sábado, 27 de setembro de 2008

XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM (ano A)

Leitura da Profecia de Ezequiel
(Ez 18,25-28)
Eis o que diz o Senhor: «Vós dizeis: ‘A maneira de proceder do Senhor não é justa’. Escutai, casa de Israel: Será a minha maneira de proceder que não é justa? Não será antes o vosso modo de proceder que é injusto? Quando o justo se afastar da justiça, praticar o mal o vier a morrer, morrerá por causa do mal cometido. Quando o pecador se afastar do mal que tiver realizado, praticar o direito e a justiça, salvará a sua vida. Se abris os seus olhos e renunciar às faltas que tiver cometido, há-de viver e não morrerá».


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 24 (25)
Refrão: Lembrai-Vos, Senhor, da vossa misericórdia.

Mostrai-me, Senhor, os vossos caminhos,
ensinai-me as vossas veredas.
Guiai-me na vossa verdade e ensinai-me,
porque Vós sois Deus, meu Salvador:
em vós espero sempre.

Lembrai-Vos, Senhor, das vossas misericórdias
e das vossas graças que são eternas.
Não recordeis as minhas faltas
e os pecados da minha juventude.
Lembrai-Vos de mim segundo a vossa clemência,
por causa da vossa bondade, Senhor.

O Senhor é bom e recto,
ensina o caminho aos pecadores.
Orienta os humildes na justiça
e dá-lhes a conhecer os seus caminhos.


Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses
(Filip 2,1-11)
Irmãos: Se há em Cristo alguma consolação, algum conforto na caridade, se existe alguma consolação nos dons do Espírito Santo, alguns sentimentos de ternura e misericórdia, então, completai a minha alegria, tendo entre vós os mesmos sentimentos e a mesma caridade, numa só alma e num só coração. Não façais nada por rivalidade nem por vanglória; mas, com humildade, considerai os outros superiores a vós mesmos, sem olhar cada um aos seus próprios interesses, mas aos interesses dos outros.Tende em vós os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus. Ele, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte, e morte de cruz. Por isso, Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem, no céu, na terra e nos abismos, e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 21,28-32)
Naquele tempo, disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo: «Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Foi ter com o primeiro e disse-lhe: ‘Filho, vai hoje trabalhar na vinha’. Mas ele respondeu-lhe: ‘Não quero’. Depois, porém, arrependeu-se e foi. O homem dirigiu-se ao segundo filho e falou-lhe do mesmo modo. Ele respondeu: ‘Eu vou, Senhor’. Mas de facto não foi. Qual dos dois fez a vontade ao pai?» Eles responderam-Lhe: «O primeiro». Jesus disse-lhes: «Em verdade vos digo: Os publicanos e as mulheres de má vida irão diante de vós para o reino de Deus. João Baptista veio até vós, ensinando-vos o caminho da justiça, e não acreditastes nele; mas os publicanos e as mulheres de má vida acreditaram. E vós, que bem o vistes, não vos arrependestes, acreditando nele».



«NÃO É UM DIZER: É UM FAZER. É UM FAZER QUE É DIZER»*
Os últimos dados estatísticos (2007) sobre a população mundial falam de 6.463.234.000 pessoas no mundo. Dentro deste número incrível, os baptizados na fé cristã são 1.999.563.838. Isso quer dizer que existem dois biliões de cristãos espalhados pelos quatro cantos da Terra. É sem dúvida um número impressionante, que porém gera inevitavelmente uma pergunta:
Onde é que eles andam?

Dois mil milhões! 33% da população mundial! Mas apesar destes números, ainda experimentamos a sensação de viver num planeta onde o Evangelho é relativamente desconhecido. Parece-me que anda por aí muita gente a dizer que “sim”, mas que depois não aparece na vinha para trabalhar. Por onde andam os homens e as mulheres que amam o próximo como a si mesmos? E os misericordiosos, os puros de coração ou os que trabalham para a paz? Onde estão as pessoas que perdoam 70 vezes 7?

