sábado, 26 de dezembro de 2009

FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA (ano C)

Leitura do Livro de Ben-Sirá
(Sir 3, 3-7.14-17a [gr. 2-6.12-14])
Deus quis honrar os pais nos filhos e firmou sobre eles a autoridade da mãe. Quem honra seu pai obtém o perdão dos pecados e acumula um tesouro quem honra sua mãe. Quem honra o pai encontrará alegria nos seus filhos e será atendido na sua oração. Quem honra seu pai terá longa vida, e quem lhe obedece será o conforto de sua mãe. Filho, ampara a velhice do teu pai e não o desgostes durante a sua vida. Se a sua mente enfraquece, sê indulgente para com ele e não o desprezes, tu que estás no vigor da vida, porque a tua caridade para com teu pai nunca será esquecida e converter-se-á em desconto dos teus pecados


SALMO RESPONSORIAL Salmo 127 (128), 1-2.3.4-5
Refrão: Felizes os que esperam no Senhor e seguem os seus caminhos.

Feliz de ti, que temes o Senhor
e andas nos seus caminhos.
Comerás do trabalho das tuas mãos,
serás feliz e tudo te correrá bem.

Tua esposa será como videira fecunda,
no íntimo do teu lar;
teus filhos serão como ramos de oliveira,
ao redor da tua mesa.

Assim será abençoado o homem que teme o Senhor.
De Sião te abençoe o Senhor:
vejas a prosperidade de Jerusalém,
todos os dias da tua vida.


Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Colossenses
(Col 3, 12-21)
Irmãos: Como eleitos de Deus, santos e predilectos, revesti-vos de sentimentos de misericórdia, de bondade, humildade, mansidão e paciência. Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, se algum tiver razão de queixa contra outro. Tal como o Senhor vos perdoou, assim deveis fazer vós também. Acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição. Reine em vossos corações a paz de Cristo, à qual fostes chamados para formar um só corpo. E vivei em acção de graças. Habite em vós com abundância a palavra de Cristo, para vos instruirdes e aconselhardes uns aos outros com toda a sabedoria; e com salmos, hinos e cânticos inspirados, cantai de todo o coração a Deus a vossa gratidão. E tudo o que fizerdes, por palavras ou por obras, seja tudo em nome do Senhor Jesus, dando graças, por Ele, a Deus Pai. Esposas, sede submissas aos vossos maridos, como convém no Senhor. Maridos, amai as vossas esposas e não as trateis com aspereza. Filhos, obedecei em tudo a vossos pais, porque isto agrada ao Senhor. Pais, não exaspereis os vossos filhos, para que não caiam em desânimo.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 2,41-52)
Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, pela festa da Páscoa. Quando Ele fez doze anos, subiram até lá, como era costume nessa festa. Quando eles regressavam, passados os dias festivos, o Menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que seus pais o soubessem. Julgando que Ele vinha na caravana, fizeram um dia de viagem e começaram a procurá-l’O entre os parentes e conhecidos. Não O encontrando, voltaram a Jerusalém, à sua procura. Passados três dias, encontraram-n’O no templo, sentado no meio dos doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas. Todos aqueles que O ouviam estavam surpreendidos com a sua inteligência e as suas respostas. Quando viram Jesus, seus pais ficaram admirados; e sua Mãe disse-Lhe: «Filho, porque procedeste assim connosco? Teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura». Jesus respondeu-lhes: «Porque Me procuráveis? Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai?». Mas eles não entenderam as palavras que Jesus lhes disse. Jesus desceu então com eles para Nazaré e era-lhes submisso. Sua Mãe guardava todos estes acontecimentos em seu coração. E Jesus ia crescendo em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens.


26 de DEZEMBRO
Um dos riscos que nós cristãos corremos é que, depois de 4 longas semanas de Advento, em que nos preparámos para o Natal (6 semanas, segundo o rito ambrosiano), tudo termine demasiado depressa e na manhã do dia 26, o único vestígio do “espírito natalício” sejam os resto de comida no frigorífico que sobraram do almoço e jantar de Natal.

O tempo do Natal não terminou: acabou de começar! Liturgicamente falando, termina apenas no dia 10 de Janeiro com a Festa do Baptismo do Senhor. Mas o mistério do Natal é algo que nos deve acompanhar durante todo o ano.

«Quando de manhã acordas com o desejo de amar o Senhor e os teus irmãos,
nesse dia é Natal!

Quando encontras alguém que sofre e és generoso, com palavras, conforto e ajuda,
naquele momento é Natal!

Quando visitas alguém doente e te colocas ao seu serviço,
esse gesto é Natal!

Quando renuncias a alguma coisa, para doá-la aos mais necessitados, e ensinas outros a fazer o mesmo,
essa lição é Natal!

Quando sentes remorso pelo dinheiro mal gasto e quando financias gestos concretos de solidariedade fraterna,
esse investimento é Natal!

Quando percebes que a aridez da vida, (culpa do sofrimento, dos rancores e da violência), pode diminuir graças ao teu amor,
exulta, porque no teu coração entrou o Natal!»*



(Um Santo Natal a todos!)
*excerto de uma meditação, escrita originalmente em italiano pelo padre Beniamino Rossi.



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sábado, 19 de dezembro de 2009

4º DOMINGO DO TEMPO DO ADVENTO (ano C)



Leitura da Profecia de Miqueias
(Miq 5,1-4a)
Eis o que diz o Senhor: «De ti, Belém-Efratá, pequena entre as cidades de Judá, de ti sairá aquele que há-de reinar sobre Israel. As suas origens remontam aos tempos de outrora, aos dias mais antigos. Por isso Deus os abandonará até à altura em que der à luz aquela que há-de ser mãe. Então voltará para os filhos de Israel o resto dos seus irmãos. Ele se levantará para apascentar o seu rebanho pelo poder do Senhor, pelo nome glorioso do Senhor, seu Deus. Viver-se-á em segurança, porque ele será exaltado até aos confins da terra. Ele será a paz».


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 79 (80)
Refrão: Senhor nosso Deus, fazei-nos voltar, mostrai-nos o vosso rosto e seremos salvos.

Pastor de Israel, escutai,
Vós estais sobre os Querubins, aparecei.
Despertai o vosso poder
e vinde em nosso auxílio.

Deus dos Exércitos, vinde de novo,
olhai dos céus e vede, visitai esta vinha;
protegei a cepa que a vossa mão direita plantou,
o rebento que fortalecestes para Vós.

Estendei a mão sobre o homem que escolhestes,
sobre o filho do homem que para Vós criastes.
Nunca mais nos apartaremos de Vós,
fazei-nos viver e invocaremos o vosso nome.


Leitura da Epístola aos Hebreus
(Heb 10,5-10)
Irmãos: Ao entrar no mundo, Cristo disse: «Não quiseste sacrifício nem oblações, mas formaste-Me um corpo. Não Te agradaram holocaustos nem imolações pelo pecado. Então Eu disse: ‘Eis-Me aqui; no livro sagrado está escrito a meu respeito: Eu venho, ó Deus, para fazer a tua vontade’». Primeiro disse: «Não quiseste sacrifícios nem oblações, não Te agradaram holocaustos nem imolações pelo pecado». E no entanto, eles são oferecidos, segundo a Lei. Depois acrescenta: «Eis-Me aqui: Eu venho para fazer a tua vontade». Assim aboliu o primeiro culto para estabelecer o segundo. É em virtude dessa vontade que nós fomos santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita de uma vez para sempre.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 1,39-47)
Naqueles dias, Maria pôs-se a caminho e dirigiu-se apressadamente para a montanha, em direcção a uma cidade de Judá. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino exultou-lhe no seio. Isabel ficou cheia do Espírito Santo e exclamou em alta voz: «Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Donde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor? Na verdade, logo que chegou aos meus ouvidos a voz da tua saudação, o menino exultou de alegria no meu seio. Bem-aventurada aquela que acreditou no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor».


VISITAÇÃO
Em Milão a tradição ambrosiana prevê que durante o tempo do Advento os sacerdotes visitem todas as casas da própria paróquia e celebrem, com as pessoas que encontram, um breve momento de oração e a benção natalícia. É o meu terceiro Natal na Paróquia do Carmo e posso dizer, com alguma segurança que, pelo menos uma vez, entrei em todos os prédios, em todas as lojas, subi e desci todas as escadas e toquei à campainha de todas as portas da minha paróquia.

Encontrei muitas pessoas. Algumas eram rostos familiares; pessoas que frequentam regularmente a igreja e que conheço por nome. Tantos eram perfeitos desconhecidos. Homens e mulheres que não renunciaram à própria fé, mas que perderam há muito tempo qualquer contacto com a comunidade paroquial. Nem sempre fui bem recebido. Nem sempre me abriram a porta, mas a maior parte dos milaneses ainda acolhe com alegria o sacerdote que os visita e traz a benção de Natal.

É essa alegria que encontramos ao centro do Evangelho de hoje: a alegria de Isabel e do irrequieto João Baptista que acolhem na própria casa a jovem Maria e com ela, Jesus Cristo, salvador do mundo. É uma alegria inesperada, pois a chegada de uma prima, ainda solteira e já grávida, deveria criar desassossego no coração de Isabel, mas ela não se deixa enganar pelas aparências e ajudada pela fé e pela graça de Deus, consegue reconhecer naquela jovem o projecto divino de salvação e a presença do Messias esperado.

O Natal é tempo propício para tantos encontros. Abrandado o ritmo frenético do dia-a-dia, amigos e parentes aproveitarão deste momento de repouso para visitar-se, trocar prendas e desejar votos de boas festas. Oxalá sejam todos encontros como aquele entre Isabel e Maria, onde, ajudados pela fé, consigamos ir para lá das aparências e da superficialidade, e descubramos em cada pessoa que bate à nossa porta ou entra na nossa casa, a oportunidade de saudar Jesus e de acolhê-Lo na nossa vida.


(Uma boa semana e um Santo Natal.)



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sábado, 12 de dezembro de 2009

3º DOMINGO DO TEMPO DO ADVENTO (ano C)



Leitura da Profecia de Sofonias
(Sof 3,14-18a)
Clama jubilosamente, filha de Sião; solta brados de alegria, Israel. Exulta, rejubila de todo o coração, filha de Jerusalém. O Senhor revogou a sentença que te condenava, afastou os teus inimigos. O Senhor, Rei de Israel, está no meio de ti e já não temerás nenhum mal. Naquele dia, dir-se-á a Jerusalém: «Não temas, Sião, não desfaleçam as tuas mãos. O Senhor teu Deus está no meio de ti, como poderoso salvador. Por causa de ti, Ele enche-Se de júbilo, renova-te com o seu amor, exulta de alegria por tua causa, como nos dias de festa».


SALMO RESPONSORIAL – Is 12,2-3.4bcd.5-6
Refrão: Exultai de alegria, porque é grande no meio de vós o Santo de Israel.

Deus é o meu Salvador,
tenho confiança e nada temo.
O Senhor é a minha força e o meu louvor.
Ele é a minha salvação.

Tirareis água com alegria das fontes da salvação.
Agradecei ao Senhor, invocai o seu nome;
anunciai aos povos a grandeza das suas obras,
proclamai a todos que o seu nome é santo.

Cantai ao Senhor, porque Ele fez maravilhas,
anunciai-as em toda a terra.
Entoai cânticos de alegria, habitantes de Sião,
porque é grande no meio de vós o Santo de Israel.


Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses
(Filip 4,4-7)
Irmãos: Alegrai-vos sempre no Senhor. Novamente vos digo: alegrai-vos. Seja de todos conhecida a vossa bondade. O Senhor está próximo. Não vos inquieteis com coisa alguma; mas em todas as circunstâncias, apresentai os vossos pedidos diante de Deus, com orações, súplicas e acções de graças. E a paz de Deus, que está acima de toda a inteligência, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 3,10-18)
Naquele tempo, as multidões perguntavam a João Baptista: «Que devemos fazer?» Ele respondia-lhes: «Quem tiver duas túnicas reparta com quem não tem nenhuma; e quem tiver mantimentos faça o mesmo». Vieram também alguns publicanos para serem baptizados e disseram: «Mestre, que devemos fazer?» João respondeu-lhes: «Não pratiqueis violência com ninguém nem denuncieis injustamente; e contentai-vos com o vosso soldo». Como o povo estava na expectativa e todos pensavam em seus corações se João não seria o Messias, ele tomou a palavra e disse a todos: «Eu baptizo-vos com água, mas está a chegar quem é mais forte do que eu, e eu não sou digno de desatar as correias das suas sandálias. Ele baptizar-vos-á com o Espírito Santo e com o fogo. Tem na mão a pá para limpar a sua eira e recolherá o trigo no seu celeiro; a palha, porém, queimá-la-á num fogo que não se apaga». Assim, com estas e muitas outras exortações, João anunciava ao povo a Boa Nova».


QUE DEVEMOS FAZER?
Para ser felizes... para não desperdiçar a própria vida... que devemos fazer? É uma pergunta que, mais cedo ou mais tarde, todos nos colocamos. A resposta mais comum, mais “normal”, é aquela já escutada no tempo de Jesus e que ainda hoje não passou de moda: «Enriquece; diverte-te; acumula; mima-te com tudo de bom que a vida oferece. Coloca-te ao centro; defende a tua posição; vive para ti; persegue o teu prazer».

Muitas pessoas acreditam que esta seja a fórmula mágica para ser felizes; a receita que devemos seguir para uma vida de sucesso; uma vida que valha a pena ser vivida. Mas será verdade? São realmente estas as coisas que nos tornam felizes; que dão sentido à nossa vida? E se nos enganássemos? Se tivéssemos investido o nosso tempo, a nossa energia (a nossa vida) no projecto errado? E se todas estas coisas (dinheiro, fama, sexo, diversão...) fossem apenas uma distracção; um diversivo que procura esconder o vazio da nossa vida, mas que não consegue realmente saciar a nossa sede de felicidade?

É esta hipótese que leva as pessoas a interrogar João Baptista e a sua resposta é de uma simplicidade desarmante: «Partilha o que tens. Não roubes. Não sejas violento». Só isto? São estes os "grandes conselhos" do profeta do deserto? É tudo tão simples que quase nos desilude... Mas João tem razão: é nas coisas pequenas e simples que se manifesta a força de Deus. É no quotidiano, no dia-a-dia que a salvação se revela e que a felicidade se constrói. A que servem os raros grandes gestos heróicos se, habitualmente, vivemos vidas desinteressadas e egoístas? A que serve um mês de retiro em silêncio nalgum convento se normalmente nem cinco minutos encontramos para a oração?

Deus Pai não nos pede grandes gestos teatrais e espalhafatosos. Pede-nos perseverança; continuidade. Convida-nos a acolher o seu filho que dorme na manjedoura de um pequeno estábulo em Belém. E esta criança, tal como todos os recém-nascidos, não quer confusão e barulho, mas precisa diariamente de carinho e cuidados constantes.

(Tenham uma boa semana!)


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sábado, 5 de dezembro de 2009

2º DOMINGO DO TEMPO DO ADVENTO (ano C)



Leitura do Livro de Baruc
(Bar 5,1-9)
Jerusalém, deixa a tua veste de luto e aflição e reveste para sempre a beleza da glória que vem de Deus. Cobre-te com o manto da justiça que vem de Deus e coloca sobre a cabeça o diadema da glória do Eterno. Deus vai mostrar o teu esplendor a toda a criatura que há debaixo do céu; Deus te dará para sempre este nome: «Paz da justiça e glória da piedade». Levanta-te, Jerusalém, sobe ao alto e olha para o Oriente: vê os teus filhos reunidos desde o Poente ao Nascente, por ordem do Deus Santo, felizes por Deus Se ter lembrado deles. Tinham-te deixado, caminhando a pé, levados pelos inimigos; mas agora é Deus que os reconduz a ti, trazidos em triunfo, como filhos de reis. Deus decidiu abater todos os altos montes e as colinas seculares e encher os vales, para se aplanar a terra, a fim de que Israel possa caminhar em segurança, na glória de Deus. Também os bosques e todas as árvores aromáticas darão sombra a Israel, por ordem de Deus, porque Deus conduzirá Israel na alegria, à luz da sua glória, com a misericórdia e a justiça que d’Ele procedem.


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 125 (126)
Refrão: Grandes maravilhas fez por nós o Senhor: por isso exultamos de alegria.

Quando o Senhor fez regressar os activos de Sião,
parecia-nos viver um sonho.
Da nossa boca brotavam expressões de alegria
e de nossos lábios cânticos de júbilo.

Diziam então os pagãos:
«O Senhor fez por eles grandes coisas».
Sim, grandes coisas fez por nós o Senhor,
estamos exultantes de alegria.

Fazei regressar, Senhor, os nossos cativos,
como as torrentes do deserto.
Os que semeiam em lágrimas
recolhem com alegria.

À ida, vão a chorar,
levando as sementes
à volta, vêm a cantar,
trazendo os molhos de espigas.


Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses
(Filip 1,4-6.8-11)
Irmãos: Em todas as minhas orações, peço sempre com alegria por todos vós, recordando-me da parte que tomastes na causa do Evangelho, desde o primeiro dia até ao presente. Tenho plena confiança de que Aquele que começou em vós tão boa obra há-de levá-la a bom termo até ao dia de Cristo Jesus. Deus é testemunha de que vos amo a todos no coração de Cristo Jesus. Por isso Lhe peço que a vossa caridade cresça cada vez mais em ciência e discernimento, para que possais distinguir o que é melhor e vos torneis puros e irrepreensíveis para o dia de Cristo, na plenitude dos frutos de justiça que se obtêm por Jesus Cristo, para louvor e glória de Deus.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 3,1-6)
No décimo quinto ano do reinado do imperador Tibério,quando Pôncio Pilatos era governador da Judeia, Herodes tetrarca da Galileia, seu irmão Filipe tetrarca da região da Itureia e Traconítide e Lisânias tetrarca de Abilene, no pontificado de Anás e Caifás, foi dirigida a palavra de Deus a João, filho de Zacarias, no deserto. E ele percorreu toda a zona do rio Jordão, pregando um baptismo de penitência para a remissão dos pecados, como está escrito no livro dos oráculos do profeta Isaías: «Uma voz clama no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas. Sejam alteados todos os vales e abatidos os montes e as colinas; endireitem-se os caminhos tortuosos e aplanem-se as veredas escarpadas; e toda a criatura verá a salvação de Deus’».


ANO ZERO
O Evangelho de Lucas inicia da seguinte maneira: «Visto que muitos empreenderam compor uma narração dos factos que entre nós se consumaram, como no-los transmitiram os que desde o princípio foram testemunhas oculares e se tornaram "Servidores da Palavra", resolvi eu também, depois de tudo ter investigado cuidadosamente desde a origem, expô-los a ti por escrito e pela sua ordem, caríssimo Teófilo, a fim de reconheceres a solidez da doutrina em que foste instruído».

Lucas, um homem de ciência, médico de profissão, compromete-se «depois de tudo ter investigado cuidadosamente desde a origem», a contar uma nova versão da história de Jesus, o Nazareno. A sua é uma narração obviamente iluminada pela fé na Ressureição, mas que pretende renunciar a todos os elementos lendários e fabulescos que, ordinariamente, rodeiam as biografias das grandes personagens da antiguidade. No Evangelho de hoje encontramos vários exemplos deste seu rigor.

Lucas começa por enquadrar o momento histórico e o espaço geográfico em que João Baptista iniciou a sua actividade profética: nomeia sete contemporâneos célebres de João (desde o imperador Tibério César, até ao sumo sacerdote Caifás) e diz-nos que ele pregava em «toda a zona do rio Jordão», uma região bastante povoada, sobretudo depois das construções de Herodes e de Arquelau. Com estes dados, Lucas recorda-nos que Jesus Cristo não é uma lenda, mas sim, uma pessoa real, ligada a um determinado momento histórico e a uma geografia bem definida.

Quem nasce na gruta de Belém não é um deus distante, imutável e inalcançável. Em Jesus Cristo, Deus irrompe na História dos homens, divide-a para sempre em duas metades e torna-se o “Emanu-El”: Deus connosco. Mas o Senhor da História, não quer apenas entrar genericamente no curso dos acontecimentos da humanidade. Ele é Cristo, “ontem, hoje e sempre” e deseja entrar na vida de cada um de nós, nascer na nossa história pessoal e oferecer o dom da salvação a todos os homens e mulheres do mundo.

O Natal que celebraremos daqui a poucos dias poderá ser o nosso “ano zero”, o momento em que acolheremos Cristo nas nossas vidas, mas para que isso aconteça é necessário preparar os seus caminhos. João Baptista recorda-nos que não basta enfeitar a árvore, montar o presépio ou saudar os amigos dizendo «Bom Natal!»: ocorre a conversão do coração; uma transformação tão profunda e radical quanto o esforço humano de altear um vale ou de abater uma colina.

Ânimo! O Natal está próximo, mas ainda temos muito que fazer.


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sábado, 28 de novembro de 2009

1º DOMINGO DO TEMPO DO ADVENTO (ano C)



Leitura do Livro de Jeremias
(Jer 33,14-16)
Eis o que diz o Senhor: «Dias virão, em que cumprirei a promessa que fiz à casa de Israel e à casa de Judá: Naqueles dias, naquele tempo, farei germinar para David um rebento de justiça que exercerá o direito e a justiça na terra. Naqueles dias, o reino de Judá será salvo e Jerusalém viverá em segurança. Este é o nome que chamarão à cidade: ‘O Senhor é a nossa justiça’».


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 24 (25)
Refrão: Para Vós, Senhor, elevo a minha alma.

Mostrai-me, Senhor, os vossos caminhos,
ensinai-me as vossas veredas.
Guiai-me na vossa verdade e ensinai-me,
porque Vós sois Deus, meu Salvador.

O Senhor é bom e recto,
ensina o caminho aos pecadores.
Orienta os humildes na justiça
e dá-lhes a conhecer os seus caminhos.

Os caminhos do Senhor são misericórdia e fidelidade
para os que guardam a sua aliança e os seus preceitos.
O Senhor trata com familiaridade os que O temem
e dá-lhes a conhecer a sua aliança.


Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Tessalonicenses
(1 Tes 3,12–4,2)
Irmãos: O Senhor vos faça crescer e abundar na caridade uns para com os outros e para com todos, tal como nós a temos tido para convosco. O Senhor confirme os vossos corações numa santidade irrepreensível, diante de Deus, nosso Pai, no dia da vinda de Jesus, nosso Senhor, com todos os santos. Finalmente, irmãos, eis o que vos pedimos e recomendamos no Senhor Jesus: recebestes de nós instruções sobre o modo como deveis proceder para agradar a Deus e assim estais procedendo; mas deveis progredir ainda mais. Conheceis bem as normas que vos demos da parte do Senhor Jesus.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 21,25-28.34-36)
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas e, na terra, angústia entre as nações, aterradas com o rugido e a agitação do mar. Os homens morrerão de pavor, na expectativa do que vai suceder ao universo, pois as forças celestes serão abaladas. Então, hão-de ver o Filho do homem vir numa nuvem, com grande poder e glória. Quando estas coisas começarem a acontecer, erguei-vos e levantai a cabeça, porque a vossa libertação está próxima. Tende cuidado convosco, não suceda que os vossos corações se tornem pesados pela devassidão, a embriaguês e as preocupações da vida, e esse dia não vos surpreenda subitamente como uma armadilha, pois ele sobrevirá sobre todos os que habitam a terra inteira. Portanto, vigiai e orai em todo o tempo, para terdes a força de vos livrar de tudo o que vai acontecer e poderdes estar firmes na presença do Filho do homem».


2012
Ainda não fui ao cinema ver o filme “2012”, mas ao ler as primeiras frases do discurso de Jesus não pude deixar de pensar (divertido) nos vários trailers deste “filme-profecia” que inundam a internet há já alguns meses. A questão do fim do mundo sempre despertou muita curiosidade e uma pequena pesquisa revela pelo menos umas trinta datas que conseguiram suscitar alguma ânsia na população mais crédula. Entre as previsões mais recentes do fim do mundo temos:

• O ano 1947, segundo o “profeta” americano, John Ballou Newbrough.

