sábado, 31 de outubro de 2009

SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS (ano B)



Leitura do Apocalipse de São João
(Ap 7,2-4.9-14)
Eu, João, vi um Anjo que subia do Nascente, trazendo o selo do Deus vivo. Ele clamou em alta voz aos quatro Anjos a quem foi dado o poder de causar dano à terra e ao mar: «Não causeis dano à terra, nem ao mar, nem às árvores, até que tenhamos marcado na fronte os servos do nosso Deus». E ouvi o número dos que foram marcados: cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel. Depois disto, vi uma multidão imensa, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé, diante do trono e na presença do Cordeiro, vestidos com túnicas brancas e de palmas na mão. E clamavam em alta voz: «A salvação ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro». Todos os Anjos formavam círculo em volta do trono, dos Anciãos e dos quatro Seres Vivos. Prostraram-se diante do trono, de rosto por terra, e adoraram a Deus, dizendo: «Amen! A bênção e a glória, a sabedoria e a acção de graças, a honra, o poder e a força ao nosso Deus, pelos séculos dos séculos. Amen!». Um dos Anciãos tomou a palavra e disse-me: «Esses que estão vestidos de túnicas brancas, quem são e de onde vieram?». Eu respondi-lhe: «Meu Senhor, vós é que o sabeis». Ele disse-me: «São os que vieram da grande tribulação, os que lavaram as túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro».


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 23 (24)
Refrão: Esta é a geração dos que procuram o Senhor.

Do Senhor é a terra e o que nela existe,
o mundo e quantos nele habitam.
Ele a fundou sobre os mares
e a consolidou sobre as águas.

Quem poderá subir à montanha do Senhor?
Quem habitará no seu santuário?
O que tem as mãos inocentes e o coração puro,
o que não invocou o seu nome em vão.

Este será abençoado pelo Senhor
e recompensado por Deus, seu Salvador.
Esta é a geração dos que O procuram,
que procuram a face de Deus.


Leitura da Primeira Epístola de São João
(1Jo 3,1-3)
Caríssimos: Vede que admirável amor o Pai nos consagrou em nos chamar filhos de Deus. E somo-lo de facto. Se o mundo não nos conhece, é porque O não conheceu a Ele. Caríssimos, agora somos filhos de Deus e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Mas sabemos que, na altura em que se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porque O veremos tal como Ele é. Todo aquele que tem n’Ele esta esperança purifica-se a si mesmo, para ser puro, como ele é puro.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 5,1-12)
Naquele tempo, ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se. Rodearam-n’O os discípulos e Ele começou a ensiná-los, dizendo:
«Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados os humildes,
porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que choram,
porque serão consolados.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus.
Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa,
vos insultarem, vos perseguirem
e, mentindo, disserem todo o mal contra vós.
Alegrai-vos e exultai,
porque é grande nos Céus a vossa recompensa».




Este fim-de-semana estou em Roma para um “tríduo” de eventos vocacionais: ontem à noite, no meu antigo seminário, 7 confrades scalabrinianos foram instituídos no ministério do leitorado; esta manhã, na capela do Pontifício Colégio Etiópico, um caro amigo foi ordenado diácono; amanhã, na paróquia de S. Luzia, um outro jovem missionário scalabriniano professará os votos perpétuos na nossa congregação.

Em vez do comentário que normalmente acompanha as leituras dominicais, este sábado proponho-vos as palavras que Bento XVI pronunciou durante a oração do Ângelus, na Praça de São Pedro, o ano passado, por ocasião da Solenidade de Todos os Santos.

(Tenham uma boa semana!)


