sábado, 26 de março de 2011

3º DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA



Leitura do Livro do Êxodo
(Ex 17,3-7)
Naqueles dias, o povo israelita, atormentado pela sede, começou a altercar com Moisés, dizendo: «Porque nos tiraste do Egipto? Para nos deixares morrer à sede, a nós, aos nossos filhos e aos nossos rebanhos?» Então Moisés clamou ao Senhor, dizendo: «Que hei-de fazer a este povo? Pouco falta para me apedrejarem». O Senhor respondeu a Moisés: «Passa para a frente do povo e leva contigo alguns anciãos de Israel. Toma na mão a vara com que fustigaste o rio e põe-te a caminho. Eu estarei diante de ti, sobre o rochedo, no monte Horeb. Baterás no rochedo e dele sairá água; então o povo poderá beber». Moisés assim fez à vista dos anciãos de Israel. E chamou àquele lugar Massa e Meriba, por causa da altercação dos filhos de Israel e por terem tentado o Senhor, ao dizerem: «O Senhor está ou não no meio de nós?»


SALMO RESPONSORIAL – SALMO 94 (95)
Refrão: Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações.

Vinde, exultemos de alegria no Senhor,
aclamemos a Deus nosso salvador.
Vamos à sua presença e dêmos graças,
ao som de cânticos aclamemos o Senhor.

Vinde, prostremo-nos em terra,
adoremos o Senhor que nos criou.
Pois Ele é o nosso Deus
e nós o seu povo, as ovelhas do seu rebanho.

Quem dera ouvísseis hoje a sua voz:
«Não endureçais os vossos corações,
como em Meriba, como no dia de Massa no deserto,
onde vossos pais Me tentaram e provocaram,
apesar de terem visto as minhas obras.


Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
(Rom 5,1-2.5-8)
Irmãos: Tendo sido justificados pela fé, estamos em paz com Deus, por Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual temos acesso, na fé, a esta graça em que permanecemos e nos gloriamos, apoiados na esperança da glória de Deus. Ora, a esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores. Dificilmente alguém morre por um justo; por um homem bom, talvez alguém tivesse a coragem de morrer. Deus prova assim o seu amor para connosco: Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
(Jo 4,5-42)
Naquele tempo, chegou Jesus a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, junto da propriedade que Jacob tinha dado a seu filho José, onde estava a fonte de Jacob. Jesus, cansado da caminhada, sentou-Se à beira do poço. Era por volta do meio dia. Veio uma mulher da Samaria para tirar água. Disse-lhe Jesus: «Dá-Me de beber». Os discípulos tinham ido à cidade comprar alimentos. Respondeu-Lhe a samaritana: «Como é que Tu, sendo judeu, me pedes de beber, sendo eu samaritana?» De facto, os judeus não se dão com os samaritanos. Disse-lhe Jesus: «Se conhecesses o dom de Deus e quem é Aquele que te diz: ‘Dá-Me de beber’, tu é que Lhe pedirias e Ele te daria água viva». Respondeu-Lhe a mulher: «Senhor, Tu nem sequer tens um balde, e o poço é fundo: donde Te vem a água viva? Serás Tu maior do que o nosso pai Jacob, que nos deu este poço, do qual ele mesmo bebeu, com os seus filhos e os seus rebanhos?» Disse-Lhe Jesus: «Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede. Mas aquele que beber da água que Eu lhe der nunca mais terá sede: a água que Eu lhe der tornar-se-á nele uma nascente que jorra para a vida eterna». «Senhor, suplicou a mulher, dá-me dessa água, para que eu não sinta mais sede e não tenha de vir aqui buscá-la». Vejo que és profeta. Os nossos pais adoraram neste monte e vós dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar». Disse-lhe Jesus: «Mulher, podes acreditar em Mim: Vai chegar a hora em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. Mas vai chegar a hora – e já chegou – em que os verdadeiros adoradores hão-de adorar o Pai em espírito e verdade, pois são esses os adoradores que o Pai deseja. Deus é espírito e os seus adoradores devem adorá-l’O em espírito e verdade». Disse-Lhe a mulher: «Eu sei que há-de vir o Messias, isto é, Aquele que chamam Cristo. Quando vier há-de anunciar-nos todas as coisas». Respondeu-lhe Jesus: «Sou Eu, que estou a falar contigo». Muitos samaritanos daquela cidade acreditaram em Jesus, por causa da palavra da mulher. Quando os samaritanos vieram ao encontro de Jesus, pediram-Lhe que ficasse com eles. E ficou lá dois dias. Ao ouvi-l’O, muitos acreditaram e diziam à mulher: «Já não é por causa das tuas palavras que acreditamos. Nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é realmente o Salvador do mundo».