• Para o reverendo Sun Myung Moon, líder da Igreja da Unificação, tudo acabaria em 1967.

• Segundo alguns intérpretes de Nostradamus, o fim do mundo seria em 1999.

• As Testemunhas de Jeová diziam que era em 1914... depois, 1918... depois, 1925... depois, 1975... e, claro, o ano 2000.

• Finalmente chegamos aos nossos dias e a data da moda é 21 de Dezembro de 2012. No entanto, até mesmo o realizador do filme “2012” não acredita muito nesta profecia, uma vez que já está a trabalhar num novo projecto que se vai chamar, “2013”... (Não é uma piada. Podem confirmar.)

Já falámos há duas semanas atrás do género literário apocalíptico e de como estes textos, apesar das imagens espectaculares e aterradoras que frequentemente utilizam, normalmente procuram veicular uma mensagem de esperança (se não se lembram desse comentário, basta clicar aqui). O Evangelho de hoje insere-se plenamente nesse filão: é um convite a vigiar, para não desperdiçar tempo com coisas inúteis; a não perder nunca a coragem e a esperança, mesmo nos momentos mais difíceis da nossa vida, porque a «libertação está próxima».

A verdade é que o mundo acaba todos os dias para muitas pessoas e nenhum de nós conhece a própria hora. Os “sinais” catastróficos apresentados não são um quadro do “fim do mundo”: são imagens utilizadas pelos profetas antigos (e que todos os judeus imediatamente reconheciam) para falar do “dia do Senhor”, isto é, o dia em que Deus intervem na história para libertar definitivamente o seu Povo da escravidão, inaugurando uma era de vida, de fecundidade e de paz sem fim. O quadro destina-se, portanto, não a amedrontar, mas a abrir os corações à esperança: quando Jesus reinar com a sua autoridade soberana, o mundo velho do egoísmo e da escravidão cairá e surgirá o dia novo da “salvação-libertação” sem fim.

(Tenham uma boa semana!)


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sábado, 21 de novembro de 2009

SOLENIDADE DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO



Leitura da Profecia de Daniel
(Dan 7,13-14)
Contemplava eu as visões da noite, quando, sobre as nuvens do céu, veio alguém semelhante a um filho do homem. Dirigiu-Se para o Ancião venerável e conduziram-no à sua presença. Foi-lhe entregue o poder, a honra e a realeza, e todos os povos e nações O serviram. O seu poder é eterno, não passará jamais, e o seu reino não será destruído.


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 92 (93)
Refrão: O Senhor é rei num trono de luz.

O Senhor é rei,
revestiu-Se de majestade,
revestiu-Se e cingiu-Se de poder.

Firmou o universo, que não vacilará.
É firme o vosso trono desde sempre,
Vós existis desde toda a eternidade.

Os vossos testemunhos são dignos de toda a fé,
a santidade habita na vossa casa
por todo o sempre.


Leitura do Apocalipse
(Ap 1,5-8)
Jesus Cristo é a Testemunha fiel, o Primogénito dos mortos, o Príncipe dos reis da terra. Àquele que nos ama e pelo seu sangue nos libertou do pecado e fez de nós um reino de sacerdotes para Deus seu Pai, a Ele a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Amen. Ei-l’O que vem entre as nuvens, e todos os olhos O verão, mesmo aqueles que O trespassaram; e por sua causa hão-de lamentar-se todas as tribos da terra. Sim. Amen. «Eu sou o Alfa e o Ómega», diz o Senhor Deus, «Aquele que é, que era e que há-de vir, o Senhor do Universo».


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
(Jo 18,33b-37)
Naquele tempo, disse Pilatos a Jesus: «Tu és o Rei dos judeus?» Jesus respondeu-lhe: «É por ti que o dizes, ou foram outros que to disseram de Mim?» Disseram-Lhe Pilatos: «Porventura eu sou judeu? O teu povo e os sumos sacerdotes é que Te entregaram a mim. Que fizeste?» Jesus respondeu: «O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que Eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é daqui». Disse-Lhe Pilatos: «Então, Tu és Rei?» Jesus respondeu-lhe: «É como dizes: sou Rei. Para isso nasci e vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz».


1925
A Solenidade de Cristo Rei, que celebramos hoje, é uma festa relativamente jovem: foi instituída há apenas 84 anos, em 1925...

Em Janeiro de 1925, Benito Mussolini, já Chefe de Estado desde Novembro de 1922, instaurava definitivamente em Itália a ditadura fascista.

Em 18 de Julho de 1925, na Alemanha era publicado o primeiro volume de Mein Kampf (“A minha luta”) escrito por Adolf Hitler na prisão de Landsberg am Lech; um livro que mais tarde será apelidado por muitos como “A Bíblia Nazista”.

Em Dezembro de 1925, um ano após a morte de Lenin, Josef Stalin emerge no XIV Congresso do Partido Comunista como a nova figura dominante da política soviética.

É neste contexto histórico e político que no dia 11 de Dezembro de 1925 o Papa Pio XI publica a encíclica Quas primas e introduz no calendário litúrgico a “Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo”, uma data que pretende ser um grito de rebelião contra todos os tipos de absolutismo e totalitarismo; uma forma de oposição aos falsos “messias” e aos seus cultos da personalidade; uma forma de contrastar a propaganda ideológica e o exacerbado nacionalismo que se difundia. É uma festa que deseja recordar aos homens que apenas um reino e um rei merecem a nossa total devoção: o Reino de Deus, fundado sob os valores da justiça, do amor e da paz.

O Evangelho de hoje demonstra claramente a diferença entre a mensagem de Jesus e as ideologias políticas que dilaceraram as nações do século XX. A realeza de Cristo não se impõe pela força, não produz opressão e morte: produz vida e liberdade. Infelizmente, ao longo da história, foram muitos os que tentaram adulterar (“ideologizar”...) a imagem do Reino de Deus em benefício da própria agenda política e económica, mas uma leitura atenta do Evangelho não deixa espaço para dúvidas: o carpinteiro da Galileia é um rei desarmado, cuja força e autoridade provém do exemplo de vida e do testemunho da verdade. Um “reinado” que não se identifica com nenhuma ideologia; uma “revolução mundial” que não se pode impor, mas apenas propor, pois corresponde, em primeiro lugar, à conversão pessoal e só depois, à transformação radical da sociedade, utilizando as armas da solidariedade, da caridade e do perdão.



(Boa semana. E viva Cristo Rei!)



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sábado, 14 de novembro de 2009

XXXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM (ano B)



Leitura da Profecia de Daniel
(Dan 12,1-3)
Naquele tempo, surgirá Miguel, o grande chefe dos Anjos, que protege os filhos do teu povo. Será um tempo de angústia, como não terá havido até então, desde que existem nações. Mas nesse tempo, virá a salvação para o teu povo, para aqueles que estiverem inscritos no livro de Deus. Muitos dos que dormem no pó da terra acordarão, uns para a vida eterna, outros para a vergonha e o horror eterno. Os sábios resplandecerão como a luz do firmamento e os que tiverem ensinado a muitos o caminho da justiça brilharão como estrelas por toda a eternidade.


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 15 (16)
Refrão: Defendei-me, Senhor: Vós sois o meu refúgio.

Senhor, porção da minha herança e do meu cálice,
está nas vossas mãos o meu destino.
O Senhor está sempre na minha presença,
com Ele a meu lado não vacilarei.

Por isso o meu coração se alegra e a minha alma exulta
e até o meu corpo descansa tranquilo.
Vós não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos,
nem deixareis o vosso fiel sofrer a corrupção.

Dar-me-eis a conhecer os caminhos da vida,
alegria plena em vossa presença,
delícias eternas à vossa direita.


Leitura da Epístola aos Hebreus
(Heb 10,11-14.18)
Todo o sacerdote da antiga aliança se apresenta cada dia para exercer o seu ministério e oferecer muitas vezes os mesmos sacrifícios, que nunca poderão perdoar os pecados. Cristo, ao contrário, tendo oferecido pelos pecados um único sacrifício, sentou-Se para sempre à direita de Deus, esperando desde então que os seus inimigos sejam postos como escabelo dos seus pés. Porque, com uma única oblação, Ele tornou perfeitos para sempre os que Ele santifica. Onde há remissão dos pecados, já não há necessidade de oblação pelo pecado.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
(Mc 13,24-32)
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Naqueles dias, depois de uma grande aflição, o sol escurecerá e a lua não dará a sua claridade; as estrelas cairão do céu e as forças que há nos céus serão abaladas. Então, hão-de ver o Filho do homem vir sobre as nuvens, com grande poder e glória. Ele mandará os Anjos, para reunir os seus eleitos dos quatro pontos cardeais, da extremidade da terra à extremidade do céu. Aprendei a parábola da figueira: quando os seus ramos ficam tenros e brotam as folhas, sabeis que o Verão está próximo. Assim também, quando virdes acontecer estas coisas, sabei que o Filho do homem está perto, está mesmo à porta. Em verdade vos digo: Não passará esta geração sem que tudo isto aconteça. Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão. Quanto a esse dia e a essa hora, ninguém os conhece: nem os Anjos do Céu, nem o Filho; só o Pai».


O APOCALIPSE E AS CANÇÕES DE LIBERDADE
Muitas pessoas acreditam que o termo “apocalipse” seja sinónimo de “cataclismo” ou que esteja a indicar o fim do mundo. Na realidade, “apocalipse” deriva da palavra grega apokalypsis (ἀποκάλυψις), composta por apó (que significa “separação”, prefixo que encontramos também em “apólida”, “apócrifo” e “apóstolo”) e kalýptein (“escondido”, tal como em “eclipse” e “Calipso”). “Apocalipse” significa por conseguinte, “retirar algo que esconde”, como quando se tira um véu que cobre qualquer coisa. A melhor tradução para “apocalipse” é portanto, “revelação”.

O discurso de Jesus que encontramos no evangelho deste domingo (tal como a primeira leitura do livro de Daniel) pertence ao género literário “apocalíptico”. São textos de difícil interpretação, muito comuns aos tempos de opressão e perseguição, que recorrem frequentemente a símbolos e a uma linguagem cifrada para comunicar uma mensagem que restaure a esperança e assegure ao povo a vitória sobre os opressores.

Hoje em dia é difícil decifrarmos o significado exacto de cada frase, de cada expressão, mas provavelmente acontecerá o mesmo, daqui a muitos anos, às gerações portuguesas que escutarem a música de intervenção, escrita antes do 25 de Abril; uma música que utilizava analogias e jogos de palavras para denunciar a opressão da ditadura fascista e dar esperança e ânimo na luta pela liberdade. Marcos escreve o seu Evangelho numa época ainda mais dramática, por volta do ano 70, depois do martírio de Pedro e da grande perseguição levada a cabo pelo imperador Nero contra a comunidade cristã. O mesmo Nero que fez erigir no seu palácio imperial uma estátua de bronze com trinta metros de altura que o representava como o deus “Sol”. Se relermos o evangelho de novo, esta informação alterará a compreensão que temos do texto...

Não podemos explicar aqui todos os elementos enigmáticos do discurso de Jesus, mas mesmo com poucos dados, o significado profundo do evangelho começa aos poucos a vir à tona. E é o seguinte: «não temam pois o tempo da revolução está para chegar; está para acontecer uma viragem decisiva na história; a velha ordem religiosa e política será derrubada; nascerá um mundo novo, construído de acordo com os critérios e os valores de Deus...».

Para terminar, deixo-vos a letra de um dos “hinos” da resistência antifascista portuguesa: “Trova do Vento que Passa”, um poema de Manuel Alegre, musicado e cantado por Adriano Correia de Oliveira. (Para escutar a música basta clicar AQUI).

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.



(Tenham uma boa semana!)