Queridos irmãos e irmãs:
Celebramos hoje com grande alegria a festa de Todos os Santos. Quando uma pessoa visita um jardim botânico, fica estupefacta diante da variedade de plantas e flores, e espontaneamente pensa na fantasia do Criador, que fez da terra um jardim maravilhoso. Um sentimento análogo invade-nos quando consideramos o espectáculo da santidade: o mundo parece-nos como um «jardim», onde o Espírito de Deus suscitou com fantasia admirável uma multidão de santos e santas, de todas as idades e condições sociais, de todas as línguas, povos e culturas. Cada um é único, com a singularidade da própria personalidade humana e do próprio carisma espiritual. Todos têm impresso, contudo, o «selo» de Jesus, ou seja, a marca de seu amor, testemunhado através da Cruz. Todos estão na alegria, numa festa sem fim, mas, como Jesus, conquistaram esta meta passando pela fadiga e pela prova, enfrentando, cada um, a própria parte de sacrifícios para participar da glória da ressurreição.

A solenidade de Todos os Santos afirmou-se no primeiro milénio cristão como celebração colectiva dos mártires. Já em 609, em Roma, o Papa Bonifácio IV havia consagrado o Panteão, dedicando-o a Nossa Senhora e a todos os mártires. Este martírio, por outro lado, podemos entendê-lo em sentido amplo, ou seja, como amor a Cristo sem reservas, amor que se expressa no dom total de si mesmo a Deus e aos irmãos. Esta meta espiritual, à qual todos os baptizados são chamados, alcança-se seguindo o caminho das «bem-aventuranças» evangélicas, que a liturgia indica na solenidade de hoje. É o mesmo caminho traçado por Jesus e que os santos e as santas se esforçaram em percorrer, conscientes dos seus limites humanos. Na sua existência terrena, de facto, foram misericordiosos, puros de coração, trabalhadores pela paz, perseguidos pela justiça. E Deus fê-los partícipes da sua própria felicidade: Agora são consolados, herdeiros da terra, saciados, perdoados vêem Deus, de quem são filhos. Em poucas palavras: «deles é o Reino dos Céus».

Neste dia sentimos reavivar-se em nós a atracção pelo Céu, que nos impulsiona a apertar o passo de nossa peregrinação terrena. Sentimos acender-se nos nossos corações o desejo de unir-nos para sempre à família dos santos, da qual já agora temos a graça de fazer parte. Como diz um célebre canto espiritual: «Quando chegar a multidão dos vossos santos, oh, como eu gostaria, Senhor, de estar entre eles!». Que esta bela aspiração possa arder em todos os cristãos, e ajude-nos a superar todas as dificuldades, todo o temor, toda a tribulação. Queridos amigos, coloquemos a nossa mão na mão materna de Maria, Rainha de todos os santos, e deixemo-nos conduzir por Ela à pátria celeste, em companhia dos espíritos bem-aventurados «de todas as nações, povos e línguas». E unamos à nossa oração a lembrança dos nossos queridos falecidos, que comemoraremos amanhã.


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sábado, 24 de outubro de 2009

XXX DOMINGO DO TEMPO COMUM (ano B)



Leitura do Livro de Jeremias
(Jer 31,7-9)
Eis o que diz o Senhor: «Soltai brados de alegria por causa de Jacob, enaltecei a primeira das nações. Fazei ouvir os vossos louvores e proclamai: ‘O Senhor salvou o seu povo, o resto de Israel’. Vou trazê-los das terras do Norte e reuni-los dos confins do mundo. Entre eles vêm o cego e o coxo, a mulher que vai ser mãe e a que já deu à luz. É uma grande multidão que regressa. Eles partiram com lágrimas nos olhos e Eu vou trazê-los no meio das consolações. Levá-los-ei às águas correntes, por caminho plano em que não tropecem. Porque Eu sou um Pai para Israel e Efraim é o meu primogénito».


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 125 (126)
Refrão: Grandes maravilhas fez por nós o Senhor, por isso exultamos de alegria.

Quando o Senhor fez regressar os cativos de Sião,
parecia-nos viver um sonho.
Da nossa boca brotavam expressões de alegria
e dos nossos lábios cânticos de júbilo.