ESPÍRITO E VERDADE
No Evangelho deste domingo João propõe-nos uma catequese que coloca no centro da “cena” o poço de Jacob. É à volta desse poço que se vão movimentar as personagens principais: Jesus e a samaritana. A mulher (aqui apresentada sem nome próprio) representa a Samaria, que procura desesperadamente a água que é capaz de matar a sua sede de vida plena. O poço representa a Lei e tradição à volta da qual girava a experiência religiosa dos samaritanos. No entanto, o “poço” da Lei é incapaz de saciar a sede de vida dos homens e por isso, os samaritanos tinham procurado outras propostas religiosas. Quando Jesus faz referência aos “cinco maridos” que a mulher já teve, provavelmente, alude aos deuses estrangeiros a quem os samaritanos prestavam culto, tal como nos relata o Antigo Testamento, no Segundo livro dos Reis (2Re 17,29-41).

Estamos, pois, diante de um quadro que representa a busca da vida plena. Onde encontrar essa vida? Na Lei? Noutros deuses? A mulher/Samaria sabe que as outras “ofertas” de vida podem “matar a sede” apenas por curtos instantes. Quem procura a resposta para a sua realização plena nessas propostas, inevitavelmente voltará a ter sede.

É aqui que entra a novidade de Jesus. Ele senta-se «junto do poço» (como se pretendesse ocupar o seu lugar) e propõe à samaritana uma “água viva”, que matará definitivamente a sua sede de vida eterna. Jesus passa a ser o “novo poço”, onde todos os que têm sede de vida plena se poderão saciar.

Inicialmente a mulher fica confusa. Ela acha que Jesus está “apenas” a propor-lhe que abandone as tradições samaritanas e que ceda às pretensões religiosas dos judeus, para quem o verdadeiro encontro com Deus só pode acontecer no Templo de Jerusalém e na instituição religiosa judaica («nossos pais adoraram neste monte, mas vós dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar»). No entanto, Jesus nega que se trate de escolher entre o caminho dos judeus e o caminho dos samaritanos. Não é no Templo de Jerusalém ou no Templo do monte Garizim que Deus está! O que se trata é de acolher a novidade do próprio Jesus, aderir a Ele e aceitar a sua proposta de vida! Dessa forma (e só dessa forma) desaparecerá a barreira de inimizade que separa os povos. A única coisa que passa a contar é a vida do Espírito que encherá o coração de todos, que a todos ensinará o amor a Deus e aos outros e que fará de todos, sem distinção de raças ou de perspectivas religiosas, uma família de irmãos.


Tenham uma boa semana!
Em baixo encontram uma breve explicação sobre o porquê das divisões entre judeus e samaritanos.


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Judeus e samaritanos
A parábola do “bom samaritano” conotou, para sempre e de forma positiva, a nossa percepção do povo da Samaria. Para nós, cristãos modernos e ocidentais, é-nos praticamente impossível entender a animosidade entre esta população e os judeus. E dificilmente conseguimos colher o escândalo e a indignação que suscitava a atitude bem disposta e positiva de Jesus em relação aos samaritanos.