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sábado, 7 de novembro de 2009

XXXII DOMINGO DO TEMPO COMUM (ano B)



Leitura do Primeiro Livro dos Reis
(1 Re 17,10-16)
Naqueles dias, o profeta Elias pôs-se a caminho e foi a Sarepta. Ao chegar às portas da cidade, encontrou uma viúva a apanhar lenha. Chamou-a e disse-lhe: «Por favor, traz-me uma bilha de água para eu beber». Quando ela ia a buscar a água, Elias chamou-a e disse: «Por favor, traz-me também um pedaço de pão». Mas ela respondeu: «Tão certo como estar vivo o Senhor, teu Deus, eu não tenho pão cozido, mas somente um punhado de farinha na panela e um pouco de azeite na almotolia. Vim apanhar dois cavacos de lenha, a fim de preparar esse resto para mim e meu filho. Depois comeremos e esperaremos a morte». Elias disse-lhe: «Não temas; volta e faz como disseste. Mas primeiro coze um pãozinho e traz-mo aqui. Depois prepararás o resto para ti e teu filho. Porque assim fala o Senhor, Deus de Israel: ‘Não se esgotará a panela da farinha, nem se esvaziará a almotolia do azeite, até ao dia em que o Senhor mandar chuva sobre a face da terra’». A mulher foi e fez como Elias lhe mandara; e comeram ele, ela e seu filho. Desde aquele dia, nem a panela da farinha se esgotou, nem se esvaziou a almotolia do azeite, como o Senhor prometera pela boca de Elias.


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 145 (146)
Refrão: Ó minha alma, louva o Senhor.

O Senhor faz justiça aos oprimidos,
dá pão aos que têm fome
e a liberdade aos cativos.

O Senhor ilumina os olhos do cego,
o Senhor levanta os abatidos,
o Senhor ama os justos.

O Senhor protege os peregrinos,
ampara o órfão e a viúva
e entrava o caminho aos pecadores.

O Senhor reina eternamente;
o teu Deus, ó Sião,
é rei por todas as gerações.


Leitura da Epístola aos Hebreus
(Heb 9,24-28)
Cristo não entrou num santuário feito por mãos humanas, figura do verdadeiro, mas no próprio Céu, para Se apresentar agora na presença de Deus em nosso favor. E não entrou para Se oferecer muitas vezes, como sumo sacerdote que entra cada ano no Santuário, como sangue alheio; nesse caso, Cristo deveria ter padecido muitas vezes, desde o princípio do mundo. Mas Ele manifestou-Se uma só vez, na plenitude dos tempos, para destruir o pecado pelo sacrifício de Si mesmo. E, como está determinado que os homens morram uma só vez e a seguir haja o julgamento, assim também Cristo, depois de Se ter oferecido uma só vez para tomar sobre Si os pecados da multidão, aparecerá segunda vez, sem a aparência do pecado, para dar a salvação àqueles que O esperam.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
(Mc 12,38-44)
Naquele tempo, Jesus ensinava a multidão, dizendo: «Acautelai-vos dos escribas, que gostam de exibir longas vestes, de receber cumprimentos nas praças, de ocupar os primeiros assentos nas sinagogas e os primeiros lugares nos banquetes. Devoram as casas das viúvas com pretexto de fazerem longas rezas. Estes receberão uma sentença mais severa». Jesus sentou-Se em frente da arca do tesouro a observar como a multidão deixava o dinheiro na caixa. Muitos ricos deitavam quantias avultadas. Veio uma pobre viúva e deitou duas pequenas moedas, isto é, um quadrante. Jesus chamou os discípulos e disse-lhes: «Em verdade vos digo: Esta pobre viúva deitou na caixa mais do que todos os outros. Eles deitaram do que lhes sobrava, mas ela, na sua pobreza, ofereceu tudo o que tinha, tudo o que possuía para viver».


DOAR. DOER.
No dia 4 de Fevereiro de 1994, no hotel Shoreham em Nova Iorque, Madre Teresa de Calcutá encontrou alguns dos mais importantes políticos americanos, entre os quais, o então presidente Bill Clinton e o seu vice-presidente Al Gore. Nesse encontro histórico, Madre Teresa cunhou uma expressão que nos ajuda a compreender a mensagem do Evangelho que acabámos de ler: «Doar tem que doer».

Se não “dói” quando damos, isso significa que ainda não doámos realmente nada. Demos do que sobrava; partilhámos apenas o que sobejava e a nossa vida não foi minimamente “tocada” por esse gesto. Madre Teresa dizia também que «o importante não é o que se dá, mas o amor com que se dá», e que «amar significa estar disposto a doar-se até que doa».

No Evangelho deste domingo, Jesus apresenta dois casos bem distintos: em primeiro lugar é descrito o comportamento dos escribas e dos ricos. Sempre sedentos de lucro, não fazem nada sem segundas intenções e exploram tudo e todos (até mesmo uma esmola) em troca de um momento de glória, um aplauso, um elogio. São hipócritas e incoerentes: fazem as coisas, não por convicção, mas para serem considerados e admirados pelo povo. O segundo caso corresponde à pobre viúva que depositou na caixa das esmolas do templo «duas pequenas moedas»; dois “leptá”, diz o texto grego. O “leptá” era uma moeda de cobre, a mais pequena e insignificante das moedas judaicas, contudo, Jesus diz-nos que aquela mulher não ofereceu o que sobejava: aquela quantia era tudo o que possuía.

Ninguém reparou no gesto da viúva. Ninguém, excepto Jesus. E para Ele (para Deus) aquelas duas moedas foram o dom mais importante, pois nenhuma outra esmola foi dada com tanta gratuidade, totalidade e sacrifício.

O verdadeiro cristão não é o que cultiva gestos teatrais e espampanantes, que impressionam as multidões e que são aplaudidos pelos homens, mas é o que no segredo, livremente e gratuitamente ajuda os irmãos mais pobres partilhando o que tem e não apenas o que sobeja. Não podemos permanecer indiferentes quando no mundo milhões de pessoas vivem com menos de um dollar por dia. Se comes três vezes por dia, dormes debaixo de um tecto, tens um telemóvel, uma televisão, um computador... isso significa que és rico. Comparado com a maioria da população mundial, és rico! Não achas que chegou a altura de começar a ajudar (realmente...) os teus irmãos mais desfavorecidos? Doa a quem doer?


(Boa semana!)


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sábado, 31 de outubro de 2009

SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS (ano B)



Leitura do Apocalipse de São João
(Ap 7,2-4.9-14)
Eu, João, vi um Anjo que subia do Nascente, trazendo o selo do Deus vivo. Ele clamou em alta voz aos quatro Anjos a quem foi dado o poder de causar dano à terra e ao mar: «Não causeis dano à terra, nem ao mar, nem às árvores, até que tenhamos marcado na fronte os servos do nosso Deus». E ouvi o número dos que foram marcados: cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel. Depois disto, vi uma multidão imensa, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé, diante do trono e na presença do Cordeiro, vestidos com túnicas brancas e de palmas na mão. E clamavam em alta voz: «A salvação ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro». Todos os Anjos formavam círculo em volta do trono, dos Anciãos e dos quatro Seres Vivos. Prostraram-se diante do trono, de rosto por terra, e adoraram a Deus, dizendo: «Amen! A bênção e a glória, a sabedoria e a acção de graças, a honra, o poder e a força ao nosso Deus, pelos séculos dos séculos. Amen!». Um dos Anciãos tomou a palavra e disse-me: «Esses que estão vestidos de túnicas brancas, quem são e de onde vieram?». Eu respondi-lhe: «Meu Senhor, vós é que o sabeis». Ele disse-me: «São os que vieram da grande tribulação, os que lavaram as túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro».


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 23 (24)
Refrão: Esta é a geração dos que procuram o Senhor.

Do Senhor é a terra e o que nela existe,
o mundo e quantos nele habitam.
Ele a fundou sobre os mares
e a consolidou sobre as águas.

Quem poderá subir à montanha do Senhor?
Quem habitará no seu santuário?
O que tem as mãos inocentes e o coração puro,
o que não invocou o seu nome em vão.

Este será abençoado pelo Senhor
e recompensado por Deus, seu Salvador.
Esta é a geração dos que O procuram,
que procuram a face de Deus.


Leitura da Primeira Epístola de São João
(1Jo 3,1-3)
Caríssimos: Vede que admirável amor o Pai nos consagrou em nos chamar filhos de Deus. E somo-lo de facto. Se o mundo não nos conhece, é porque O não conheceu a Ele. Caríssimos, agora somos filhos de Deus e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Mas sabemos que, na altura em que se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porque O veremos tal como Ele é. Todo aquele que tem n’Ele esta esperança purifica-se a si mesmo, para ser puro, como ele é puro.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 5,1-12)
Naquele tempo, ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se. Rodearam-n’O os discípulos e Ele começou a ensiná-los, dizendo:
«Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados os humildes,
porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que choram,
porque serão consolados.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus.
Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa,
vos insultarem, vos perseguirem
e, mentindo, disserem todo o mal contra vós.
Alegrai-vos e exultai,
porque é grande nos Céus a vossa recompensa».




Este fim-de-semana estou em Roma para um “tríduo” de eventos vocacionais: ontem à noite, no meu antigo seminário, 7 confrades scalabrinianos foram instituídos no ministério do leitorado; esta manhã, na capela do Pontifício Colégio Etiópico, um caro amigo foi ordenado diácono; amanhã, na paróquia de S. Luzia, um outro jovem missionário scalabriniano professará os votos perpétuos na nossa congregação.

Em vez do comentário que normalmente acompanha as leituras dominicais, este sábado proponho-vos as palavras que Bento XVI pronunciou durante a oração do Ângelus, na Praça de São Pedro, o ano passado, por ocasião da Solenidade de Todos os Santos.

(Tenham uma boa semana!)


Queridos irmãos e irmãs:
Celebramos hoje com grande alegria a festa de Todos os Santos. Quando uma pessoa visita um jardim botânico, fica estupefacta diante da variedade de plantas e flores, e espontaneamente pensa na fantasia do Criador, que fez da terra um jardim maravilhoso. Um sentimento análogo invade-nos quando consideramos o espectáculo da santidade: o mundo parece-nos como um «jardim», onde o Espírito de Deus suscitou com fantasia admirável uma multidão de santos e santas, de todas as idades e condições sociais, de todas as línguas, povos e culturas. Cada um é único, com a singularidade da própria personalidade humana e do próprio carisma espiritual. Todos têm impresso, contudo, o «selo» de Jesus, ou seja, a marca de seu amor, testemunhado através da Cruz. Todos estão na alegria, numa festa sem fim, mas, como Jesus, conquistaram esta meta passando pela fadiga e pela prova, enfrentando, cada um, a própria parte de sacrifícios para participar da glória da ressurreição.

A solenidade de Todos os Santos afirmou-se no primeiro milénio cristão como celebração colectiva dos mártires. Já em 609, em Roma, o Papa Bonifácio IV havia consagrado o Panteão, dedicando-o a Nossa Senhora e a todos os mártires. Este martírio, por outro lado, podemos entendê-lo em sentido amplo, ou seja, como amor a Cristo sem reservas, amor que se expressa no dom total de si mesmo a Deus e aos irmãos. Esta meta espiritual, à qual todos os baptizados são chamados, alcança-se seguindo o caminho das «bem-aventuranças» evangélicas, que a liturgia indica na solenidade de hoje. É o mesmo caminho traçado por Jesus e que os santos e as santas se esforçaram em percorrer, conscientes dos seus limites humanos. Na sua existência terrena, de facto, foram misericordiosos, puros de coração, trabalhadores pela paz, perseguidos pela justiça. E Deus fê-los partícipes da sua própria felicidade: Agora são consolados, herdeiros da terra, saciados, perdoados vêem Deus, de quem são filhos. Em poucas palavras: «deles é o Reino dos Céus».

Neste dia sentimos reavivar-se em nós a atracção pelo Céu, que nos impulsiona a apertar o passo de nossa peregrinação terrena. Sentimos acender-se nos nossos corações o desejo de unir-nos para sempre à família dos santos, da qual já agora temos a graça de fazer parte. Como diz um célebre canto espiritual: «Quando chegar a multidão dos vossos santos, oh, como eu gostaria, Senhor, de estar entre eles!». Que esta bela aspiração possa arder em todos os cristãos, e ajude-nos a superar todas as dificuldades, todo o temor, toda a tribulação. Queridos amigos, coloquemos a nossa mão na mão materna de Maria, Rainha de todos os santos, e deixemo-nos conduzir por Ela à pátria celeste, em companhia dos espíritos bem-aventurados «de todas as nações, povos e línguas». E unamos à nossa oração a lembrança dos nossos queridos falecidos, que comemoraremos amanhã.