Diziam então os pagãos:
«O Senhor fez por eles grandes coisas».
Sim, grandes coisas fez por nós o Senhor,
estamos exultantes de alegria.

Fazei regressar, Senhor, os nossos cativos,
como as torrentes do deserto.
Os que semeiam em lágrimas
recolhem com alegria.

À ida vão a chorar,
levando as sementes;
à volta vêm a cantar,
trazendo os molhos de espigas.


Leitura da Epístola aos Hebreus
(Heb 5,1-6)
Todo o sumo sacerdote, escolhido de entre os homens, é constituído em favor dos homens, nas suas relações com Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados. Ele pode ser compreensivo para com os ignorantes e os transviados, porque também ele está revestido de fraqueza; e, por isso, deve oferecer sacrifícios pelos próprios pecados e pelos do seu povo. Ninguém atribui a si próprio esta honra, senão quem foi chamado por Deus, como Abraão. Assim também, não foi Cristo que tomou para Si a glória de Se tornar sumo sacerdote; deu-Lha Aquele que Lhe disse: «Tu és meu Filho, Eu hoje Te gerei», e como disse ainda noutro lugar: «Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec».


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
(Mc 10,46-52)
Naquele tempo, quando Jesus ia a sair de Jericó com os discípulos e uma grande multidão, estava um cego, chamado Bartimeu, filho de Timeu, a pedir esmola à beira do caminho. Ao ouvir dizer que era Jesus de Nazaré que passava, começou a gritar: «Jesus, Filho de David, tem piedade de mim». Muitos repreendiam-no para que se calasse. Mas ele gritava cada vez mais: «Filho de David, tem piedade de mim». Jesus parou e disse: «Chamai-O». Chamaram então o cego e disseram-lhe: «Coragem! Levanta-te, que Ele está a chamar-te». O cego atirou fora a capa, deu um salto e foi ter com Jesus. Jesus perguntou-lhe: «Que queres que Eu te faça?» O cego respondeu-Lhe: «Mestre, que eu veja». Jesus disse-lhe: «Vai: a tua fé te salvou». Logo ele recuperou a vista e seguiu Jesus pelo caminho.


«Procurei o SENHOR e Ele respondeu-me» - Salmo 34 (33)
Milão é uma cidade muito rica... onde mora (e mendiga) muita gente pobre. Alguns mendigos são muito insistentes: com a mão estendida e o rosto triste, esperam-te junto aos semáforos, caminham ao teu lado na rua ou permanecem de pé junto às mesas das esplanadas, na esperança de que uma moeda (por aborrecimento ou generosidade, não importa) mais cedo ou mais tarde, “caia” da carteira.

Há dois mil anos atrás as coisas não eram muito diferentes. Bartimeu era um destes mendigos: um pedinte “profissional” que mendigava esmolas aos peregrinos que passavam por Jericó a caminho de Jerusalém. Um pobre cego, conhecido por todos, que vivia dos tostões que os romeiros lhe alcançavam. Porém, algo dentro dele acordou quando ouviu dizer que passava Jesus Cristo: decidiu não estender apenas a mão, como sempre fazia, para pedir uma moeda. Saiu da sua rotina habitual, parou a usual cantilena e, estranhamente, começou a gritar como um louco: «Jesus, Filho de David, tem piedade de mim».

Provavelmente, diante daquele estranho maltrapilho que importunava o nosso Mestre, também teríamos tido a mesma reacção repressiva dos apóstolos. Podemos imaginar como lhe ralhavam: «Cala-te! Não O incomodes!». Mas Bartimeu não desistia e gritava cada vez mais alto: «Jesus, Filho de David, tem piedade de mim».

