quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

4º DOMINGO DO TEMPO COMUM (ano C)

Leitura do Livro de Jeremias
(Jer 1,4-5.17-19)
No tempo de Josias, rei de Judá, a palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: «Antes de te formar no ventre materno, Eu te escolhi; antes que saísses do seio de tua mãe, Eu te consagrei e te constituí profeta entre as nações. Cinge os teus rins e levanta-te, para ires dizer tudo o que Eu te ordenar. Não temas diante deles, senão serei Eu que te farei temer a sua presença. Hoje mesmo faço de ti uma cidade fortificada, uma coluna de ferro e uma muralha de bronze, diante de todo este país, dos reis de Judá e dos seus chefes, diante dos sacerdotes e do povo da terra. Eles combaterão contra ti, mas não poderão vencer-te, porque Eu estou contigo para te salvar».


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 70 (71)
Refrão: A minha boca proclamará a vossa salvação.

Em Vós, Senhor, me refugio,
jamais serei confundido.
Pela vossa justiça, defendei-me e salvai-me,
prestai ouvidos e libertai-me.

Sede para mim um refúgio seguro,
a fortaleza da minha salvação.
Vós sois a minha defesa e o meu refúgio:
meu Deus, salvai-me do pecador.

Sois Vós, Senhor, a minha esperança,
a minha confiança desde a juventude.
Desde o nascimento Vós me sustentais,
desde o seio materno sois o meu protector.

A minha boca proclamará a vossa justiça,
dia após dia a vossa infinita salvação.
Desde a juventude Vós me ensinais
e até hoje anunciei sempre os vossos prodígios.


Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Coríntios
(1 Cor 12,31-13,13)
Irmãos: Aspirai com ardor aos dons espirituais mais elevados. Vou mostrar-vos um caminho de perfeição que ultrapassa tudo: Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou como bronze que ressoa ou como címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom da profecia e conheça todos os mistérios e toda a ciência, ainda que eu possua a plenitude da fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, nada sou. Ainda que distribua todos os meus bens aos famintos e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada me aproveita. A caridade é paciente, a caridade é benigna; não é invejosa, não é altiva nem orgulhosa; não é inconveniente, não procura o próprio interesse; não se irrita, não guarda ressentimento; não se alegra com a injustiça, mas alegra-se com a verdade; tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O dom da profecia acabará, o dom das línguas há-de cessar, a ciência desaparecerá; mas a caridade não acaba nunca. De maneira imperfeita conhecemos, de maneira imperfeita profetizamos. Mas quando vier o que é perfeito, o que é imperfeito desaparecerá. Quando eu era criança, falava como criança, sentia como criança e pensava como criança. Mas quando me fiz homem, deixei o que era infantil. Agora vemos como num espelho e de maneira confusa, depois, veremos face a face. Agora, conheço de maneira imperfeita, depois, conhecerei como sou conhecido. Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade; mas a maior de todas é a caridade.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 4,21-30)
Naquele tempo, Jesus começou a falar na sinagoga de Nazaré, dizendo: «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir». Todos davam testemunho em seu favor e se admiravam das palavras cheias de graça que saíam da sua boca. E perguntavam: «Não é este o filho de José?» Jesus disse-lhes: «Por certo Me citareis o ditado: ‘Médico, cura-te a ti mesmo’. Faz também aqui na tua terra o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum». E acrescentou: «Em verdade vos digo: Nenhum profeta é bem recebido na sua terra. Em verdade vos digo que havia em Israel muitas viúvas no tempo do profeta Elias, quando o céu se fechou durante três anos e seis meses e houve uma grande fome em toda a terra; contudo, Elias não foi enviado a nenhuma delas, mas a uma viúva de Sarepta, na região da Sidónia. Havia em Israel muitos leprosos no tempo do profeta Eliseu; contudo, nenhum deles foi curado, mas apenas o sírio Naamã». Ao ouvirem estas palavras, todos ficaram furiosos na sinagoga. Levantaram-se, expulsaram Jesus da cidade e levaram-n’O até ao cimo da colina sobre a qual a cidade estava edificada, a fim de O precipitarem dali abaixo. Mas Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho.