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sábado, 24 de outubro de 2009

XXX DOMINGO DO TEMPO COMUM (ano B)



Leitura do Livro de Jeremias
(Jer 31,7-9)
Eis o que diz o Senhor: «Soltai brados de alegria por causa de Jacob, enaltecei a primeira das nações. Fazei ouvir os vossos louvores e proclamai: ‘O Senhor salvou o seu povo, o resto de Israel’. Vou trazê-los das terras do Norte e reuni-los dos confins do mundo. Entre eles vêm o cego e o coxo, a mulher que vai ser mãe e a que já deu à luz. É uma grande multidão que regressa. Eles partiram com lágrimas nos olhos e Eu vou trazê-los no meio das consolações. Levá-los-ei às águas correntes, por caminho plano em que não tropecem. Porque Eu sou um Pai para Israel e Efraim é o meu primogénito».


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 125 (126)
Refrão: Grandes maravilhas fez por nós o Senhor, por isso exultamos de alegria.

Quando o Senhor fez regressar os cativos de Sião,
parecia-nos viver um sonho.
Da nossa boca brotavam expressões de alegria
e dos nossos lábios cânticos de júbilo.

Diziam então os pagãos:
«O Senhor fez por eles grandes coisas».
Sim, grandes coisas fez por nós o Senhor,
estamos exultantes de alegria.

Fazei regressar, Senhor, os nossos cativos,
como as torrentes do deserto.
Os que semeiam em lágrimas
recolhem com alegria.

À ida vão a chorar,
levando as sementes;
à volta vêm a cantar,
trazendo os molhos de espigas.


Leitura da Epístola aos Hebreus
(Heb 5,1-6)
Todo o sumo sacerdote, escolhido de entre os homens, é constituído em favor dos homens, nas suas relações com Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados. Ele pode ser compreensivo para com os ignorantes e os transviados, porque também ele está revestido de fraqueza; e, por isso, deve oferecer sacrifícios pelos próprios pecados e pelos do seu povo. Ninguém atribui a si próprio esta honra, senão quem foi chamado por Deus, como Abraão. Assim também, não foi Cristo que tomou para Si a glória de Se tornar sumo sacerdote; deu-Lha Aquele que Lhe disse: «Tu és meu Filho, Eu hoje Te gerei», e como disse ainda noutro lugar: «Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec».


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
(Mc 10,46-52)
Naquele tempo, quando Jesus ia a sair de Jericó com os discípulos e uma grande multidão, estava um cego, chamado Bartimeu, filho de Timeu, a pedir esmola à beira do caminho. Ao ouvir dizer que era Jesus de Nazaré que passava, começou a gritar: «Jesus, Filho de David, tem piedade de mim». Muitos repreendiam-no para que se calasse. Mas ele gritava cada vez mais: «Filho de David, tem piedade de mim». Jesus parou e disse: «Chamai-O». Chamaram então o cego e disseram-lhe: «Coragem! Levanta-te, que Ele está a chamar-te». O cego atirou fora a capa, deu um salto e foi ter com Jesus. Jesus perguntou-lhe: «Que queres que Eu te faça?» O cego respondeu-Lhe: «Mestre, que eu veja». Jesus disse-lhe: «Vai: a tua fé te salvou». Logo ele recuperou a vista e seguiu Jesus pelo caminho.


«Procurei o SENHOR e Ele respondeu-me» - Salmo 34 (33)
Milão é uma cidade muito rica... onde mora (e mendiga) muita gente pobre. Alguns mendigos são muito insistentes: com a mão estendida e o rosto triste, esperam-te junto aos semáforos, caminham ao teu lado na rua ou permanecem de pé junto às mesas das esplanadas, na esperança de que uma moeda (por aborrecimento ou generosidade, não importa) mais cedo ou mais tarde, “caia” da carteira.

Há dois mil anos atrás as coisas não eram muito diferentes. Bartimeu era um destes mendigos: um pedinte “profissional” que mendigava esmolas aos peregrinos que passavam por Jericó a caminho de Jerusalém. Um pobre cego, conhecido por todos, que vivia dos tostões que os romeiros lhe alcançavam. Porém, algo dentro dele acordou quando ouviu dizer que passava Jesus Cristo: decidiu não estender apenas a mão, como sempre fazia, para pedir uma moeda. Saiu da sua rotina habitual, parou a usual cantilena e, estranhamente, começou a gritar como um louco: «Jesus, Filho de David, tem piedade de mim».

Provavelmente, diante daquele estranho maltrapilho que importunava o nosso Mestre, também teríamos tido a mesma reacção repressiva dos apóstolos. Podemos imaginar como lhe ralhavam: «Cala-te! Não O incomodes!». Mas Bartimeu não desistia e gritava cada vez mais alto: «Jesus, Filho de David, tem piedade de mim».

Impressiona-me muito a tenacidade deste homem. Nunca encontrou Jesus antes, mas certamente ouviu falar dele e dos seus milagres. A possibilidade de mudar de vida, de sair da escuridão, de recuperar a vista dá-lhe força e alento. Bartimeu não sabe se Jesus o escutará, mas tem de tentar; não pode ficar em silêncio. A aposta em jogo é demasiado alta e por isso ele grita e implora por um novo começo; uma nova vida.

Nem sempre nas nossas comunidades vamos encontrar pessoas acolhedoras e simpáticas. Por vezes deparamo-nos com autênticos muros viventes que nos tentam silenciar e escandalizam-nos com a própria falta de caridade e compaixão. Diante deste cenário repressivo e anti-evangélico a tentação de abandonar tudo e desistir é enorme. Mas se a nossa fé é verdadeira; se realmente acreditamos que Jesus Cristo é o único que pode oferecer luz, sentido, vida nova, então temos que seguir o exemplo de Bartimeu e não renunciar à nossa chance de encontrar o Senhor. Temos de ser firmes, perseverar e dar o nosso contributo para que a comunidade melhore, cresça e se torne mais autêntica e santa.

Não desistas. Não te cales. Tu és a Igreja e a Igreja precisa de ti.

(Boa semana!)


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sábado, 17 de outubro de 2009

XXIX DOMINGO DO TEMPO COMUM (ano B)


Leitura do Livro de Isaías
(Is 53,10-11)
Aprouve ao Senhor esmagar o seu Servo pelo sofrimento. Mas, se oferecer a sua vida como vítima de expiação, terá uma descendência duradoira, viverá longos dias, e a obra do Senhor prosperará em suas mãos. Terminados os sofrimentos, verá a luz e ficará saciado. Pela sua sabedoria, o Justo, meu Servo, justificará a muitos e tomará sobre si as suas iniquidades.


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 32 (33)
Refrão: Desça sobre nós a vossa misericórdia, porque em Vós esperamos, Senhor.

A palavra do Senhor é recta,
da fidelidade nascem as suas obras.
Ele ama a justiça e a rectidão:
a terra está cheia da bondade do senhor.

Os olhos do Senhor estão voltados para os que O temem,
para os que esperam na sua bondade,
para libertar da morte as suas almas
e os alimentar no tempo da fome.

A nossa alma espera o Senhor:
Ele é o nosso amparo e protector.
Venha sobre nós a vossa bondade,
porque em Vós esperamos, Senhor.

Leitura da Epístola aos Hebreus
(Heb 4,14-16)
Irmãos: Tendo nós um sumo sacerdote que penetrou os Céus, Jesus, Filho de Deus, permaneçamos firmes na profissão da nossa fé. Na verdade, nós não temos um sumo sacerdote incapaz de se compadecer das nossas fraquezas. Pelo contrário, Ele mesmo foi provado em tudo, à nossa semelhança, excepto no pecado. Vamos, portanto, cheios de confiança ao trono da graça, a fim de alcançarmos misericórdia e obtermos a graça de um auxílio oportuno.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
(Mc 10,35-45)
Naquele tempo, Tiago e João, filhos de Zebedeu, aproximaram-se de Jesus e disseram-Lhe: «Mestre, nós queremos que nos faças o que Te vamos pedir». Jesus respondeu-lhes: «Que quereis que vos faça?» Eles responderam: «Concede-nos que, na tua glória, nos sentemos um à tua direita e outro à tua esquerda». Disse-lhes Jesus: «Não sabeis o que pedis. Podeis beber o cálice que Eu vou beber e receber o baptismo com que Eu vou ser baptizado?» Eles responderam-Lhe: «Podemos». Então Jesus disse-lhes: «Bebereis o cálice que Eu vou beber e sereis baptizados com o baptismo com que Eu vou ser baptizado. Mas sentar-se à minha direita ou à minha esquerda não Me pertence a Mim concedê-lo; é para aqueles a quem está reservado». Os outros dez, ouvindo isto, começaram a indignar-se contra Tiago e João. Jesus chamou-os e disse-lhes: «Sabeis que os que são considerados como chefes das nações exercem domínio sobre elas e os grandes fazem sentir sobre elas o seu poder. Não deve ser assim entre vós: Quem entre vós quiser tornar-se grande, será vosso servo, e quem quiser entre vós ser o primeiro, será escravo de todos; porque o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de todos».


BIS
Há um mês atrás falávamos dos apóstolos que discutiam sobre quem seria o maior. Quatro semanas depois, o tema do poder repete-se novamente: João e Tiago pedem a Jesus um lugar de destaque no novo reino: pretendem ser “vices” na presidência da nova realidade política que (sonham) nascerá com Cristo. Os outros discípulos indignam-se com o pedido dos dois irmãos, mas esta reacção dificilmente demonstra maior “maturidade evangélica”: provavelmente zangam-se porque tinham as mesmas pretensões... também queriam ser chefes!

Neste momento, o pedido dos dois irmãos é ditado pela ingenuidade: «Não sabeis o que pedis». Todavia, antes de repetir a lição da autoridade como serviço, Jesus indaga sobre a fé que anima aquele pedido tão arrojado. No contexto bíblico, “beber o mesmo cálice” significa partilhar o destino de Jesus; “receber o mesmo baptismo” exprime participação na Sua paixão e morte. João e Tiago terão de purificar (e muito!) a própria visão do Reino de Deus, mas Jesus sabe que a coragem, integridade e firmeza dos dois irmãos destina-lhes um lugar de destaque na história da Igreja.
Ora vejamos:

Tiago (também conhecido como Tiago Maior, Santiago de Compostela, ou São Tiago, o Grande) será um dos primeiros mártires da Igreja, condenado à morte por Herodes Agripa I e decapitado em Jerusalém por volta do ano 44 (cf. At 12,2).

João (o mais novo dos Doze, mais tarde conhecido como São João Evangelista ou Apóstolo João), depois da morte do seu irmão, viajou para a Ásia menor, onde guiou por muitos anos a importante comunidade cristã de Éfeso. Além do “Evangelho segundo João”, também escreveu as três epístolas de João e o livro do Apocalipse. Conheceu a prisão, a tortura e o exílio, mas nunca renunciou ao anúncio entusiasta do Evangelho.

Por volta do ano 55, S. Paulo na sua carta aos Gálatas (Gal 2,9) refere-se a Tiago e a João como “colunas” da Igreja. É uma expressão curiosa: até parece que os dois irmãos alcançaram o que haviam pedido a Jesus; mas o relato das duas vidas testemunha que estas “colunas”, estes dois “chefes”, não eram déspotas ou tiranos prepotentes sedentos de poder. A história dos filhos de Zebedeu recorda-nos que a autoridade na Igreja não é (não deve ser) determinada pela riqueza, prestígio social, ou influência política, mas sim, pela capacidade de dedicar-se aos outros, de sacrificar-se pela causa do Reino, de testemunhar Jesus até ao fim, custe o que custar. Tal como Tiago e João se deixaram “purificar” pelo exemplo de doação e entrega de Cristo, também nós somos convidados a descobrir que a verdadeira grandeza não está no ser servido, mas sim, no servir os outros.