Historicamente, a divisão começa em 721 a.C. quando a Samaria é conquistada pelo Império Assírio. Na região instalam-se, então, colonos assírios que se misturam com a população local. Para os judeus é nesse momento que os samaritanos começam a “paganizar-se”, absorvendo vários elementos religiosos da cultura assíria (cf. 2 Re 17,29). A relação entre as duas comunidades deteriora-se ainda mais quando, após o regresso dos judeus do Exílio, estes recusam a ajuda dos samaritanos (cf. Esd 4,1-5) para reconstruir o Templo de Jerusalém (ano 437 a.C.). No ano 333 a.C., novo elemento de separação: os samaritanos constroem um templo no monte Garizim. No entanto, esse templo é destruído em 128 a.C. por João Hircano, sumo-sacerdote e rei dos judeus. Ao longo dos tempos somam-se outras provocações e insultos. O episódio mais famoso acontece por volta do ano 6 d.C., quando os samaritanos profanam o Templo de Jerusalém durante a festa da Páscoa, espalhando ossos humanos nos átrios.

Resumindo: os judeus desprezavam os samaritanos por serem uma mistura de sangue israelita com estrangeiros e consideravam-nos hereges em relação à pureza da fé jahwista. Os samaritanos pagavam aos judeus com um desprezo semelhante.



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sábado, 19 de março de 2011

2º DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA (ano A)



Leitura do Livro do Génesis
(Gen 12,1-4)
Naqueles dias, o Senhor disse a Abrão: «Deixa a tua terra, a tua família e a casa de teu pai e vai para a terra que Eu te indicar. Farei de ti uma grande nação e te abençoarei; engrandecerei o teu nome e serás uma bênção. Abençoarei a quem te abençoar, amaldiçoarei a quem te amaldiçoar; por ti serão abençoadas todas as nações da terra». Abrão partiu, como o Senhor lhe tinha ordenado.


SALMO RESPONSORIAL – SALMO 32 (33)
Refrão: Esperamos, Senhor, na vossa misericórdia.

A palavra do Senhor é recta,
na fidelidade nascem as suas obras.
Ele ama a justiça e a rectidão:
a terra está cheia da bondade do Senhor.

Os olhos do Senhor estão voltados para os que O temem,
para os que esperam na sua bondade,
para libertar da morte as suas almas
e os alimentar no tempo da fome.

A nossa alma espera o Senhor:
Ele é o nosso amparo e protector.
Venha sobre nós a vossa bondade,
porque em Vós esperamos, Senhor.


Leitura da Segunda Epístola do apóstolo São Paulo a Timóteo
(2 Tim 1,8b-10)
Caríssimo: Sofre comigo pelo Evangelho, apoiado na força de Deus. Ele salvou-nos e chamou-nos à santidade, não em virtude das nossas obras, mas do seu próprio desígnio e da sua graça. Esta graça, que nos foi dada em Cristo Jesus, desde toda a eternidade manifestou-se agora pelo aparecimento de Cristo Jesus, nosso Salvador, que destruiu a morte e fez brilhar a vida e a imortalidade, por meio do Evangelho.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 17,1-9)
Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João seu irmão e levou os, em particular, a um alto monte e transfigurou Se diante deles: o seu rosto ficou resplandecente como o sol e as suas vestes tornaram se brancas como a luz. E apareceram Moisés e Elias a falar com Ele. Pedro disse a Jesus: «Senhor, como é bom estarmos aqui! Se quiseres, farei aqui três tendas: uma para Ti, outra para Moisés a outra para Elias». Ainda ele falava, quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra e da nuvem uma voz dizia: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai O». Ao ouvirem estas palavras, os discípulos caíram de rosto por terra a assustaram se muito. Então Jesus aproximou se e, tocando os, disse: «Levantai vos e não temais». Erguendo os olhos, eles não viram mais ninguém, senão Jesus. Ao descerem do monte, Jesus deu lhes esta ordem: «Não conteis a ninguém esta visão, até o Filho do homem ressuscitar dos mortos».