Evidentemente as estatísticas não conseguem dar-nos o quadro exacto da difusão da fé cristã. Dentro deste número temos de colocar todas as pessoas que, apesar do baptismo, nunca tiveram a oportunidade de aprofundar a própria fé, e cujo conhecimento da Igreja e do Evangelho permanece a um nível superficial, mais ligado a tradições e outros factores culturais do que propriamente a um verdadeiro caminho de conversão. Mas deste problema falaremos numa outra ocasião. Este Domingo somos convidados a reflectir sobre aqueles cristãos que realmente ouviram a voz do Pai, conhecem o Evangelho, responderam ao chamamento, mas não transformaram o próprio “sim” em gestos concretos.

Não há nada mais perigoso do que a ilusão de viver uma vida cristã.
Um pecador pode sempre arrepender-se, mudar de vida, caminhar na direcção do amor do Pai. No entanto, uma pessoa que diz a si própria «estou bem!», nunca irá procurar mais nada. Quem acredita que não precisa de mudar está condenado à imobilidade, e a nossa fé é Caminho!

É difícil encontrar alguém que se considera um santo (ou que pelo menos o diga abertamente, porque um pouco de humildade fica sempre bem...). Mas é tão fácil encontrar pessoas que não se consideram pecadoras. «Sr. padre, eu nunca matei nem roubei ninguém». Ainda bem! Mas será que se pode viver uma vida inteira consolados com a ideia de não ser réus de crimes tão graves? Quando é que deixamos de nos comparar com os piores e começamos a trabalhar para seguir o exemplo daqueles que são mais generosos, mais honestos e mais justos do que nós?

A nossa vocação é a santidade. O nosso modelo é Jesus Cristo. Não basta dizer “sim”. É preciso unir à convicção das nossas palavras a força dos nossos gestos. É necessário trabalhar e não parar nunca de caminhar na direcção do amor de Deus Pai. E se todos nós o fizermos (dois biliões de pessoas!) então não somos só nós que mudamos, mas o mundo inteiro também se transforma.



(tenham uma boa semana!)

* poema de Octavio Paz, prémio nobel da literatura em 1990


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sábado, 20 de setembro de 2008

XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM (ano A)


Leitura do Livro de Isaías
(Is 55,6-9)
Procurai o Senhor, enquanto se pode encontrar, invocai-O, enquanto está perto. Deixe o ímpio o seu caminho e o homem perverso os seus pensamentos. Converta-se ao Senhor, que terá compaixão dele, ao nosso Deus, que é generoso em perdoar. Porque os meus pensamentos não são os vossos, nem os vossos caminhos são os meus – oráculo do Senhor –. Tanto quanto o céu está acima da terra, assim os meus caminhos estão acima dos vossos e acima dos vossos estão os meus pensamentos.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 144 (145)
Refrão: O Senhor está perto de quantos O invocam.

Quero bendizer-Vos, dia após dia,
e louvar o vosso nome para sempre.
Grande é o Senhor e digno de todo o louvor,
insondável é a sua grandeza.

O Senhor é clemente e compassivo,
paciente e cheio de bondade.
O Senhor é bom para com todos
e a sua misericórdia se estende a todas as criaturas.

O Senhor é justo em todos os seus caminhos
e perfeito em todas as suas obras.
O Senhor está perto de quantos O invocam,
de quantos O invocam em verdade.