Impressiona-me muito a tenacidade deste homem. Nunca encontrou Jesus antes, mas certamente ouviu falar dele e dos seus milagres. A possibilidade de mudar de vida, de sair da escuridão, de recuperar a vista dá-lhe força e alento. Bartimeu não sabe se Jesus o escutará, mas tem de tentar; não pode ficar em silêncio. A aposta em jogo é demasiado alta e por isso ele grita e implora por um novo começo; uma nova vida.

Nem sempre nas nossas comunidades vamos encontrar pessoas acolhedoras e simpáticas. Por vezes deparamo-nos com autênticos muros viventes que nos tentam silenciar e escandalizam-nos com a própria falta de caridade e compaixão. Diante deste cenário repressivo e anti-evangélico a tentação de abandonar tudo e desistir é enorme. Mas se a nossa fé é verdadeira; se realmente acreditamos que Jesus Cristo é o único que pode oferecer luz, sentido, vida nova, então temos que seguir o exemplo de Bartimeu e não renunciar à nossa chance de encontrar o Senhor. Temos de ser firmes, perseverar e dar o nosso contributo para que a comunidade melhore, cresça e se torne mais autêntica e santa.

Não desistas. Não te cales. Tu és a Igreja e a Igreja precisa de ti.

(Boa semana!)


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sábado, 17 de outubro de 2009

XXIX DOMINGO DO TEMPO COMUM (ano B)


Leitura do Livro de Isaías
(Is 53,10-11)
Aprouve ao Senhor esmagar o seu Servo pelo sofrimento. Mas, se oferecer a sua vida como vítima de expiação, terá uma descendência duradoira, viverá longos dias, e a obra do Senhor prosperará em suas mãos. Terminados os sofrimentos, verá a luz e ficará saciado. Pela sua sabedoria, o Justo, meu Servo, justificará a muitos e tomará sobre si as suas iniquidades.


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 32 (33)
Refrão: Desça sobre nós a vossa misericórdia, porque em Vós esperamos, Senhor.

A palavra do Senhor é recta,
da fidelidade nascem as suas obras.
Ele ama a justiça e a rectidão:
a terra está cheia da bondade do senhor.

Os olhos do Senhor estão voltados para os que O temem,
para os que esperam na sua bondade,
para libertar da morte as suas almas
e os alimentar no tempo da fome.

A nossa alma espera o Senhor:
Ele é o nosso amparo e protector.
Venha sobre nós a vossa bondade,
porque em Vós esperamos, Senhor.

Leitura da Epístola aos Hebreus
(Heb 4,14-16)
Irmãos: Tendo nós um sumo sacerdote que penetrou os Céus, Jesus, Filho de Deus, permaneçamos firmes na profissão da nossa fé. Na verdade, nós não temos um sumo sacerdote incapaz de se compadecer das nossas fraquezas. Pelo contrário, Ele mesmo foi provado em tudo, à nossa semelhança, excepto no pecado. Vamos, portanto, cheios de confiança ao trono da graça, a fim de alcançarmos misericórdia e obtermos a graça de um auxílio oportuno.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
(Mc 10,35-45)
Naquele tempo, Tiago e João, filhos de Zebedeu, aproximaram-se de Jesus e disseram-Lhe: «Mestre, nós queremos que nos faças o que Te vamos pedir». Jesus respondeu-lhes: «Que quereis que vos faça?» Eles responderam: «Concede-nos que, na tua glória, nos sentemos um à tua direita e outro à tua esquerda». Disse-lhes Jesus: «Não sabeis o que pedis. Podeis beber o cálice que Eu vou beber e receber o baptismo com que Eu vou ser baptizado?» Eles responderam-Lhe: «Podemos». Então Jesus disse-lhes: «Bebereis o cálice que Eu vou beber e sereis baptizados com o baptismo com que Eu vou ser baptizado. Mas sentar-se à minha direita ou à minha esquerda não Me pertence a Mim concedê-lo; é para aqueles a quem está reservado». Os outros dez, ouvindo isto, começaram a indignar-se contra Tiago e João. Jesus chamou-os e disse-lhes: «Sabeis que os que são considerados como chefes das nações exercem domínio sobre elas e os grandes fazem sentir sobre elas o seu poder. Não deve ser assim entre vós: Quem entre vós quiser tornar-se grande, será vosso servo, e quem quiser entre vós ser o primeiro, será escravo de todos; porque o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de todos».