Esta fim-de-semana tenho visitas muito importantes! E por isso, pouco tempo para escrever o comentário… Reproponho-vos, com algumas pequenas alterações, uma meditação que já publiquei neste blog há uns dois anos.

BELEZA
No Evangelho deste Domingo, Deus revela a sua inebriante beleza a Pedro, Tiago e João. Uma beleza que contém todos os ingredientes que um trio de hebreus da Palestina antiga poderia apreciar e compreender.

O primeiro elemento é o monte, local privilegiado da revelação de Deus, capaz de evocar diversas experiências decisivas da história da revelação, como por exemplo, a aliança do monte Sinai (Ex 34,2-28). As vestes brilhantes recordam o resplendor de Moisés depois do encontro com Yahweh (Ex 34,29) e a nuvem, por sua vez, lembra a presença divina que conduzia o povo de Israel através do deserto (cf. Ex 40,35; Nm 9,18.22; 10,34). Moisés e Elias representam a Lei e os Profetas. Além disso, são personagens que, de acordo com a catequese judaica, deviam aparecer no “dia do Senhor”, quando se manifestasse a salvação definitiva (cf. Dt 18,15-18; Mal 3,22-23). Enfim, a voz que os discípulos escutam sugere uma perfeita continuidade com as palavras que Mateus nos propõem no episódio do baptismo de Jesus: «Tu és o meu Filho muito amado; em ti pus toda a minha complacência» (Mt 3,16).

«Senhor, como é bom estarmos aqui!» A palavra “kalós”, no grego antigo pode traduzir-se de duas maneiras: “bom” ou então, “belo”. Eu prefiro a segunda opção porque descreve com maior exactidão a experiência, essencialmente visual, que o Evangelho nos propõe. Senhor, como é BELO estarmos aqui! No monte Tabor, Deus revelou a sua beleza a Pedro, Tiago e João.

É urgente recuperar o sentido da beleza da nossa fé. Somos cristãos, não porque temos medo de Deus, ou porque concordamos com uma moral que encontrámos escrita na Bíblia. Acreditamos porque experimentámos a beleza da fé, a beleza de Jesus Cristo. E é essa beleza que nos dá força, coragem, ânimo para escalar um outro monte: a colina do Calvário, o monte Gólgota, a experiência da cruz. Se não fizermos a experiência da beleza de Deus, se nunca sentirmos como é belo acreditar, então a nossa fé será apenas um peso oprimente e um esforço inútil.

O Evangelho é a “Bela” Notícia (“kalós”!). Jesus Cristo é o Pastor “Belo”. E é essa beleza que devemos anunciar. Como dizia o grande escritor russo Dostoiévski: «A beleza converterá o mundo».


(Tenham uma boa semana!)



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sábado, 12 de março de 2011

1º DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA (ano A)



Leitura do Livro do Génesis
(Gen 2,7-9;3,1-7)
O Senhor Deus formou o homem do pó da terra, insuflou em suas narinas um sopro de vida, e o homem tornou-se um ser vivo. Depois, o Senhor Deus plantou um jardim no Éden, a oriente, e nele colocou o homem que tinha formado. Fez nascer na terra toda a espécie de árvores, de frutos agradáveis à vista e bons para comer, entre as quais a árvore da vida, no meio do jardim, e a árvore da ciência do bem e do mal. Ora, a serpente era o mais astucioso de todos os animais do campo que o Senhor Deus tinha feito. Ela disse à mulher: «É verdade que Deus vos disse: “Não podeis comer o fruto de nenhuma árvore do Jardim”?» A mulher respondeu: «Podemos comer o fruto das árvores do jardim; mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus avisou-nos: “Não podeis comer dele nem tocar-lhe, senão morrereis”». A serpente replicou à mulher: «De maneira nenhuma! Não morrereis. Mas Deus sabe que, no dia em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como deuses, ficando a conhecer o bem e o mal». A mulher viu então que o fruto da árvore era bom para comer e agradável à vista, e precioso para esclarecer a inteligência. Colheu o fruto e comeu-o; depois deu-o ao marido, que estava junto dela, e ele também comeu. Abriram-se então os seus olhos e compreenderam que estavam despidos. Por isso, entrelaçaram folhas de figueira e cingiram os rins com elas.