BOA NOTÍCIA
Surpresa e novidade
O Evangelho do próximo domingo está na sequência do episódio que a liturgia da semana passada nos apresentou: Jesus foi a Nazaré, entrou na sinagoga, leu um texto de Isaías e “actualizou-o”, aplicando a si próprio o anúncio messiânico do profeta: «cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir». O Evangelho desta semana apresenta a reacção dos ouvintes às palavras de Jesus.

Depois de um breve momento de admiração e surpresa, o entusiasmo dos habitantes de Nazaré “arrefece” rapidamente. Inicialmente a mensagem arrebatou-os, mas um olhar atento à identidade do mensageiro foi suficiente para que tudo desvanecesse: «Não é este o filho de José?». Todos conheciam Jesus! Viram-no crescer, conhecem a sua mãe e talvez até tenham nas próprias casas algumas mobílias feitas por Ele. É tudo demasiado banal. Não é possível que Ele seja o Messias...

Os nazarenos olhavam para Jesus com presunção, seguros de já conhecer tudo sobre Ele e portanto, eram incapazes de abrir o próprio coração à novidade de Deus. Pelo contrário, em Cafarnaum, onde Jesus chegou como um “estrangeiro”, os habitantes conseguiram reconhecer a Sua identidade divina.

Tal como para admirar um quadro, não podemos encostar demasiado o nariz à tela, por vezes, se queremos colher a verdadeira imagem de alguém, somos obrigados a dar dois passos para trás. A distância nem sempre é sinónimo de indiferença ou repúdio: pode exprimir também a consciência de não conhecer tudo sobre o outro, tornando-se, nesse caso, condição fundamental para um coração que deseja manter-se sempre aberto à novidade do Evangelho.

P. Carlos Caetano
in LusoJornal 2016.01.27



.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

3º DOMINGO DO TEMPO COMUM (ano C)

Leitura do Livro de Neemias
(Ne 8,2-4a.5-6.8-10)
Naqueles dias, o sacerdote Esdras trouxe o Livro da Lei perante a assembleia de homens e mulheres e todos os que eram capazes de compreender. Era o primeiro dia do sétimo mês. Desde a aurora até ao meio dia, fez a leitura do Livro, no largo situado diante da Porta das Águas, diante dos homens e mulheres e todos os que eram capazes de compreender. Todo o povo ouvia atentamente a leitura do Livro da Lei. O escriba Esdras estava de pé num estrado de madeira feito de propósito. Estando assim em plano superior a todo o povo, Esdras abriu o Livro à vista de todos; e quando o abriu, todos se levantaram. Então Esdras bendisse o Senhor, o grande Deus, e todos responderam, erguendo as mãos: «Amen! Amen!». E prostrando-se de rosto por terra, adoraram o Senhor. Os levitas liam, clara e distintamente, o Livro da Lei de Deus e explicavam o seu sentido, de maneira que se pudesse compreender a leitura. Então o governador Neemias, o sacerdote e escriba Esdras, bem como os levitas, que ensinavam o povo, disseram a todo o povo: «Hoje é um dia consagrado ao Senhor vosso Deus. Não vos entristeçais nem choreis». – Porque todo o povo chorava, ao escutar as palavras da Lei –. Depois Neemias acrescentou: «Ide para vossas casas, comei uma boa refeição, tomai bebidas doces e reparti com aqueles que não têm nada preparado. Hoje é um dia consagrado a nosso Senhor; portanto, não vos entristeçais, porque a alegria do Senhor é a vossa fortaleza».


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 18 B (19)
Refrão: As vossas palavras, Senhor, são espírito e vida.