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses
(Filip 1,20c-24.27ª)
Irmãos: Cristo será glorificado no meu corpo, quer eu viva quer eu morra. Porque, para mim, viver é Cristo e morrer é lucro. Mas, se viver neste corpo mortal é útil para o meu trabalho, não sei o que escolher. Sinto-me constrangido por este dilema: desejaria partir e estar com Cristo, que seria muito melhor; mas é mais necessário para vós que eu permaneça neste corpo mortal. Procurai somente viver de maneira digna do Evangelho de Cristo.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 20,1-16ª)
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se a um proprietário, que saiu muito cedo a contratar trabalhadores para a sua vinha. Ajustou com eles um denário por dia e mandou-os para a sua vinha. Saiu a meio da manhã, viu outros que estavam na praça ociosos e disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha e dar-vos-ei o que for justo’. E eles foram. Voltou a sair, por volta do meio-dia e pelas três horas da tarde, e fez o mesmo. Saindo ao cair da tarde, encontrou ainda outros que estavam parados e disse-lhes: ‘Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?’ Eles responderam-lhe: ‘Ninguém nos contratou’. Ele disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha’. Ao anoitecer, o dono da vinha disse ao capataz: ‘Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário, a começar pelos últimos e a acabar nos primeiros’. Vieram os do entardecer e receberam um denário cada um. Quando vieram os primeiros, julgaram que iam receber mais, mas receberam também um denário cada um. Depois de o terem recebido, começaram a murmurar contra o proprietário, dizendo: ‘Estes últimos trabalharam só uma hora e deste-lhes a mesma paga que a nós, que suportámos o peso do dia e o calor’. Mas o proprietário respondeu a um deles: ‘Amigo, em nada te prejudico. Não foi um denário que ajustaste comigo? Leva o que é teu e segue o teu caminho. Eu quero dar a este último tanto como a ti. Não me será permitido fazer o que eu quero do que é meu? Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?’ Assim, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos».


COMPRAR A SALVAÇÃO
Sejamos sinceros: quantos de nós, ao escutarmos o evangelho deste Domingo, concordámos, pelo menos um bocadinho, com o mau humor dos primeiros trabalhadores? Provavelmente muitos. Trabalhar um dia inteiro ao Sol para receber um denário, e depois ver outros, que só trabalharam uma hora, receberem exactamente o mesmo...? Não é justo! Alguns dos trabalhadores até devem ter pensado: «se eu soubesse, tinha ficado quieto o dia inteiro e também só trabalhava a última hora».

Invejar quem chega à vinha na última hora significa que ainda não compreendemos a beleza da vindima. Um cristão não pode secretamente cobiçar uma vida sem fé e sem Deus. Isso é sinal de que ainda não conhece o verdadeiro rosto do Pai e vive a própria fé como um peso necessário para que o paraíso não lhe escape. Que coisa tão triste...
Quem acolheu (verdadeiramente!) no próprio coração o dom da fé, não pode não alegrar-se quando mais alguém descobre a beleza da vocação cristã.

Os trabalhadores sentiram-se enganados, mas basta ler de novo a parábola para ver que não é esse o caso. Ninguém lhes tirou nada, no entanto, foram incapazes de se alegrar com a generosidade do patrão. O problema é que ainda somos prisioneiros da ideia de um "deus contabilista", que vai anotando tudo aquilo que fazemos na nossa vida (coisas boas e más) e que no final faz as contas e dá a cada um o merecido, o devido, o justo. Mas Jesus mostra-nos que o seu Pai tem uma outra lógica.

O filho pródigo merecia ser acolhido de braços abertos?
A adúltera merecia ser defendida?
O amor de Deus é dom, é sempre gratuito. Não precisa de ser "comprado" com as nossas boas acções. A salvação que Ele nos oferece pode ser acolhida ou recusada, mas não precisamos de regatear com Jesus Cristo. Ele dá a sua vida por todos nós, bons e maus, amigos e inimigos. E o seu exemplo é caminho, verdade e vida.

Normalmente numa paróquia, para além das pessoas que discretamente trabalham com generosidade, encontramos também aquelas que não conseguem viver o próprio serviço com autêntica gratuidade: olham para os novos "trabalhadores" como se estes fossem concorrentes e reivindicam para si direitos e privilégios como se fossem "donos" da paróquia, «porque eu já cá estou há mais tempo do que eles» ou «porque eu tenho trabalhado mais para a paróquia do que todos os outros».