SALMO RESPONSORIAL – SALMO 50 (51)
Refrão: Tende compaixão de nós, Senhor, porque somos pecadores.

Compadecei-Vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade,
pela vossa grande misericórdia, apagai os meus pecados.
Lavai-me de toda a iniquidade
e purificai-me de todas as faltas.

Porque eu reconheço os meus pecados
e tenho sempre diante de mim as minhas culpas
Pequei contra Vós, só contra Vós,
e fiz o mal diante dos vossos olhos.

Criai em mim, ó Deus, um coração puro
e fazei nascer dentro de mim um espírito firme.
Não queirais repelir-me da vossa presença
e não retireis de mim o vosso espírito de santidade.

Dai-me de novo a alegria da vossa salvação
e sustentai-me com espírito generoso.
Abri, Senhor, os meus lábios
e a minha boca cantará o vosso louvor.


Leitura do apóstolo São Paulo aos Romanos
(Rom 5,12-19)
Irmãos: Assim como por um só homem entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte, assim também a morte atingiu todos os homens, porque todos pecaram. De facto, até à Lei, existia o pecado no mundo. Mas o pecado não é levado em conta, se não houver lei. Entretanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, mesmo para aqueles que não tinham pecado por uma transgressão à semelhança de Adão, que é figura d’Aquele que havia de vir. Mas o dom gratuito não é como a falta. Se pelo pecado de um só pereceram muitos, com muito mais razão a graça de Deus, dom contido na graça de um só homem, Jesus Cristo, se concedeu com abundância a muitos homens. E esse dom não é como o pecado de um só: o julgamento que resultou desse único pecado levou à condenação, ao passo que o dom gratuito, que veio depois de muitas faltas, leva à justificação. Se a morte reinou pelo pecado de um só homem, com muito mais razão, aqueles que recebem com abundância a graça e o dom da justiça, reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo. Porque, assim como pelo pecado de um só, veio para todos os homens a condenação, assim também, pela obra de justiça de um só, virá para todos a justificação que dá a vida. De facto, como pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, pela obediência de um só, muitos se tornarão justos.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 4,1-11)
Naquele tempo, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo Demónio. Jejuou quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome. O tentador aproximou-se e disse-lhe: «Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães». Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’». Então o Demónio conduziu-O à cidade santa, levou-O ao pináculo do templo e disse-Lhe: «Se és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito: ‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’». Respondeu-Lhe Jesus: «Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’». De novo o Demónio O levou consigo a um monte muito alto, mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e a sua glória, e disse-Lhe: «Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares». Respondeu-Lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, porque está escrito: ‘Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto’». Então o Demónio deixou-O e logo os Anjos se aproximaram e serviram Jesus.


UM PASSO DE CADA VEZ, MAS SEM NUNCA RECUAR
O ano passado, quando encontrámos a versão de Lucas do episódio das tentações no deserto, propus-vos uma pequena reflexão sobre os três “demónios” que Jesus teve que combater. Lembram-se? A ambição de ter… de comandar… de ostentar… Convido-vos a (re)ler essa página do blog (basta clicar aqui) e, no lugar do “tradicional” comentário ao Evangelho, proponho-vos hoje dois conselhos que, espero, vos possam ajudar a viver bem este tempo da Quaresma que acabámos de iniciar.

