Os filhos de Israel não voltaram a ter o maná, mas, naquele ano, já se alimentaram dos frutos da terra de Canaã.


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 33 (34)
Refrão: Saboreai e vede como o Senhor é bom.

A toda a hora bendirei o Senhor,
o seu louvor estará sempre na minha boca.
A minha alma gloria-se no Senhor:
escutem e alegrem-se os humildes.

Enaltecei comigo ao Senhor
e exaltemos juntos o seu nome.
Procurei o Senhor e Ele atendeu-me,
libertou-me de toda a ansiedade.

Voltai-vos para Ele e ficareis radiantes,
o vosso rosto não se cobrirá de vergonha.
Este pobre clamou e o Senhor o ouviu,
salvou-o de todas as angústias.


Leitura da Segunda Epístola do apóstolo São Paulo aos Coríntios
(2 Cor 5,17-21)
Irmãos: Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura. As coisas antigas passaram; tudo foi renovado. Tudo isto vem de Deus, que por Cristo nos reconciliou consigo e nos confiou o ministério da reconciliação. Na verdade, é Deus que em Cristo reconcilia o mundo consigo, não levando em conta as faltas dos homens e confiando-nos a palavra da reconciliação. Nós somos, portanto, embaixadores de Cristo; é Deus quem vos exorta por nosso intermédio. Nós vos pedimos em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus. A Cristo, que não conhecera o pecado, Deus identificou-O com o pecado por causa de nós, para que em Cristo nos tornemos justiça de Deus.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 15,1-3.11-32)
Naquele tempo, os publicanos e os pecadores aproximavam-se todos de Jesus, para O ouvirem. Mas os fariseus e os escribas murmuravam entre si, dizendo: «Este homem acolhe os pecadores e come com eles». Jesus disse-lhes então a seguinte parábola: «Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me toca’. O pai repartiu os bens pelos filhos. Alguns dias depois, o filho mais novo, juntando todos os seus haveres, partiu para um país distante e por lá esbanjou quanto possuía, numa vida dissoluta. Tendo gasto tudo, houve uma grande fome naquela região e ele começou a passar privações. Entrou então ao serviço de um dos habitantes daquela terra, que o mandou para os seus campos guardar porcos. Bem desejava ele matar a fome com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. Então, caindo em si, disse: ‘Quantos trabalhadores de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a morrer de fome! Vou-me embora, vou ter com meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho, mas trata-me como um dos teus trabalhadores’. Pôs-se a caminho e foi ter com o pai. Ainda ele estava longe, quando o pai o viu: encheu-se de compaixão e correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos. Disse-lhe o filho: ‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho’. Mas o pai disse aos servos: ‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha. Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei o vitelo gordo e matai-o. Comamos e festejemos, porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’. E começou a festa. Ora o filho mais velho estava no campo. Quando regressou, ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças. Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo. O servo respondeu-lhe: ‘O teu irmão voltou e teu pai mandou matar o vitelo gordo, porque ele chegou são e salvo’. Ele ficou ressentido e não queria entrar. Então o pai veio cá fora instar com ele. Mas ele respondeu ao pai: ‘Há tantos anos que eu te sirvo, sem nunca transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos. E agora, quando chegou esse teu filho, que consumiu os teus bens com mulheres de má vida, mataste-lhe o vitelo gordo’. Disse-lhe o pai: ‘Filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu. Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’».


PRÓDIGO (do Latim pródigu: que gasta excessivamente; esbanjador)

Ambos os filhos protagonistas desta parábola têm uma ideia errada de Deus. Ambos.

O primeiro filho pensa que Deus seja um concorrente, um adversário: «enquanto ele existir, não posso realizar-me plenamente». Para o filho mais novo, o Pai é apenas um censor, um crítico asfixiante que sufoca a sua liberdade. Pedindo (exigindo) a parte da herança «que me toca», o filho trata o Pai como se este estivesse morto. A sua decisão de partir para um país distante confirma esta ideia: ele quer viver a vida longe do olhar paterno; quer interromper toda e qualquer comunicação com a casa natal. O filho mais novo arrepende-se desta sua decisão? Há quem diga que sim; que é por isso que volta a casa. Eu tenho as minhas dúvidas. Para mim, volta a casa apenas porque tem fome.