BIS
Há um mês atrás falávamos dos apóstolos que discutiam sobre quem seria o maior. Quatro semanas depois, o tema do poder repete-se novamente: João e Tiago pedem a Jesus um lugar de destaque no novo reino: pretendem ser “vices” na presidência da nova realidade política que (sonham) nascerá com Cristo. Os outros discípulos indignam-se com o pedido dos dois irmãos, mas esta reacção dificilmente demonstra maior “maturidade evangélica”: provavelmente zangam-se porque tinham as mesmas pretensões... também queriam ser chefes!

Neste momento, o pedido dos dois irmãos é ditado pela ingenuidade: «Não sabeis o que pedis». Todavia, antes de repetir a lição da autoridade como serviço, Jesus indaga sobre a fé que anima aquele pedido tão arrojado. No contexto bíblico, “beber o mesmo cálice” significa partilhar o destino de Jesus; “receber o mesmo baptismo” exprime participação na Sua paixão e morte. João e Tiago terão de purificar (e muito!) a própria visão do Reino de Deus, mas Jesus sabe que a coragem, integridade e firmeza dos dois irmãos destina-lhes um lugar de destaque na história da Igreja.
Ora vejamos:

Tiago (também conhecido como Tiago Maior, Santiago de Compostela, ou São Tiago, o Grande) será um dos primeiros mártires da Igreja, condenado à morte por Herodes Agripa I e decapitado em Jerusalém por volta do ano 44 (cf. At 12,2).

João (o mais novo dos Doze, mais tarde conhecido como São João Evangelista ou Apóstolo João), depois da morte do seu irmão, viajou para a Ásia menor, onde guiou por muitos anos a importante comunidade cristã de Éfeso. Além do “Evangelho segundo João”, também escreveu as três epístolas de João e o livro do Apocalipse. Conheceu a prisão, a tortura e o exílio, mas nunca renunciou ao anúncio entusiasta do Evangelho.

Por volta do ano 55, S. Paulo na sua carta aos Gálatas (Gal 2,9) refere-se a Tiago e a João como “colunas” da Igreja. É uma expressão curiosa: até parece que os dois irmãos alcançaram o que haviam pedido a Jesus; mas o relato das duas vidas testemunha que estas “colunas”, estes dois “chefes”, não eram déspotas ou tiranos prepotentes sedentos de poder. A história dos filhos de Zebedeu recorda-nos que a autoridade na Igreja não é (não deve ser) determinada pela riqueza, prestígio social, ou influência política, mas sim, pela capacidade de dedicar-se aos outros, de sacrificar-se pela causa do Reino, de testemunhar Jesus até ao fim, custe o que custar. Tal como Tiago e João se deixaram “purificar” pelo exemplo de doação e entrega de Cristo, também nós somos convidados a descobrir que a verdadeira grandeza não está no ser servido, mas sim, no servir os outros.

(Tenham uma boa semana!)


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sábado, 10 de outubro de 2009

XXVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM (ano B)



Leitura do Livro da Sabedoria
(Sab 7,7-11)
Orei e foi-me dada a prudência; implorei e veio a mim o espírito de sabedoria. Preferi-a aos ceptros e aos tronos e, em sua comparação, considerei a riqueza como nada. Não a equiparei à pedra mais preciosa, pois todo o ouro, à vista dela, não passa de um pouco de areia e, comparada com ela, a prata é considerada como lodo. Amei-a mais do que a saúde e a beleza e decidi tê-la como luz, porque o seu brilho jamais se extingue. Com ela me vieram todos os bens e, pelas suas mãos, riquezas inumeráveis.