O problema dos primeiros dias da Quaresma é a facilidade com que podemos reproduzir as dinâmicas típicas do primeiro dia de aulas, ou do dia 1 de Janeiro. Dizemos a nós mesmos com grande fervor: «Desta vez é que é! Vou mudar tudo! Daqui para a frente tudo vai mudar!». E passados alguns dias, quando o entusiasmo inicial arrefece, constatamos que os velhos vícios ainda estão lá todos, que o desleixo no estudo continua e que, no fundo, nada mudou, a não ser o calendário. O tempo da Quaresma é um convite à conversão, mas transformar a própria vida é um processo difícil que requer tempo, perseverança e força de vontade. Tentar «mudar tudo!» de uma só vez não é uma táctica muito realista e normalmente, o resultado é acabar por não mudar nada. Nesta Quaresma aconselho-vos a não dispersar a vossa energia em mil e um pequenos projectos, mas a concentrar os vossos esforços numa única, difícil e importante mudança. Pode parecer pouco empenhar-se durante 40 dias a mudar apenas um único aspecto da nossa vida, mas se em dez anos conseguíssemos eliminar dez grandes defeitos, não seria formidável?

O segundo conselho é intimamente ligado ao primeiro. Quando na quarta-feira recebemos as cinzas, o sacerdote disse-nos, «converte-te e crê no Evangelho». Ora a conversão não é algo que dure apenas 40 dias, mas deve ter continuidade, superar o tempo da Quaresma e acompanhar-nos para o resto das nossas vidas. Que sentido tem “aguentar” um vício durante este período, se já decidimos que no Domingo de Páscoa voltamos à velha vida? Vamos tentar eliminar o que nos impede de abraçar plenamente o Evangelho! Vamos anular as estruturas de pecado que não nos deixam ser a melhor versão de nós mesmos! Vamos escolher um projecto que não termine na Páscoa, mas que continue e que siga connosco para sempre.

Bom domingo, boa Quaresma e bom caminho.



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sábado, 5 de março de 2011

IX DOMINGO DO TEMPO COMUM (ano A)



Leitura do Livro do Deuteronómio
(Deut 11,18.26-28.32)
Moisés falou ao povo dizendo: «As palavras que eu vos digo, gravai-as no vosso coração e na vossa alma, atai-as à mão como um sinal e sejam como um frontal entre os vossos olhos. Ponho hoje diante de vós a bênção e a maldição: a bênção, se obedecerdes aos mandamentos do Senhor, vosso Deus, que hoje vos prescrevo; a maldição, se não obedecerdes aos mandamentos do Senhor, vosso Deus, afastando-vos do caminho que hoje vos indico, para seguirdes outros deuses que não conhecestes. Portanto, procurai pôr em prática todos os preceitos e normas que hoje vos proponho».


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 30 (31)
Refrão: Sede o meu refúgio, Senhor.

Em Vós, Senhor, me refugio, jamais serei confundido,
pela vossa justiça, salvai-me.
Inclinai para mim os vossos ouvidos,
apressai-Vos em me libertar.

Sede a rocha do meu refúgio
e a fortaleza da minha salvação:
porque Vós sois a minha força e o meu refúgio,
por amor do vosso nome, guiai-me e conduzi-me.

Fazei brilhar sobre mim a vossa face,
salvai-me pela vossa bondade.
Tende coragem e animai-vos,
vós todos que esperais no Senhor.


Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
(Rom 3,21-25a.28)
Irmãos: Independentemente da Lei de Moisés, manifestou-se agora a justiça de Deus, de que dão testemunho a Lei e os Profetas; porque a justiça de Deus vem pela fé em Jesus Cristo, para todos e sobre todos os crentes. De facto não há distinção alguma, porque todos pecaram e estão privados da glória de Deus; e todos são justificados de maneira gratuita pela sua graça, em virtude da redenção realizada em Cristo Jesus, que Deus apresentou como vítima de propiciação, mediante a fé, pelo seu sangue, para manifestar a sua justiça. Na verdade, estamos convencidos de que o homem é justificado pela fé, sem as obras da Lei.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 7,21-27)
Naquele tempo, Disse Jesus aos seus discípulos: «Nem todo aquele que Me diz ‘Senhor, Senhor’ entrará no reino dos Céus, mas só aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos Céus. Muitos Me dirão no dia do Juízo: ‘Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizámos e em teu nome que expulsámos demónios e em teu nome que fizemos tantos milagres?’ Então lhes direi bem alto: ‘Nunca vos conheci. Apartai-vos de Mim, vós que praticais a iniquidade’. Todo aquele que ouve as minhas palavras e as põe em prática é como o homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as torrentes e sopraram os ventos contra aquela casa; mas ela não caiu, porque estava fundada sobre a rocha. Mas todo aquele que ouve as minhas palavras e não as põe em prática é como o homem insensato que edificou a sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, vieram as torrentes e sopraram os ventos contra aquela casa; ela desmoronou-se e foi grande a sua ruína».