(Tenham uma boa semana!)


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sábado, 10 de outubro de 2009

XXVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM (ano B)



Leitura do Livro da Sabedoria
(Sab 7,7-11)
Orei e foi-me dada a prudência; implorei e veio a mim o espírito de sabedoria. Preferi-a aos ceptros e aos tronos e, em sua comparação, considerei a riqueza como nada. Não a equiparei à pedra mais preciosa, pois todo o ouro, à vista dela, não passa de um pouco de areia e, comparada com ela, a prata é considerada como lodo. Amei-a mais do que a saúde e a beleza e decidi tê-la como luz, porque o seu brilho jamais se extingue. Com ela me vieram todos os bens e, pelas suas mãos, riquezas inumeráveis.


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 89 (90)

Refrão: Saciai-nos, Senhor, com a vossa bondade e exultaremos de alegria.

Ensinai-nos a contar os nossos dias,
para chegarmos à sabedoria do coração.
Voltai, Senhor! Até quando?
tende piedade dos vossos servos.

Saciai-nos, desde a manhã, com a vossa bondade,
para nos alegrarmos e exultarmos todos os dias.
Compensai em alegria os dias de aflição,
os anos em que sentimos a desgraça.

Manifestai a vossa obra aos vossos servos
e aos seus filhos a vossa majestade.
Desça sobre nós a graça do Senhor.
confirmai em nosso favor a obra das nossas mãos.


Leitura da Epístola aos Hebreus
(Heb 4,12-13)
A palavra de Deus é viva e eficaz, mais cortante que uma espada de dois gumes: ela penetra até ao ponto de divisão da alma e do espírito, das articulações e medulas, e é capaz de discernir os pensamentos e intenções do coração. Não há criatura que possa fugir à sua presença: tudo está patente e descoberto a seus olhos. É a ela que devemos prestar contas.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
(Mc 10,17-30)
Naquele tempo, ia Jesus pôr-Se a caminho, quando um homem se aproximou correndo, ajoelhou diante d’Ele e Lhe perguntou: «Bom Mestre, que hei-de fazer para alcançar a vida eterna?» Jesus respondeu: «Porque me chamas bom? Ninguém é bom senão Deus. Tu sabes os mandamentos: ‘Não mates; não cometas adultério; não roubes; não levantes falso testemunho; não cometas fraudes; honra pai e mãe’». O homem disse a Jesus: «Mestre, tudo isso tenho eu cumprido desde a juventude». Jesus olhou para ele com simpatia e respondeu: «Falta-te uma coisa: vai vender o que tens, dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me». Ouvindo estas palavras, anuviou-se-lhe o semblante e retirou-se pesaroso, porque era muito rico. Então Jesus, olhando à volta, disse aos discípulos: «Como será difícil para os que têm riquezas entrar no reino de Deus!» Os discípulos ficaram admirados com estas palavras. Mas Jesus afirmou-lhes de novo: «Meus filhos, como é difícil entrar no reino de Deus! É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus». Eles admiraram-se ainda mais e diziam uns aos outros: «Quem pode então salvar-se?» Fitando neles os olhos, Jesus respondeu: «Aos homens é impossível, mas não a Deus, porque a Deus tudo é possível». Pedro começou a dizer-Lhe: «Vê como nós deixámos tudo para Te seguir». Jesus respondeu: «Em verdade vos digo: Todo aquele que tenha deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou terras, por minha causa e por causa do Evangelho, receberá cem vezes mais, já neste mundo, em casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e terras, juntamente com perseguições, e, no mundo futuro, a vida eterna».


A PESSOA MAIS RICA...
Nestes últimos domingos, fomos confrontados com algumas das nossas reacções naturais a temas polémicos tais como: o poder (“Quem é o maior?”), a diversidade (“Não é dos nossos!”) e a afectividade (“Pode um homem repudiar a sua mulher?”). A cada um destes comportamentos, Jesus propôs uma atitude nova e radicalmente diversa. Hoje somos convidados a meditar sobre a nossa relação com os bens materiais e o nosso desejo de acumular.

O jovem rico do evangelho deste domingo não era uma “má pessoa”, mas Jesus sabia que entre ele e a proposta do Reino havia um obstáculo insuperável: era prisioneiro dos seus próprios bens. Algumas pessoas vivem tão obcecadas com os bens materiais que se tornam escravas da riqueza. Têm casas que nunca visitam, carros que nunca guiam, roupas que nunca vestem, mas mesmo assim desejam sempre mais riquezas e são incapazes de partilhar o que têm com os outros. É quase como uma doença! Pensam possuir muitas coisas, mas na verdade, são elas que são “possuídas”. Os bens materiais tornam-se um ídolo e essa divindade pode pedir sacrifícios muito grandes: amizades, saúde, laços familiares... Tudo é sacrificável no altar do “deus tostão”.

Ninguém nos pede que vivamos uma vida miserável, mas o “culto da riqueza” é absolutamente incompatível com a proposta de Jesus. O Senhor quer que os nossos corações sejam livres e o convite que Ele faz ao jovem rico pede (e, simultaneamente, promete!) uma grande liberdade interior. A pobreza extrema é um mal que conduz ao desespero e que temos sempre de combater, mas uma vida simples, dedicada à solidariedade, à partilha e à doação, é verdadeira felicidade ao alcance da mão.

Nos últimos doze anos mudei várias vezes de casa e notei que em cada mudança o número das bagagens foi diminuindo significativamente. Em parte é culpa das companhias aéreas, que aumentaram muito o valor das multas por excesso de peso; mas por outro lado é também a experiência que vai ensinando o quanto são supérfluas algumas coisas e quão pouco realmente basta para se viver dignamente. Se bem que ainda viaje com muita coisa inútil, aos poucos vou aprendendo esta verdade importante: a pessoa mais rica não é aquela que tem muito, mas sim a que não precisa de nada.

(Tenham uma boa semana!)


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sábado, 3 de outubro de 2009

XXVII DOMINGO DO TEMPO COMUM (ano B)



Leitura do Livro do Génesis
(Gn 2,18-24)
Disse o Senhor Deus: «Não é bom que o homem esteja só: vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele». Então o Senhor Deus, depois de ter formado da terra todos os animais do campo e todas as aves do céu, conduziu-os até junto do homem, para ver como ele os chamaria, a fim de que todos os seres vivos fossem conhecidos pelo nome que o homem lhes desse. O homem chamou pelos seus nomes todos os animais domésticos, todas as aves do céu e todos os animais do campo. Mas não encontrou uma auxiliar semelhante a ele. Então o Senhor Deus fez descer sobre o homem um sono profundo e, enquanto ele dormia, tirou-lhe uma costela, fazendo crescer a carne em seu lugar. Da costela do homem o Senhor Deus formou a mulher e apresentou-a ao homem. Ao vê-la, o homem exclamou: «Esta é realmente osso dos meus ossos e a minha carne. Chamar-se-á mulher, porque foi tirada do homem». Por isso, o homem deixará pai e mãe, para se unir à sua esposa, e os dois serão uma só carne.


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 127 (128)

Refrão: O Senhor nos abençoe em toda a nossa vida.

Feliz de ti que temes o Senhor
e andas nos seus caminhos.
Comerás do trabalho das tuas mãos,
serás feliz e tudo te correrá bem.

Tua esposa será como videira fecunda
no íntimo do teu lar;
teus filhos como ramos de oliveira,
ao redor da tua mesa.

Assim será abençoado o homem que teme o Senhor.
De Sião o Senhor te abençoe:
vejas a prosperidade de Jerusalém todos os dias da tua vida;
e possas ver os filhos dos teus filhos. Paz a Israel.


Leitura da Epístola aos hebreus
(Heb 2,9-11)
Irmãos: Jesus, que, por um pouco, foi inferior aos Anjos, vemo-l’O agora coroado de glória e de honra por causa da morte que sofreu, pois era necessário que, pela graça de Deus, experimentasse a morte em proveito de todos. Convinha, na verdade, que Deus, origem e fim de todas as coisas, querendo conduzir muitos filhos para a sua glória, levasse à glória perfeita, pelo sofrimento, o Autor da salvação. Pois Aquele que santifica e os que são santificados procedam todos de um só. Por isso não Se envergonha de lhes chamar irmãos.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
(Mc 10,2-16)
Naquele tempo, Aproximaram-se de Jesus uns fariseus para O porem à prova e perguntaram-Lhe:«Pode um homem repudiar a sua mulher?» Jesus disse-lhes: «Que vos ordenou Moisés?» Eles responderam: «Moisés permitiu que se passasse um certificado de divórcio, para se repudiar a mulher». Jesus disse-lhes: «Foi por causa da dureza do vosso coração que ele vos deixou essa lei. Mas, no princípio da criação, ‘Deus fê-los homem e mulher. Por isso, o homem deixará pai e mãe para se unir à sua esposa, e os dois serão uma só carne’. Deste modo, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus uniu». Em casa, os discípulos interrogaram-n’O de novo sobre este assunto. Jesus disse-lhes então: «Quem repudiar a sua mulher e casar com outra, comete adultério contra a primeira. E se a mulher repudiar o seu marido e casar com outro, comete adultério». Apresentaram a Jesus umas crianças para que Ele lhes tocasse, mas os discípulos afastavam-nas. Jesus, ao ver isto, indignou-Se e disse-lhes: «Deixai vir a Mim as criancinhas, não as estorveis: dos que são como elas é o reino de Deus. Em verdade vos digo: Quem não acolher o reino de Deus como uma criança, não entrará nele». E, abraçando-as, começou a abençoá-las, impondo a mão sobre elas.


FIDELIDADE E PERDÃO
Até mesmo uma pessoa que não acredita em Jesus Cristo, consegue facilmente intuir a beleza e a força do ideal que Ele propõe. Tudo começa com um homem e uma mulher que se encontram. Nasce o amor e um dia escolhem-se um ao outro para criar uma comunidade de vida estável, indissolúvel, de profunda comunhão. Casam-se e a partir daquele momento, «já não são dois, mas uma só carne». É assim o ideal de matrimónio que a Igreja, desde o início da sua história, propõe aos seus fiéis: um ideal alto, bonito e ambicioso, a que corresponde um caminho muitas vezes árduo e exigente.

A Igreja não renuncia ao modelo de casamento apresentado por Jesus (não pode; não quer), mas reconhece a gradualidade do projecto e vê nas palavras de Cristo o “rumo” que cada casal deve dar à própria vida. Entre a realidade que vivemos quotidianamente e a proposta que escutámos no Evangelho, dificilmente encontramos uma perfeita sintonia, mas a nossa fé é caminho e o matrimónio não foge a esta regra. Um caminho feito de momentos bons e maus, bonitos e feios, alegres e tristes...

Apesar dos nossos esforços e da nossa boa vontade, infelizmente, nem sempre conseguimos ser fiéis aos ideais que Deus propõe. Em Janeiro de 2008 o Cardeal Tettamanzi, Arcebispo de Milão, numa carta pastoral aos esposos em situação de separação, divórcio e nova união escrevia o seguinte: «A Igreja sabe que, em certos casos, não só é lícito, mas inevitável decidir pela separação; para defender a dignidade da pessoa, evitar traumas mais profundos e manter a grandeza do matrimónio, que não se pode transformar numa série insustentável de agressões recíprocas».

A vida de todos nós está cheia de fracassos, de infidelidades, de falhas. A comunidade cristã não pode desamparar os irmãos e as irmãs que sofrem por um matrimónio falido, mas deve testemunhar continuamente a bondade e a misericórdia de Deus para com todos aqueles que (muitas vezes sem culpa) viram desmoronar-se o próprio projecto de amor. Não se trata de renunciar ao “ideal” que Deus propõe: trata-se de reconhecer os nossos limites e fragilidades, confiando que o amor, a compreensão e o perdão de Deus são muito mais fortes que os nossos erros e insucessos.


(Tenham uma boa semana!)