A lei do Senhor é perfeita,
ela reconforta a alma;
as ordens do Senhor são firmes,
dão sabedoria aos simples.

Os preceitos do Senhor são rectos
e alegram o coração;
os mandamentos do Senhor são claros
e iluminam os olhos.

O temor do Senhor é puro
e permanece eternamente;
os juízos do Senhor são verdadeiros,
todos eles são rectos.

Aceitai as palavras da minha boca
e os pensamentos do meu coração
estejam na vossa presença:
Vós, Senhor, sois o meu amparo e redentor.


Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Coríntios
(1 Cor 12,12-30)
Irmãos: Assim como o corpo é um só e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, apesar de numerosos, constituem um só corpo, assim sucede também em Cristo. Na verdade, todos nós – judeus e gregos, escravos e homens livres – fomos baptizados num só Espírito para constituirmos um só corpo e a todos nos foi dado a beber um só Espírito. De facto, o corpo não é constituído por um só membro, mas por muitos. Se o pé dissesse: «Uma vez que não sou mão, não pertenço ao corpo», nem por isso deixaria de fazer parte do corpo. E se a orelha dissesse: «Uma vez que não sou olho, não pertenço ao corpo», nem por isso deixaria de fazer parte do corpo. Se o corpo inteiro fosse olho, onde estaria o ouvido? Se todo ele fosse ouvido, onde estaria o olfacto? Mas Deus dispôs no corpo cada um dos membros, segundo a sua vontade. Se todo ele fosse um só membro, que seria do corpo? Há, portanto, muitos membros, mas um só corpo. O olho não pode dizer à mão: «Não preciso de ti»; nem a cabeça dizer aos pés: «Não preciso de vós». Pelo contrário, os membros do corpo que parecem fracos são os mais necessários; os que nos parecem menos honrosos cuidamo-los com maior consideração; e os nossos membros menos decorosos são tratados com maior decência: os que são mais decorosos não precisam de tais cuidados. Deus organizou o corpo, dispensando maior consideração ao que dela precisa, para que não haja divisão no corpo e os membros tenham a mesma solicitude uns com os outros. Deste modo, se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele; se um membro é honrado, todos os membros se alegram com ele. Vós sois corpo de Cristo e seus membros, cada um por sua parte. Assim, Deus estabeleceu na Igreja em primeiro lugar apóstolos, em segundo lugar profetas, em terceiro doutores. Vêm a seguir os dons dos milagres, das curas, da assistência, de governar, de falar diversas línguas. Serão todos apóstolos? Todos profetas? Todos doutores? Todos farão milagres? Todos terão o poder de curar? Todos falarão línguas? Todos terão o dom de as interpretar?


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 1,1-4;4,14-21)
Já que muitos empreenderam narrar os factos que se realizaram entre nós, como no-los transmitiram os que, desde o início, foram testemunhas oculares e ministros da palavra, também eu resolvi, depois de ter investigado cuidadosamente tudo desde as origens, escrevê-las para ti, ilustre Teófilo, para que tenhas conhecimento seguro do que te foi ensinado. Naquele tempo, Jesus voltou da Galileia, com a força do Espírito, e a sua fama propagou-se por toda a região. Ensinava nas sinagogas e era elogiado por todos. Foi então a Nazaré, onde Se tinha criado. Segundo o seu costume, entrou na sinagoga a um sábado e levantou-Se para fazer a leitura. Entregaram-Lhe o livro do profeta Isaías e, ao abrir o livro, encontrou a passagem em que estava escrito: «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres. Ele me enviou a proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos e a proclamar o ano da graça do Senhor». Depois enrolou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-Se. Estavam fixos em Jesus os olhos de toda a sinagoga. Começou então a dizer-lhes: «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir».