O filho mais velho também não consegue ver o verdadeiro rosto paterno de Deus. Para ele, Deus é “patrão”. Alguém que temos de apaziguar com obediência a ritos e regras, mas que um dia recompensará a nossa fadiga (e todas as missas enfadonhas que suportámos) com um grande prémio. O ressentimento é natural: o patrão é injusto, pois organiza uma festa para um subordinado indisciplinado e desobediente. O dever cancelou o amor e o filho mais velho vê relações contratuais em vez de laços familiares. O filho mais velho muda de ideia? Deixa-se “tocar” pelas palavras do Pai, entra em casa e faz festa? Não sabemos. Também neste caso, a parábola permanece aberta, sem um ingénuo “final feliz”.

Os dois filhos podem continuar perdidos: um na distância, outro na proximidade; um na desobediência, outro no dever. O Evangelho diz que Deus nos considera adultos, que confia nas nossas mãos a decisão final e que respeita as nossas escolhas.

«E o Pai?» Têm razão: não podemos terminar sem falar dele.

A parábola mostra-nos um Pai que deixa partir o filho, mesmo temendo que ele possa arruinar-se. Um Pai que todos os dias vigia o horizonte. Que corre na direcção do filho que regressa derrotado e que o abraça sem recriminações, antes que este possa dizer o que quer que seja. Que sai de casa, (sempre em caminho!) ao encontro do filho mais velho, para rogar-lhe (!) que mude de ideia; para tentar contagiá-lo com um pouco do seu amor e misericórdia. Mas Deus é assim? Apesar do nosso pecado e da nossa dureza, Ele ama-nos assim tanto? É verdade queridos irmãos. Nesta parábola, de excessivo, pródigo e esbanjador, temos apenas o Pai e a forma surpreendente como ele ama os seus filhos.

(Tenham uma boa semana!)


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sábado, 6 de março de 2010

3º DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA (ano C)



Leitura do Livro do Êxodo
(Ex 3,1-8a.13-15)
Naqueles dias, Moisés apascentava o rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote de Madiã. Ao levar o rebanho para além do deserto, chegou ao monte de Deus, o Horeb. Apareceu-lhe então o Anjo do Senhor numa chama ardente, do meio de uma sarça. Moisés olhou para a sarça, que estava a arder, e viu que a sarça não se consumia. Então disse a Moisés: «Vou aproximar-me, para ver tão assombroso espectáculo: por que motivo não se consome a sarça?» O Senhor viu que ele se aproximava para ver. Então Deus chamou-o do meio da sarça: «Moisés! Moisés!» Ele respondeu: «Aqui estou!» Continuou o Senhor: «Não te aproximes daqui. Tira as sandálias dos pés, porque o lugar que pisas é terra sagrada». E acrescentou: «Eu sou o Deus de teu pai, Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacob». Então Moisés cobriu o rosto, com receio de olhar para Deus. Disse-lhe o Senhor: «Eu vi a situação miserável do meu povo no Egipto; escutei o seu clamor provocado pelos opressores. Conheço, pois, as suas angústias. Desci para o libertar das mãos dos egípcios e o levar deste país para uma terra boa e espaçosa, onde corre leite e mel». Moisés disse a Deus: «Vou procurar os filhos de Israel e dizer-lhes: ‘O Deus de vossos pais enviou-me a vós’. Mas se me perguntarem qual é o seu nome, que hei-de responder-lhes?» Disse Deus a Moisés: «Eu sou ‘Aquele que sou’». E prosseguiu: «Assim falarás aos filhos de Israel: O que Se chama ‘Eu sou’ enviou-me a vós». Deus disse ainda a Moisés: «Assim falarás aos filhos de Israel: ‘O Senhor, Deus de vossos pais, Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacob, enviou-me a vós. Este é o meu nome para sempre, assim Me invocareis de geração em geração’».


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 102 (103)
Refrão: O Senhor é clemente e cheio de compaixão.

Bendiz, ó minha alma, o Senhor
e todo o meu ser bendiga o seu nome santo.
Bendiz, ó minha alma, o Senhor
e não esqueças nenhum dos seus benefícios.

Ele perdoa todos os teus pecados
e cura as tuas enfermidades;
salva da morte a tua vida
e coroa-te de graça e misericórdia.

O Senhor faz justiça
e defende o direito de todos os oprimidos.
Revelou a Moisés os seus caminhos
e aos filhos de Israel os seus prodígios.

O Senhor é clemente e compassivo,
paciente e cheio de bondade.
Como a distância da terra aos céus,
assim é grande a sua misericórdia para os que O temem.


Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Coríntios
(1 Cor 10,1-6.10-12)
Irmãos: Não quero que ignoreis que os nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, passaram todos através do mar e na nuvem e no mar, receberam todos o baptismo de Moisés. Todos comeram o mesmo alimento espiritual e todos beberam a mesma bebida espiritual. Bebiam de um rochedo espiritual que os acompanhava: esse rochedo era Cristo. Mas a maioria deles não agradou a Deus, pois caíram mortos no deserto. Esses factos aconteceram para nos servir de exemplo, a fim de não cobiçarmos o mal, como eles cobiçaram. Não murmureis, como alguns deles murmuraram, tendo perecido às mãos do Anjo exterminador. Tudo isto lhes sucedia para servir de exemplo e foi escrito para nos advertir, a nós que chegámos ao fim dos tempos. Portanto, quem julga estar de pé tome cuidado para não cair.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 13,1-9)
Naquele tempo, vieram contar a Jesus que Pilatos mandara derramar o sangue de certos galileus, juntamente com o das vítimas que imolavam. Jesus respondeu-lhes: «Julgais que, por terem sofrido tal castigo, esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus? Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos do mesmo modo. E aqueles dezoito homens, que a torre de Siloé, ao cair, atingiu e matou? Julgais que eram mais culpados do que todos os outros habitantes de Jerusalém? Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos de modo semelhante. Jesus disse então a seguinte parábola: «Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi procurar os frutos que nela houvesse, mas não os encontrou. Disse então ao vinhateiro: ‘Há três anos que venho procurar frutos nesta figueira e não os encontro. Deves cortá-la. Porque há-de estar ela a ocupar inutilmente a terra?’ Mas o vinhateiro respondeu-lhe: ‘Senhor, deixa-a ficar ainda este ano, que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo. Talvez venha a dar frutos. Se não der, mandá-la-ás cortar no próximo ano».


KARMA?
“Karma” é um termo proveniente do sânscrito, que indica uma doutrina comum ao pensamento budista e hinduísta. Muito resumidamente, segundo esta doutrina, se alguém praticou o mal, então receberá de volta um mal em intensidade equivalente ao mal causado. Se praticou o bem, receberá de volta um bem em intensidade equivalente ao bem causado. A página do Evangelho que acabámos de escutar diz-nos claramente que a fé cristã move-se numa outra direcção.

«O que é que eu fiz para merecer isto? Porque é que Deus me mandou esta cruz?»
Quantas vezes ouvi estas e outras lamentações. Pessoas oprimidas pelo sofrimento e pela tristeza, que se zangam com Deus e exigem uma explicação. Mas dizer que as coisas boas que nos acontecem são a recompensa de Deus para o nosso bom comportamento e que as coisas más são o castigo para o nosso pecado, equivale a acreditarmos num deus mercantilista e chantagista que, evidentemente, não tem nada a ver com o Pai que nos foi revelado em Jesus Cristo.

Citando duas tragédias do seu tempo (mas hoje poderia falar do Haiti, da Madeira ou do Chile), Jesus desconstrói uma crença popular muito difusa ainda hoje: que as desgraças sejam uma forma de punição divina; que Deus possa impedir estas tragédias, mas decida permanecer surdo e mudo aos nossos gritos de desespero.

Jesus diz-nos algo de surpreendente: a vida tem uma lógica própria, uma liberdade própria, uma autonomia própria. Se a torre de Siloé caiu, a causa provavelmente está num cálculo errado da estrutura, ou na qualidade inferior dos materiais utilizados na sua construção. A condenação à morte dos galileus explica-se com a política imperialista romana, que usa a violência como instrumento de opressão. Cristo restabelece a justa responsabilidade, refuta categoricamente a doutrina judaica da retribuição e corta definitivamente da nossa mentalidade a ligação directa entre pecado e castigo.

No entanto, somos chamados a ler estas tragédias como um aviso que a vida, não Deus, nos faz: debaixo dos escombros daquela torre poderíamos estar nós. As nossas vidas são frágeis e o nosso tempo é breve. Deus é paciente (tal como aprendemos da parábola da figueira) mas não podemos desperdiçar o nosso tempo. Uma vida sem os frutos da conversão é uma tristeza que Jesus não hesita em comparar com a angústia da morte física. Quaresma é tempo de arrependimento, de grandes decisões, de transformação da própria vida. Não a desperdicemos. Não percamos tempo.


(Tenham uma boa semana!)



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