CHUVA, TORRENTES E VENTOS

…um pai e uma mãe escapam ilesos a um acidente de automóvel, no entanto, não sobrevive o filho de quatro anos que viajava no banco de trás…

…uma jovem estudante universitária descobre, na mesma altura em que termina o curso e quando faltam 6 meses para o seu matrimónio, que o seu corpo foi agredido por uma série de tumores e que lhe resta apenas pouco mais de um ano de vida…

…dois dias após ter dado à luz o seu segundo filho, uma mãe, quando ainda está na maternidade, é visitada pelo seu marido e este diz-lhe que a vai deixar, pois ama uma outra pessoa…

Estas e outras histórias (dolorosamente) verdadeiras marcaram o início de provas terríveis e de grandes crises de fé. Diante de eventos tão graves muitos se perguntam «onde está Deus?». No entanto, no Evangelho deste domingo descobrimos que as tragédias respeitam o princípio de igualdade e não discriminam nenhuma religião ou profissão de fé. Somos cristãos, mas isso não significa que teremos mais sorte (ou mais azar) do que os outros. Não somos nem mais, nem menos imunes às doenças. As nossas vidas são tão frágeis quanto as vidas de qualquer homem ou mulher.

Na parábola das duas casas esta realidade é bem evidente: as chuvas, as torrentes e os ventos não se abateram apenas sobre a segunda casa, mas as duas tiveram que medir forças com a fúria das tempestades. As duas casas tiveram que enfrentar as dificuldades, os problemas e os obstáculos que a vida lhes colocou diante. Apenas uma coisa distinguia as duas construções: o único elemento que separava o homem prudente do homem insensato era a escolha do fundamento onde edificar a própria vida. Um escolheu a areia («e foi grande a sua ruína») e o outro escolheu a rocha. E a sua casa não caiu.

Construir a casa sobre a rocha significa aderir às propostas de Jesus e construir a vida sobre o espírito das bem aventuranças, ou seja: escolher a liberdade face aos bens, a partilha, a mansidão, o empenho pela justiça e pela paz, a misericórdia, a sinceridade, o compromisso pelo “Reino”. Construir a casa sobre a areia significar rejeitar os valores do Evangelho, escolher a auto-suficiência e construir a própria vida sobre valores efémeros, ou seja: o dinheiro, o poder, a fama, a glória, a mentira, a injustiça, a violência.

Mais cedo ou mais tarde, todos nós somos obrigados a enfrentar algum tipo de prova ou a lidar com algum grave problema. Em muitos casos, é uma autêntica “prova dos nove” em que descobrimos a solidez, o conteúdo e a autenticidade da nossa fé. Somos cristãos que ainda acreditam no “Deus-mágico-resolve-tudo” ou abraçámos realmente o Evangelho e acreditamos que «nem a tribulação, nem a angústia, nem a perseguição, nem a fome, nem a nudez, nem o perigo ou a espada poderão jamais separar-nos do amor de Cristo»? (cf. Ro 8,35) Esta é a certeza que nos dá força! Ele é a nossa rocha. E graças ao Amor, a nossa casa não cairá.


(Tenham uma boa semana!)



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