BOA NOTÍCIA
Ontem, hoje e sempre
O Evangelho do próximo domingo, dia 24, divide-se em duas partes bem diferentes. A primeira é um prólogo literário, onde o evangelista Lucas apresenta a sua obra e as razões que o levaram a escrever a vida de Jesus. Segundo ele, trata-se de uma investigação cuidada dos «factos que se realizaram entre nós», a fim de que os crentes verifiquem «a solidez da doutrina em que foram instruídos». Lucas escreve na década de 80, quando já desapareceram as testemunhas oculares de Cristo e a Igreja começa a defrontar-se com uma série de heresias e desvios doutrinais. Para salvar a identidade cristã era indispensável recordar aos crentes as raízes e a autenticidade da própria fé.

Na segunda parte, Lucas apresenta-nos o início da pregação de Jesus, quando Ele, na sinagoga de Nazaré, lê e comenta este famoso trecho do livro de Isaías «o Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres. Ele me enviou a proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos e a proclamar o ano da graça do Senhor».

As palavras com que Jesus inicia o seu comentário são a mais bonita e completa de todas as homilias: «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir». É uma afirmação que todos nós deveríamos repetir quando proclamamos ou escutamos uma página do Evangelho! Ela recorda-nos que o Evangelho não é um livro que conta coisas velhas, mas é Palavra viva que se renova e actualiza todos os dias! É neste momento - é «hoje mesmo» - que Jesus anuncia a boa nova, proclama a redenção, restitui a liberdade e proclama um tempo de graça!

P. Carlos Caetano
in LusoJornal 2016.01.20




.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

2º DOMINGO DO TEMPO COMUM (ano C)

Leitura do Livro de Isaías
(Is 62,1-5)
Por amor de Sião não me calarei, por amor de Jerusalém não terei repouso, enquanto a sua justiça não despontar como a aurora e a sua salvação não resplandecer como facho ardente. Os povos hão-de ver a tua justiça e todos os reis a tua glória. Receberás um nome novo, que a boca do Senhor designará. Serás coroa esplendorosa nas mãos do Senhor, diadema real nas mãos do teu Deus. Não mais te chamarão «Abandonada», nem à tua terra «Deserta», mas hão-de chamar-te «Predilecta» e à tua terra «Desposada», porque serás a predilecta do Senhor e a tua terra terá um esposo. Tal como o jovem desposa uma virgem, o teu Construtor te desposará; e como a esposa é a alegria do marido, tu serás a alegria do teu Deus.


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 95 (96)
Refrão: Anunciai em todos os povos as maravilhas do Senhor.

Cantai ao Senhor um cântico novo,
cantai ao Senhor, terra inteira,
cantai ao Senhor, bendizei o seu nome.

Anunciai dia a dia a sua salvação,
publicai entre as nações a sua glória,
em todos os povos as suas maravilhas.

Dai, ó Senhor, ó família dos povos,
dai ao Senhor glória e poder,
dai ao Senhor a glória do seu nome.

Adorai o senhor com ornamentos sagrados,
trema diante d’Ele a terra inteira;
dizei entre as nações: «O Senhor é Rei»,
governa os povos com equidade.