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 89 (90)

Refrão: Saciai-nos, Senhor, com a vossa bondade e exultaremos de alegria.

Ensinai-nos a contar os nossos dias,
para chegarmos à sabedoria do coração.
Voltai, Senhor! Até quando?
tende piedade dos vossos servos.

Saciai-nos, desde a manhã, com a vossa bondade,
para nos alegrarmos e exultarmos todos os dias.
Compensai em alegria os dias de aflição,
os anos em que sentimos a desgraça.

Manifestai a vossa obra aos vossos servos
e aos seus filhos a vossa majestade.
Desça sobre nós a graça do Senhor.
confirmai em nosso favor a obra das nossas mãos.


Leitura da Epístola aos Hebreus
(Heb 4,12-13)
A palavra de Deus é viva e eficaz, mais cortante que uma espada de dois gumes: ela penetra até ao ponto de divisão da alma e do espírito, das articulações e medulas, e é capaz de discernir os pensamentos e intenções do coração. Não há criatura que possa fugir à sua presença: tudo está patente e descoberto a seus olhos. É a ela que devemos prestar contas.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
(Mc 10,17-30)
Naquele tempo, ia Jesus pôr-Se a caminho, quando um homem se aproximou correndo, ajoelhou diante d’Ele e Lhe perguntou: «Bom Mestre, que hei-de fazer para alcançar a vida eterna?» Jesus respondeu: «Porque me chamas bom? Ninguém é bom senão Deus. Tu sabes os mandamentos: ‘Não mates; não cometas adultério; não roubes; não levantes falso testemunho; não cometas fraudes; honra pai e mãe’». O homem disse a Jesus: «Mestre, tudo isso tenho eu cumprido desde a juventude». Jesus olhou para ele com simpatia e respondeu: «Falta-te uma coisa: vai vender o que tens, dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me». Ouvindo estas palavras, anuviou-se-lhe o semblante e retirou-se pesaroso, porque era muito rico. Então Jesus, olhando à volta, disse aos discípulos: «Como será difícil para os que têm riquezas entrar no reino de Deus!» Os discípulos ficaram admirados com estas palavras. Mas Jesus afirmou-lhes de novo: «Meus filhos, como é difícil entrar no reino de Deus! É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus». Eles admiraram-se ainda mais e diziam uns aos outros: «Quem pode então salvar-se?» Fitando neles os olhos, Jesus respondeu: «Aos homens é impossível, mas não a Deus, porque a Deus tudo é possível». Pedro começou a dizer-Lhe: «Vê como nós deixámos tudo para Te seguir». Jesus respondeu: «Em verdade vos digo: Todo aquele que tenha deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou terras, por minha causa e por causa do Evangelho, receberá cem vezes mais, já neste mundo, em casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e terras, juntamente com perseguições, e, no mundo futuro, a vida eterna».


A PESSOA MAIS RICA...
Nestes últimos domingos, fomos confrontados com algumas das nossas reacções naturais a temas polémicos tais como: o poder (“Quem é o maior?”), a diversidade (“Não é dos nossos!”) e a afectividade (“Pode um homem repudiar a sua mulher?”). A cada um destes comportamentos, Jesus propôs uma atitude nova e radicalmente diversa. Hoje somos convidados a meditar sobre a nossa relação com os bens materiais e o nosso desejo de acumular.

O jovem rico do evangelho deste domingo não era uma “má pessoa”, mas Jesus sabia que entre ele e a proposta do Reino havia um obstáculo insuperável: era prisioneiro dos seus próprios bens. Algumas pessoas vivem tão obcecadas com os bens materiais que se tornam escravas da riqueza. Têm casas que nunca visitam, carros que nunca guiam, roupas que nunca vestem, mas mesmo assim desejam sempre mais riquezas e são incapazes de partilhar o que têm com os outros. É quase como uma doença! Pensam possuir muitas coisas, mas na verdade, são elas que são “possuídas”. Os bens materiais tornam-se um ídolo e essa divindade pode pedir sacrifícios muito grandes: amizades, saúde, laços familiares... Tudo é sacrificável no altar do “deus tostão”.