O bem que fazemos não deve ter segundos fins. Se ajudas uma pessoa, fá-lo pelo simples motivo de que ela precisa da tua ajuda. Talvez oiças um "obrigado". Talvez haja uma recompensa. Mas a tua motivação deve ser gratuita, livre e sincera, tal como o amor do Pai é gratuito, livre e sincero.



(tenham uma boa semana!)

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sábado, 13 de setembro de 2008

FESTA DA EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ - 14 de Setembro

Leitura do Livro dos Números
(Nm 21, 4b-9)
Naqueles dias, o povo de Israel impacientou-se e falou contra Deus e contra Moisés: «Porque nos fizeste sair do Egipto, para morrermos neste deserto? Aqui não há pão nem água e já nos causa fastio este alimento miserável». Então o Senhor mandou contra o povo serpentes venenosas que mordiam nas pessoas e morreu muita gente de Israel. O povo dirigiu-se a Moisés, dizendo: «Pecámos, ao falar contra o Senhor e contra ti. Intercede junto do Senhor, para que afaste de nós as serpentes».E Moisés intercedeu pelo povo. Então o Senhor disse a Moisés: «Faz uma serpente de bronze e coloca-a sobre um poste. Todo aquele que for mordido e olhar para ela ficará curado». Moisés fez uma serpente de bronze e fixou-a num poste. Quando alguém, era mordido por uma serpente,olhava para a serpente de bronze e ficava curado.

SALMO 77 (78), 1-2. 34-35. 36-37. 38 (R.cf. 7c)
Refrão: Não esqueçais as obras do Senhor.

Escuta, meu povo, a minha instrução,
presta ouvidos às palavras da minha boca.
Vou falar em forma de provérbio,
vou revelar os mistérios dos tempos antigos.

Quando Deus castigava os antigos,
eles O procuravam,
tornavam a voltar-se para Ele
e recordavam-se de que Deus era o seu protector,
o Altíssimo o seu redentor.

Eles, porém, enganavam-n’O com a boca
e mentiam-Lhe com a língua;
o seu coração não era sincero,
nem eram fiéis à sua aliança.

Mas Deus, compadecido, perdoava o pecado
e não os exterminava.
Muitas vezes reprimia a sua cólera
e não executava toda a sua ira.


Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses
(Filip 2, 6-11)
Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz. Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem no céu, na terra e nos abismos, e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor,para glória de Deus Pai.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
(Jo 3, 13-17)
Naquele tempo, disse Jesus a Nicodemos: «Ninguém subiu ao Céu senão Aquele que desceu do Céu: o Filho do homem. Assim como Moisés elevou a serpente no deserto, também o Filho do homem será elevado, para que todo aquele que acredita tenha n’Ele a vida eterna. Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele».



RAZÕES PARA FESTEJAR
A festa da exaltação da Santa Cruz, quando ocorre num Domingo, é uma das raras celebrações que substitui a liturgia dominical. Apesar de uma difusa tradição que reconhece nesta data o aniversário da descoberta da cruz de Cristo em Jerusalém por parte de santa Helena, mãe do imperador Constantino, a origem desta festa deve-se a dois eventos distantes entre eles no tempo: a inauguração da Basílica do Santo Sepulcro no ano 325 e a vitória sobre os persas em 628 que permitiu recuperar a relíquia da cruz, perdida desde a invasão de Jerusalém no ano 614.

E hoje, qual o significado que podemos dar a esta festa? Será que ainda tem sentido festejar uma cruz?

Os primeiros cristãos preferiam representar Cristo com a imagem do bom pastor que carrega a ovelha aos ombros ou com o símbolo estilizado do peixe (a palavra Ichthys que significa “peixe” em grego é um acrónimo de Iesus Christus Theou Yicus Soter, “Jesus Cristo filho de Deus Salvador”), mas eram incapazes de O representar crucificado, pois essa era a morte mais violenta e vergonhosa daquela época. Hoje em dia a cruz perdeu muita da sua força: já não choca; já não escandaliza. Encontramos a cruz em igrejas, casas, jóias e habituámo-nos de tal modo à sua presença que esta tornou-se quase “normal”.