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sábado, 26 de setembro de 2009

XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM (ano B)



Leitura do Livro dos Números
(Nm 11,25-29)
Naqueles dias, o Senhor desceu na nuvem e falou com Moisés. Tirou uma parte do Espírito que estava nele e fê-lo poisar sobre setenta anciãos do povo. Logo que o Espírito poisou sobre eles, começaram a profetizar; mas não continuaram a fazê-lo. Tinham ficado no acampamento dois homens: um deles chamava-se Eldad e o outro Medad. O Espírito poisou também sobre eles, pois contavam-se entre os inscritos, embora não tivessem comparecido na tenda; e começaram a profetizar no acampamento. Um jovem correu a dizê-lo a Moisés: «Eldad e Medad estão a profetizar no acampamento». Então Josué, filho de Nun, que estava ao serviço de Moisés desde a juventude, tomou a palavra e disse: «Moisés, meu senhor, proíbe-os». Moisés, porém, respondeu-lhe: «Estás com ciúmes por causa de mim? Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta e que o Senhor infundisse o seu Espírito sobre eles!»


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 18 (19)

Refrão: Os preceitos do Senhor alegram o coração.

A lei do Senhor é perfeita,
ela reconforta a alma.
As ordens do Senhor são firmes,
dão sabedoria aos simples.

O temor do Senhor é puro
e permanece eternamente;
Os juízos do Senhor são verdadeiros,
todos eles são rectos.

Embora o vosso servo se deixe guiar por eles
e os observe com cuidado,
quem pode, entretanto, reconhecer os seus erros?
Purificai-me dos que me são ocultos.

Preservai também do orgulho o vosso servo,
para que não tenha poder algum sobre mim:
então serei irrepreensível
e imune de culpa grave.


Leitura da Epístola de São Tiago
(Tg 5,1-6)
Agora, vós, ó ricos, chorai e lamentai-vos, por causa das desgraças que vão cair sobre vós. As vossas riquezas estão apodrecidas e as vossas vestes estão comidas pela traça. O vosso ouro e a vossa prata enferrujaram-se, e a sua ferrugem vai dar testemunho contra vós e devorar a vossa carne como fogo. Acumulastes tesouros no fim dos tempos. Privastes do salário os trabalhadores que ceifaram as vossas terras. O seu salário clama; e os brados dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor do Universo. Levastes na terra uma vida regalada e libertina, cevastes os vossos corações para o dia da matança. Condenastes e matastes o justo e ele não vos resiste.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
(Mc 9,38-43.45-47-48)
Naquele tempo, João disse a Jesus: «Mestre, nós vimos um homem a expulsar os demónios em teu nome e procurámos impedir-lho, porque ele não anda connosco». Jesus respondeu: «Não o proibais; porque ninguém pode fazer um milagre em meu nome e depois dizer mal de Mim. Quem não é contra nós é por nós. Quem vos der a beber um copo de água, por serdes de Cristo, em verdade vos digo que não perderá a sua recompensa. Se alguém escandalizar algum destes pequeninos que crêem em Mim, melhor seria para ele que lhe atassem ao pescoço uma dessas mós movidas por um jumento e o lançassem ao mar. Se a tua mão é para ti ocasião de escândalo, corta-a; porque é melhor entrar mutilado na vida do que ter as duas mãos e ir para a Geena, para esse fogo que não se apaga. E se o teu pé é para ti ocasião de escândalo, corta-o; porque é melhor entrar coxo na vida do que ter os dois pés e ser lançado na Geena. E se um dos teus olhos é para ti ocasião de escândalo, deita-o fora; porque é melhor entrar no reino de Deus só com um dos olhos do que ter os dois olhos e ser lançado na Geena, onde o verme não morre e o fogo não se apaga».


«NÃO O PROIBAIS»
Num mundo onde a diversidade e o pluralismo são cada vez mais evidentes, a tentação de absolutizar a própria experiência torna-se quase irresistível. Uma tentação a que a Igreja não é imune. Nos últimos decénios as nossas comunidades paroquiais, outrora conformes e idênticas, foram “infiltradas” por numerosas e inovadoras experiências de fé, que o Espírito suscitou no interior da Igreja.

O pluralismo não é uma realidade que basta “tolerar”: a comunidade cristã deve valorizar o complexo das expressões de fé que a caracterizam, como um tesouro que enriquece a vida da comunidade. Erguer muros, fechar portas, excluir tudo aquilo que é diferente... estes comportamentos são denunciados por Jesus como “anti-evangélicos” e ao anseio de uniformidade e monolitismo, Cristo contrapõe a ideia de comunhão na diversidade.

O caminho neocatecumenal, a renovação carismática ou o movimento dos folcolares (só para citar alguns) podem revelar-se uma verdadeira lufada de ar fresco para uma comunidade paroquial “atrofiada” num velho modelo pastoral reproposto ano após ano. Devemos acolher com alegria a novidade que estes grupos representam, sem nunca porém renunciar ao nosso espírito crítico, conscientes de que qualquer realidade nova apresentará sempre uma série de arestas por limar. Ao mesmo tempo não nos podemos esquecer que o perigo da uniformização está sempre ali, ao virar da esquina...

Não são só as comunidades paroquiais que podem cair na tentação de fechar-se e absolutizar o próprio modelo pastoral: o mesmo pode acontecer com todos os novos movimentos. Um grupo semelhante a uma seita arrogante, fechada, intolerante, fanática, que se arroga a posse exclusiva de Deus e das suas propostas não pode ser expressão da Igreja de Cristo. Não existe um só modo de viver a fé cristã, ou um único percurso espiritual fiel ao Evangelho. Nenhum movimento, grupo paroquial, ou comunidade cristã pode pretender o monopólio de Jesus e da Sua proposta ou olhar com desprezo as várias declinações que o Espírito Santo gerou em contextos, culturas e sensibilidades diferentes.

“Comunhão na diversidade” significa olhar para a própria comunidade como se esta fosse uma orquestra musical. Temos as cordas, os sopros, a percussão... toda uma série de instrumentos diferentes, com timbres bem distintos, mas que se fundem numa única melodia harmoniosa. Todos os instrumentos musicais devem encontrar o próprio espaço no interior da orquestra e receber do maestro a indicação exacta de quando e como inserir-se na sinfonia que juntos estão a executar. Se cada um decide ignorar o conjunto e tocar sozinho para o seu lado, o resultado final é previsível: uma grande barulheira!


(Tenham uma boa semana! E tentem não desafinar...)



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sábado, 19 de setembro de 2009

XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM (ano B)



Leitura do Livro da Sabedoria
(Sab 2,12.17-20)
Disseram os ímpios: «Armemos ciladas ao justo, porque nos incomoda e se opõe às nossas obras; censura-nos as transgressões à lei e repreende-nos as faltas de educação. Vejamos se as suas palavras são verdadeiras, observemos como é a sua morte. Porque, se o justo é filho de Deus, Deus o protegerá e o livrará das mãos dos seus adversários. Provemo-lo com ultrajes e torturas para conhecermos a sua mansidão e apreciarmos a sua paciência. Condenemo-lo à morte infame, porque, segundo diz, Alguém virá socorrê-lo.


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 53 (54)

Refrão: O Senhor sustenta a minha vida.

Senhor, salvai-me pelo vosso nome,
pelo vosso poder fazei-me justiça.
Senhor, ouvi a minha oração,
atendei às palavras da minha boca.

Levantaram-se contra mim os arrogantes
e os violentos atentaram contra a minha vida.
Não têm a Deus na sua presença.

Deus vem em meu auxílio,
o Senhor sustenta a minha vida.
De bom grado oferecerei sacrifícios,
cantarei a glória do vosso nome, Senhor.


Leitura da Epístola de São Tiago
(Tiago 3,16-4,3)
Caríssimos: Onde há inveja e rivalidade, também há desordem e toda a espécie de más acções. Mas a sabedoria que vem do alto é pura, pacífica, compreensiva e generosa, cheia de misericórdia e de boas obras, imparcial e sem hipocrisia. O fruto da justiça semeia-se na paz para aqueles que praticam a paz. De onde vêm as guerras? De onde procedem os conflitos entre vós? Não é precisamente das paixões que lutam nos vossos membros? Cobiçais e nada conseguis: então assassinais. Sois invejosos e não podeis obter nada: então entrais em conflitos e guerras. Nada tendes, porque nada pedis. Pedis e não recebeis, porque pedis mal, pois o que pedis é para satisfazer as vossas paixões.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
(Mc 9,30-37)
Naquele tempo, Jesus e os seus discípulos caminhavam através da Galileia, mas Ele não queria que ninguém o soubesse; porque ensinava os discípulos, dizendo-lhes: «O Filho do homem vai ser entregue às mãos dos homens e eles vão matá-l’O; mas Ele, três dias depois de morto, ressuscitará». Os discípulos não compreendiam aquelas palavras e tinham medo de O interrogar. Quando chegaram a Cafarnaum e já estavam em casa, Jesus perguntou-lhes: «Que discutíeis no caminho?» Eles ficaram calados, porque tinham discutido uns com os outros sobre qual deles era o maior. Então, Jesus sentou-Se, chamou os Doze e disse-lhes: «Quem quiser ser o primeiro será o último de todos e o servo de todos». E, tomando uma criança, colocou-a no meio deles, abraçou-a e disse-lhes: «Quem receber uma destas crianças em meu nome é a Mim que recebe; e quem Me receber não Me recebe a Mim, mas Àquele que Me enviou».


SER O MAIOR...
Se já tiveram a oportunidade de participar num curso bíblico, provavelmente já ouviram falar no “critério do embaraço”, um critério que nos ajuda a determinar a autenticidade de um episódio (ou de uma afirmação) na Sagrada Escritura. Normalmente quem conta a própria história tende a idealizar a realidade que descreve. Portanto, quando encontramos no Novo Testamento textos que descrevem erros ou defeitos dos apóstolos, podemos atribuir um alto grau de autenticidade histórica a esses episódios, pois ninguém redigiria páginas descrevendo as próprias “más figuras” se essas não tivessem realmente acontecido. Se seguirmos a lógica do “critério do embaraço”, então o Evangelho deste domingo é, sem sombra de dúvida, “autêntico”, ou seja, fiel ao que realmente aconteceu.

Depois do primeiro anúncio da paixão que escutámos na semana passada, Jesus descreve pela segunda vez o destino de morte e ressurreição que o espera em Jerusalém. Ele insiste que a sua missão não inclui triunfos e glórias humanas, mas sim, a obediência total à vontade do Pai e a oferta da Sua vida como dom de amor. Mas entretanto, o que fazem os apóstolos? Discutem «uns com os outros sobre qual deles era o maior»... (Embaraçante, não acham?)

É preciso ter em conta que a questão da hierarquização dos postos e das pessoas era um problema sério na sociedade palestina de então. Nas assembleias, na sinagoga, nos banquetes, a “ordem” de apresentação das pessoas estava rigorosamente definida e, com frequência, geravam-se conflitos inultrapassáveis por causa de pretensas infracções ao protocolo hierárquico. Os discípulos estavam profundamente imbuídos desta lógica. Uma vez que se aproximava o “triunfo” do Messias e iam ser distribuídos os postos-chave na cadeia de poder do reino messiânico, os apóstolos queriam ter o quadro hierárquico claro.

Ainda hoje convivemos com esta mentalidade e com a tentação diária de “ser os maiores”, de ocupar os primeiros postos e de dominar sobre os outros, mas temos de converter esta mentalidade ao ensinamento de Jesus: «quem quiser ser o primeiro, será o último de todos e o servo de todos».

Na comunidade cristã, a única grandeza é a grandeza de quem, com humildade e simplicidade, faz da própria vida um serviço aos irmãos. Todos temos de trabalhar para que na Igreja não hajam distinções baseadas no dinheiro, na beleza, na cultura, na posição social… Jesus Cristo deseja uma Igreja de irmãos iguais, a quem a comunidade confia serviços diversos em vista do bem de todos. Aquilo que nos deve mover é a vontade de servir, de partilhar com os irmãos os dons que Deus nos concedeu.