Leitura da primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Coríntios
(1 Cor 12,4-11)
Irmãos: Há diversidade de dons espirituais, mas o Espírito é o mesmo. Há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. Há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos. Em cada um se manifestam os dons do Espírito para o bem comum. A um o Espírito dá a mensagem da sabedoria, a outro a mensagem da ciência, segundo o mesmo Espírito. É um só e o mesmo Espírito que dá a um o dom da fé, a outro o poder de curar; a um dá o poder de fazer milagres, a outro o de falar em nome de Deus; a um dá o discernimento dos espíritos, a outro o de falar diversas línguas, a outro o dom de as interpretar. Mas é um só e o mesmo Espírito que faz tudo isto, distribuindo os dons a cada um conforme Lhe agrada.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
(Jo 2,1-11)
Naquele tempo, realizou-se um casamento em Caná da Galileia e estava lá a Mãe de Jesus. Jesus e os seus discípulos foram também convidados para o casamento. A certa altura faltou o vinho. Então a Mãe de Jesus disse-Lhe: «Não têm vinho». Jesus respondeu-Lhe: «Mulher, que temos nós com isso? Ainda não chegou a minha hora». Sua Mãe disse aos serventes: «Fazei tudo o que Ele vos disser». Havia ali seis talhas de pedra, destinadas à purificação dos judeus, levando cada uma de duas a três medidas. Disse-lhes Jesus: «Enchei essas talhas de água». Eles encheram-nas até acima. Depois disse-lhes: «Tirai agora e levai ao chefe de mesa». E eles levaram. Quando o chefe de mesa provou a água transformada em vinho, – ele não sabia de onde viera, pois só os serventes, que tinham tirado a água, sabiam – chamou o noivo e disse-lhe: «Toda a gente serve primeiro o vinho bom e, depois de os convidados terem bebido bem, serve o inferior. Mas tu guardaste o vinho bom até agora». Foi assim que, em Caná da Galileia, Jesus deu início aos seus milagres. Manifestou a sua glória e os discípulos acreditaram n’Ele.


BOA NOTÍCIA
Chegou a hora!
O Evangelho do próximo domingo, dia 17, descreve o primeiro milagre realizado por Jesus: a transformação da água em vinho nas bodas de Caná. No entanto, uma leitura integral do quarto Evangelho revela que o elemento mais importante do episódio não é o prodígio em si. Curiosamente, o que realmente interessa ao seu autor (São João Evangelista) é o pequeno diálogo entre Jesus e Maria, que precede o milagre e serve para introduzir aquele que será um dos temas centrais da sua obra: o tema da hora.

«Então a Mãe de Jesus disse-Lhe: “Não têm vinho”. Jesus respondeu-Lhe: “Mulher, que temos nós com isso? Ainda não chegou a minha hora”».

Mas se esta não é a “hora”, então quando? Quando é que, no Evangelho de João, chega finalmente a hora de Jesus? Se lemos tudo de seguida, como quem lê um romance, conseguimos saborear a tensão que aumenta à medida que esse momento se aproxima. No episódio deste domingo (que se encontra no segundo capítulo e marca o início da missão de Jesus) menciona-se pela primeira vez a “hora”: esse tempo em que a glória de Deus se manifestará completamente! Depois de um crescendo emotivo digno dos melhores escritores da literatura mundial, no décimo sétimo capítulo (o capítulo que precede o relato da Paixão, morte e ressurreição de Jesus), o apóstolo João sacia a sede dos seus leitores e coloca, finalmente, estas palavras na boca do Messias:

«Pai, chegou a hora! Manifesta a glória do teu Filho, de modo que o Filho manifeste a tua glória, segundo o poder que lhe deste sobre toda a Humanidade, a fim de que dê a vida eterna a todos os que lhe entregaste. Esta é a vida eterna: que te conheçam a ti, único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem Tu enviaste».

P. Carlos Caetano
in LusoJornal 2016.01.14



.



quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

FESTA DO BAPTISMO DO SENHOR (ano C)

Leitura do Livro de Isaías
(Is 42,1-4.6-7)
Diz o Senhor: «Eis o meu servo, a quem Eu protejo, o meu eleito, enlevo da minha alma. Sobre ele fiz repousar o meu espírito, para que leve a justiça às nações. Não gritará, nem levantará a voz, nem se fará ouvir nas praças; não quebrará a cana fendida, nem apagará a torcida que ainda fumega: proclamará fielmente a justiça. Não desfalecerá nem desistirá, enquanto não estabelecer a justiça na terra, a doutrina que as ilhas longínquas esperam. Fui Eu, o Senhor, que te chamei segundo a justiça; tomei-te pela mão, formei-te e fiz de ti a aliança do povo e a luz das nações, para abrires os olhos aos cegos, tirares do cárcere os prisioneiros e da prisão os que habitam nas trevas».