Ainda me lembro da surpresa que senti quando me deparei com uma grande cruz de madeira no Museu da Tortura na cidade de San Gimignano... simplesmente não estava habituado a vê-la naquele contexto. Porém a pergunta torna-se cada vez mais pertinente: para quê celebrar um instrumento de sofrimento e de morte? Que sentido tem esta nossa festa?

Não é raro ouvir-mos na igreja que «a cruz é a Salvação», mas não nos podemos contentar com uma “frase feita” se não somos capazes de a entender. O que é que nos salva? O que é que queremos exaltar? A morte? O sofrimento? Deus não ama o sofrimento! Temos de lutar contra esta tendência autopunitiva que leva algumas pessoas a procurar o sofrimento, na esperança de conquistarem a salvação. È uma grave deturpação da fé cristã.

Não é a morte de Cristo que nos salva e nem sequer a sua cruz. Quantas pessoas foram crucificadas ao longo da história? Ao lado de Jesus estavam dois ladrões, também eles crucificados. Alguém se salvou por causa deles? Ninguém.

A salvação não vem pela cruz ou pela morte, mas pelo amor que está por detrás desse gesto de doação. Todos nós podemos dizer «Amo-te!», mas o amor tem que se ver, tem que se tocar, tem que se transformar em vida real, em gestos concretos. Não é a cruz que nos salva, mas o amor que está implícito nela. Não basta falar de amor: é necessário dar a vida por amor. Essa doação pode não exigir o sacrifício supremo, mas para que o amor exista (exista realmente!) temos que dar um pedaço da nossa vida, um pouco do nosso tempo: podem ser 5 minutos ao telefone, meia hora de conversa no café, ou um serão inteiro a escutar um desabafo... mas temos que dar um pouco de nós para que o amor seja real.

(tenham uma boa semana!)

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sábado, 6 de setembro de 2008

XXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM (ano A)



Leitura da Profecia de Ezequiel
(Ez 33,7-9)
Eis o que diz o Senhor: «Filho do homem, coloquei-te como sentinela na casa de Israel. Quando ouvires a palavra da minha boca, deves avisá-los da minha parte. Sempre que Eu disser ao ímpio: ‘Ímpio, hás-de morrer’, e tu não falares ao ímpio para o afastar do seu caminho, o ímpio morrerá por causa da sua iniquidade, mas Eu pedir-te-ei contas da sua morte. Se tu, porém, avisares o ímpio, para que se converta do seu caminho, e ele não se converter, morrerá nos seus pecados, mas tu salvarás a tua vida».

SALMO 94 (95) – 1-2.6-7.8-9 (R. cf. 8)
Refrão: Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações.

Vinde, exultemos de alegria no Senhor,
aclamemos a Deus, nosso Salvador.
Vamos à sua presença e dêmos graças,
ao som de cânticos aclamemos o Senhor.

Vinde, prostremo-nos em terra,
adoremos o Senhor que nos criou.
Pois Ele é o nosso Deus
e nós o seu povo, as ovelhas do seu rebanho.

Quem dera ouvísseis hoje a sua voz:
«Não endureçais os vossos corações,
como em Meriba, no dia de Massa no deserto,
onde vossos pais Me tentaram e provocaram,
apesar de terem visto as minhas obras».


Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
(Rom 13, 8-10)
Irmãos: Não devais a ninguém coisa alguma, a não ser o amor de uns para com os outros, pois, quem ama o próximo, cumpre a lei. De facto, os mandamentos que dizem: «Não cometerás adultério, não matarás, não furtarás, não cobiçarás», e todos os outros mandamentos, resumem-se nestas palavras: «Amarás ao próximo como a ti mesmo». A caridade não faz mal ao próximo. A caridade é o pleno cumprimento da lei.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 18, 15-20)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Se o teu irmão te ofender, vai ter com ele e repreende-o a sós. Se te escutar, terás ganho o teu irmão. Se não te escutar, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão fique resolvida pela palavra de duas ou três testemunhas. Mas se ele não lhes der ouvidos, comunica o caso à Igreja; e se também não der ouvidos à Igreja, considera-o como um pagão ou um publicano. Em verdade vos digo: Tudo o que ligardes na terra será ligado no Céu; e tudo o que desligardes na terra será desligado no Céu. Digo-vos ainda: Se dois de vós se unirem na terra para pedirem qualquer coisa, ser-lhes-á concedida por meu Pai que está nos Céus. Na verdade, onde estão dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles».




INDIVIDUALISTAS, INTIMISTAS E SOLITÁRIOS DE TODO O MUNDO,
UNI-VOS!
Se com alguma frequência falam de fé e de Deus com outras pessoas, então de certeza que já ouviram afirmações como esta: «Eu cá tenho a minha fé. Não vou à igreja, mas tenho a minha fé. E eu e Deus lá nos vamos entendendo». Por toda a parte se pode observar esta tendência para “privatizar” a fé, para viver o próprio credo isolados do resto do mundo.

Acho óptimo que se descubra a própria fé como algo de muito pessoal. Porque é assim mesmo que deve ser! De modo contrário, que sentido teria poder chamar Deus de “Pai”? A nossa fé deve ser um percurso pessoal de descoberta desse rosto paterno; uma relação de amizade e amor, única e irrepetível, que se constrói dia após dia. E isso significa que aquilo que Deus me diz, só eu é que sei. Cada um dos seus filhos é único e por isso mesmo, Deus mantém com cada um de nós um diálogo diferente. E ninguém pode dizer-vos qual o conteúdo dessa vossa conversa. Porque ninguém sabe. Porque é pessoal.

Mas se a fé é uma aventura pessoal, não deve no entanto ser confundida com um percurso individual. E o Evangelho deste Domingo di-lo claramente: «onde estão dois ou três reunidos no meu nome, Eu estou no meio deles». Dois ou três! Para poder escutar com atenção a voz de Deus é muitas vezes necessário fechar a porta e rezar sozinhos no silêncio do nosso quarto, mas há algo na celebração comunitária que qualifica a nossa oração e a Sua presença no meio de nós.

Não pode existir um autêntico movimento vertical de oração, entre a humanidade e Deus, que não se concretize em seguida num movimento horizontal de partilha com aqueles que descobrimos serem nossos irmãos! Se Deus realmente é Pai, então nós somos uma única família. E esta é uma dimensão essencial da nossa fé a que não podemos renunciar, sob o risco de a trair.
Quando estamos sozinhos, dizemos «Pai nosso...» ou dizemos «Pai meu...»?
A nossa fé é pessoal, mas não é individual: é comunitária.

A Igreja não deve substituir a nossa relação com Deus, mas sim ser o espaço onde nos ajudamos a descobrir a beleza desse diálogo; onde partilhamos o que escutámos; e onde também nos apoiamos para que ninguém caia na tentação (essa grande, grande tentação...) de colocar na boca de Deus as palavras que gostaria de ouvir: isso seria batota!

Podem ser muitos os motivos que levam uma pessoa a afastar-se da própria comunidade:
Talvez haja muita ferrugem e rotina na maneira de celebrar a fé.
Talvez o pároco não seja capaz de comunicar a beleza e a actualidade da Palavra de Deus.
Talvez o coro seja desafinado.
Mas se todos se retiram, se ninguém trabalha para que as coisas melhorem, então nunca nada irá mudar. E termino com uma pergunta: quando foi a última vez que te ofereceste para ajudar a tua paróquia?



(tenham uma boa semana!)



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