Jesus completa a sua lição com um gesto: toma uma criança, coloca-a no meio do grupo, abraça-a e convida-nos todos a acolhermos as “crianças”, pois quem acolhe uma criança acolhe o próprio Jesus e acolhe o Pai. Na sociedade palestina de então, as crianças eram seres sem direitos que não contavam do ponto de vista legal (pelo menos enquanto não tivessem feito o “bar mitzvah”, a cerimónia que definia a pertença de um rapaz à comunidade do Povo de Deus). Eram, portanto, um símbolo dos débeis, dos sem direitos, dos indefesos, dos marginalizados. No contexto da conversa que Jesus está a ter com os discípulos, este gesto significa o seguinte: somos “grandes”, não quando temos poder ou autoridade sobre os outros, mas quando abraçamos, quando amamos, quando servimos os pequenos, os pobres, os marginalizados, aqueles que o mundo rejeita e abandona.


(Tenham uma boa semana!)


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sábado, 12 de setembro de 2009

XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM (ano B)



Leitura do Livro de Isaías
(Is 50,5-9a)
O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio e por isso não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido. O meu advogado está perto de mim. Pretende alguém instaurar-me um processo? Compareçamos juntos. Quem é o meu adversário? Que se apresente! O Senhor Deus vem em meu auxílio. Quem ousará condenar-me?


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 114 (116)

Refrão: Andarei na presença do Senhor sobre a terra dos vivos.

Amo o senhor,
porque ouviu a voz da minha súplica.
Ele me atendeu
no dia em que O invoquei.

Apertaram-me os laços da morte,
caíram sobre mim as angústias do além, vi-me na aflição e na dor.
Então invoquei o Senhor:
«Senhor, salvai a minha alma».

Justo e compassivo é o Senhor,
o nosso Deus é misericordioso.
O Senhor guarda os simples:
estava sem forças e o Senhor salvou-me.

Livrou da morte a minha alma,
das lágrimas os meus olhos, da queda os meus pés.
Andarei na presença do Senhor,
sobre a terra dos vivos.


Leitura da Epístola de São Tiago
(Tiago 2,14-18)
Meus irmãos: De que serve a alguém dizer que tem fé, se não tem obras? Poderá essa fé obter-lhe a salvação? Se um irmão ou uma irmã não tiverem que vestir e lhes faltar o alimento de cada dia, e um de vós lhe disser: «Ide em paz. Aquecei-vos bem e saciai-vos», sem lhes dar o necessário para o corpo, de que lhes servem as vossas palavras? Assim também a fé sem obras está completamente morta. Mas dirá alguém: «Tu tens a fé e eu tenho as obras». Mostra-me a tua fé sem obras, que eu, pelas obras, te mostrarei a minha fé.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
(Mc 8,27-35)
Naquele tempo, Jesus partiu com os seus discípulos para as povoações de Cesareia de Filipe. No caminho, fez-lhes esta pergunta: «Quem dizem os homens que Eu sou?» Eles responderam: «Uns dizem João Baptista; outros, Elias; e outros, um dos profetas». Jesus então perguntou-lhes: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» Pedro tomou a palavra e respondeu: «Tu és o Messias». Ordenou-lhes então severamente que não falassem d’Ele a ninguém. Depois, começou a ensinar-lhes que o Filho do homem tinha de sofrer muito, de ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos escribas; de ser morto e ressuscitar três dias depois. E Jesus dizia-lhes claramente estas coisas. Então, Pedro tomou-O à parte e começou a contestá-l’O. Mas Jesus, voltando-Se e olhando para os discípulos, repreendeu Pedro, dizendo: «Vai-te, Satanás, porque não compreendes as coisas de Deus, mas só as dos homens». E, chamando a multidão com os seus discípulos, disse-lhes: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Na verdade, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; mas quem perder a vida, por causa de Mim e do Evangelho, salvá-la-á».


LÓGICA DA CRUZ
O Evangelho deste domingo narra-nos o episódio que “divide as águas” entre a primeira e a segunda parte da obra de Marcos.

Nos primeiros oito capítulos fomos convidados pelo evangelista a participar numa viagem (mais catequética do que geográfica) onde acompanhámos Jesus nas suas deslocações pela região da Galileia, escutámos a Sua mensagem de Salvação e, aos poucos, fomos tomando consciência da verdadeira identidade do jovem carpinteiro de Nazaré. Este percurso de descoberta termina hoje, com a confissão messiânica de Pedro, em Cesareia de Filipe: «Tu és o Messias».

“Fechada” esta primeira secção entramos imediatamente no tema da segunda parte da obra de Marcos (Mc 8,31-16,8). O objectivo agora é explicar que Jesus, além de ser o Messias libertador, é também o “Filho de Deus”. No entanto, Ele não veio ao mundo para cumprir um destino de triunfos e de glórias humanas, mas para oferecer a sua vida em dom de amor aos homens. O ponto alto desta “catequese” será a afirmação do centurião romano junto da cruz: «realmente este homem era o Filho de Deus» (Mc 15,39).

Quando Pedro responde, «Tu és o Messias», sabemos que a sua afirmação é correcta. No entanto, esta frase podia prestar-se a graves equívocos, numa altura em que o título de Messias estava conotado com esperanças político-nacionalistas. Por isso, os discípulos recebem ordens para não falarem disso a ninguém. Era preciso clarificar, depurar e completar a catequese sobre o Messias e a sua missão, para evitar desilusões.

Tal como no passado, também hoje não basta “acreditar” em Jesus, se depois a nossa fé se baseia numa imagem deturpada de Deus e do seu projecto de Salvação para os homens.

«Vai-te, Satanás» são as duras palavras que Jesus dirige a Pedro quando este contesta a “lógica” da Sua missão messiânica. O apóstolo está a repetir as tentações que Jesus experimentou no início do seu ministério durante o período passado no deserto (cf. Mc 1,13). Somos convidados, junto com Simão Pedro, a corrigir a nossa perspectiva de Jesus e do plano do Pai que Ele vem realizar.

A lógica dos homens aposta no poder, no domínio, no triunfo, no êxito. Garante-nos que a vida só tem sentido se estivermos do lado dos vencedores, se tivermos dinheiro em abundância, se formos reconhecidos e incensados pelas multidões, se tivermos acesso às festas onde se reúne a alta sociedade. A lógica de Jesus aposta na entrega da vida a Deus e aos irmãos; garante-nos que a vida só faz sentido se assumirmos os valores do Reino e vivermos no amor, na partilha, no serviço, na solidariedade. Neste contexto, a cruz é expressão de um amor total, radical, que se dá até à morte; “tomar a cruz” significa entregar a própria vida por amor a Deus e para bem dos irmão. A “lógica da cruz” convida-nos a acreditar que oferecer a vida por amor não é perdê-la, mas ganhá-la.

Na nossa vida de cada dia, estas duas perspectivas confrontam-se, a par e passo… Qual é a tua escolha?


(Tenham uma boa semana!)



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sábado, 5 de setembro de 2009

XXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM (ano B)



Leitura do Livro de Isaías
(Is 35,4-7a)
Dizei aos corações perturbados: «Tende coragem, não temais. Aí está o vosso Deus; vem para fazer justiça e dar a recompensa; Ele próprio vem salvar-nos». Então se abrirão os olhos dos cegos e se desimpedirão os ouvidos dos surdos. Então o coxo saltará como um veado e a língua do mudo cantará de alegria. As águas brotarão no deserto e as torrentes na aridez da planície; a terra seca transformar-se-á em lago e a terra árida em nascentes de água.


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 145 (146)

Refrão:Ó minha alma, louva o Senhor.

O Senhor faz justiça aos oprimidos,
dá pão aos que têm fome
e a liberdade aos cativos.

O Senhor ilumina os olhos dos cegos,
o Senhor levanta os abatidos,
o Senhor ama os justos.

O Senhor protege os peregrinos,
ampara o órfão e a viúva
e entrava o caminho aos pecadores.

O Senhor reina eternamente;
o teu Deus, ó Sião,
é rei por todas as gerações.


Leitura da Epístola de São Tiago
(Tiago 2,1-5)
Meus irmãos: A fé em Nosso Senhor Jesus Cristo não deve admitir acepção de pessoas. Pode acontecer que na vossa assembleia entre um homem bem vestido e com anéis de ouro e entre também um pobre e mal vestido; talvez olheis para o homem bem vestido e lhe digais: «Tu, senta-te aqui em bom lugar», e ao pobre: «Tu, fica aí de pé», ou então: «Senta-te aí, abaixo do estrado dos meus pés». Não estareis a estabelecer distinções entre vós e a tornar-vos juízes com maus critérios? Escutai, meus caríssimos irmãos: Não escolheu Deus os pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do reino que Ele prometeu àqueles que O amam?


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
(Mc 7,31-37)
Naquele tempo, Jesus deixou de novo a região de Tiro e, passando por Sidónia, veio para o mar da Galileia, atravessando o território da Decápole. Trouxeram-Lhe então um surdo que mal podia falar e suplicaram-Lhe que impusesse as mãos sobre ele. Jesus, afastando-Se com ele da multidão, meteu-lhe os dedos nos ouvidos e com saliva tocou-lhe a língua. Depois, erguendo os olhos ao Céu, suspirou e disse-lhe: «Effathá», que quer dizer «Abre-te». Imediatamente se abriram os ouvidos do homem, soltou-se-lhe a prisão da língua e começou a falar correctamente. Jesus recomendou que não contassem nada a ninguém. Mas, quanto mais lho recomendava, tanto mais intensamente eles o apregoavam. Cheios de assombro, diziam: «Tudo o que faz é admirável: faz que os surdos oiçam e que os mudos falem».


EFFATHÁ
No tempo de Jesus, predominava uma mentalidade “geográfica” da santidade: quanto mais longe de Jerusalém, menores eram as possibilidades de salvação. Quem habitava na Judeia poderia ainda salvar-se, mas as populações da Samaria e da Galileia (regiões de fronteira, habitadas por populações mistas) dificilmente encontrariam benevolência aos olhos de Deus.

A “Decápole”, onde se desenrola o episódio deste Domingo, era o nome dado a uma liga de dez cidades, formada no ano 63 a.C., depois da conquista da Palestina pelos romanos. As “dez cidades” que formavam esta liga eram helenísticas e não estavam sujeitas às leis judaicas. Eram território pagão, considerado pelos judeus completamente à margem dos caminhos da salvação.

Aos olhos de um judeu comum havia ainda um outro elemento que tornava altamente improvável a acção de Deus neste contexto: a teologia oficial hebraica considerava as enfermidades físicas como consequência do pecado e um surdo-mudo era visto como um “impuro”, um maldito, distante anos-luz da graça divina.

Todo este enquadramento ajuda-nos a perceber a singularidade do milagre operado por Jesus. Não é “apenas” a narração de uma cura prodigiosa, mas é uma catequese clara e concreta onde aprendemos através de uma “parábola vivente” que Deus não faz distinção entre povos e que a Sua salvação está ao alcance de todos os homens e mulheres, até mesmo daqueles que o senso comum excluiria de qualquer possibilidade de redenção.

De acordo com Marcos, Jesus teria pronunciado a palavra “effathá” (“abre-te”), quando abriu os ouvidos e “soltou” a língua do surdo-mudo. Não se trata de uma fórmula mágica, com especiais virtudes curativas. “Effathá” é um convite ao homem fechado no seu mundo pessoal a abrir o coração à vida nova da relação com Deus e com os irmãos. É uma proposta feita a todos nós para que saiamos dos nossos esquemas rígidos, das nossas visões legalistas (e elitistas) da fé, para que façamos da nossa vida uma história de comunhão com Deus e de partilha com os irmãos.

Nos quatro evangelhos encontramos várias referências à “surpresa” que o último dia nos reserva, quando se tornar claro que muitos daqueles que considerávamos distantes da salvação (publicanos, prostitutas, pagãos, estrangeiros...) são na realidade os mais queridos aos olhos de Deus e precedem-nos no Reino dos céus. “Effathá!” Abre-te, querido irmão, à novidade de Deus! Abandona os teus esquemas de exclusão e abraça a mensagem de fraternidade sem fronteiras que Jesus revelou com a sua vida.

(Tenham uma boa semana! E se quiserem conhecer mais da geografia do Novo Testamento, cliquem AQUI.)



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