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 28 (29)
Refrão: O Senhor abençoará o seu povo na paz.

Tributai ao Senhor, filhos de Deus,
tributai ao Senhor glória e poder.
Tributai ao Senhor a glória do seu nome,
adorai o Senhor com ornamentos sagrados.

A vos do Senhor ressoa sobre as nuvens,
o Senhor está sobre a vastidão das águas.
A voz do Senhor é poderosa,
a voz do Senhor é majestosa.

A majestade de Deus faz ecoar o seu trovão
e no seu templo todos clamam: Glória!
Sobre as águas do dilúvio senta-Se o Senhor,
o Senhor senta-Se como rei eterno.


Leitura dos Actos dos Apóstolos
(Actos 10,34-38)
Naqueles dias, Pedro tomou a palavra e disse: «Na verdade, eu reconheço que Deus não faz acepção de pessoas, mas, em qualquer nação, aquele que O teme e pratica a justiça é-Lhe agradável. Ele enviou a sua palavra aos filhos de Israel, anunciando a paz por Jesus Cristo, que é o Senhor de todos. Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do baptismo que João pregou: Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo demónio, porque Deus estava com Ele».


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 3,15-16.21-22)
Naquele tempo, o povo estava na expectativa e todos pensavam em seus corações se João não seria o Messias. João tomou a palavra e disse-lhes: «Eu baptizo-vos com água, mas vai chegar quem é mais forte do que eu, do qual não sou digno de desatar as correias das sandálias. Ele baptizar-vos-á com o Espírito Santo e com o fogo». Quando todo o povo recebeu o baptismo, Jesus também foi baptizado; e, enquanto orava, o céu abriu-se e o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma corporal, como uma pomba. E do céu fez-se ouvir uma voz: «Tu és o meu Filho muito amado: em Ti pus toda a minha complacência».


BOA NOTÍCIA
«O céu abriu-se e o Espírito Santo desceu»
No próximo domingo, dia 10, celebraremos a Festa do Baptismo do Senhor. No entanto, no Evangelho fala-se de dois baptismos diferentes: o baptismo que Jesus recebe e o baptismo que Jesus promete; fala-se do baptismo de Jesus e do nosso baptismo.

O primeiro ainda hoje é fonte de desconcerto para muitos teólogos: surpreendem-se que Jesus se tenha deixado baptizar. Ele, que não conheceu o pecado, que necessidade tem de uma celebração, cujo significado estava ligado à penitência, ao perdão e à mudança de vida? Nas margens do rio Jordão, Jesus coloca-se em fila, junto com todos os outros homens e espera o seu turno para ser baptizado. Coloca-se ao lado dos homens, sem truques nem privilégios, para percorrer com eles o caminho da vida plena.

Jesus recebe este baptismo “velho”, celebrado apenas com água, mas a descida do Espírito Santo anuncia o baptismo novo: no rio Jordão não é a água que santifica Jesus, mas é Ele quem santifica a água; todas as águas! Cada baptismo cristão prolonga desde então o mistério daquele dia: o Espírito Santo desce sobre uma criatura humana e aquela criatura torna-se «filho muito amado» em quem o Pai coloca a sua complacência.

Mas este dom não é uma prenda que se possa receber passivamente: é um convite! São João escreveu no prólogo do seu Evangelho: «a quantos o receberam, aos que nele crêem, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus». O “poder”, ou seja, a “possibilidade” de se tornarem filhos de Deus... É urgente superar uma velha visão estática e mágica do baptismo e passar a uma visão dinâmica que reflicta o nosso caminho de fé. Temos de nos tornar (de facto!) aquilo que somos já: filhos e filhas de Deus.

P. Carlos Caetano
in LusoJornal 06.01.2016



.

ASSINAR ESTE BLOGUE - Follow by Email

Arquivo do blogue