Ninguém nos pede que vivamos uma vida miserável, mas o “culto da riqueza” é absolutamente incompatível com a proposta de Jesus. O Senhor quer que os nossos corações sejam livres e o convite que Ele faz ao jovem rico pede (e, simultaneamente, promete!) uma grande liberdade interior. A pobreza extrema é um mal que conduz ao desespero e que temos sempre de combater, mas uma vida simples, dedicada à solidariedade, à partilha e à doação, é verdadeira felicidade ao alcance da mão.

Nos últimos doze anos mudei várias vezes de casa e notei que em cada mudança o número das bagagens foi diminuindo significativamente. Em parte é culpa das companhias aéreas, que aumentaram muito o valor das multas por excesso de peso; mas por outro lado é também a experiência que vai ensinando o quanto são supérfluas algumas coisas e quão pouco realmente basta para se viver dignamente. Se bem que ainda viaje com muita coisa inútil, aos poucos vou aprendendo esta verdade importante: a pessoa mais rica não é aquela que tem muito, mas sim a que não precisa de nada.

(Tenham uma boa semana!)


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sábado, 3 de outubro de 2009

XXVII DOMINGO DO TEMPO COMUM (ano B)



Leitura do Livro do Génesis
(Gn 2,18-24)
Disse o Senhor Deus: «Não é bom que o homem esteja só: vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele». Então o Senhor Deus, depois de ter formado da terra todos os animais do campo e todas as aves do céu, conduziu-os até junto do homem, para ver como ele os chamaria, a fim de que todos os seres vivos fossem conhecidos pelo nome que o homem lhes desse. O homem chamou pelos seus nomes todos os animais domésticos, todas as aves do céu e todos os animais do campo. Mas não encontrou uma auxiliar semelhante a ele. Então o Senhor Deus fez descer sobre o homem um sono profundo e, enquanto ele dormia, tirou-lhe uma costela, fazendo crescer a carne em seu lugar. Da costela do homem o Senhor Deus formou a mulher e apresentou-a ao homem. Ao vê-la, o homem exclamou: «Esta é realmente osso dos meus ossos e a minha carne. Chamar-se-á mulher, porque foi tirada do homem». Por isso, o homem deixará pai e mãe, para se unir à sua esposa, e os dois serão uma só carne.


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 127 (128)

Refrão: O Senhor nos abençoe em toda a nossa vida.

Feliz de ti que temes o Senhor
e andas nos seus caminhos.
Comerás do trabalho das tuas mãos,
serás feliz e tudo te correrá bem.

Tua esposa será como videira fecunda
no íntimo do teu lar;
teus filhos como ramos de oliveira,
ao redor da tua mesa.

Assim será abençoado o homem que teme o Senhor.
De Sião o Senhor te abençoe:
vejas a prosperidade de Jerusalém todos os dias da tua vida;
e possas ver os filhos dos teus filhos. Paz a Israel.


Leitura da Epístola aos hebreus
(Heb 2,9-11)
Irmãos: Jesus, que, por um pouco, foi inferior aos Anjos, vemo-l’O agora coroado de glória e de honra por causa da morte que sofreu, pois era necessário que, pela graça de Deus, experimentasse a morte em proveito de todos. Convinha, na verdade, que Deus, origem e fim de todas as coisas, querendo conduzir muitos filhos para a sua glória, levasse à glória perfeita, pelo sofrimento, o Autor da salvação. Pois Aquele que santifica e os que são santificados procedam todos de um só. Por isso não Se envergonha de lhes chamar irmãos.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
(Mc 10,2-16)
Naquele tempo, Aproximaram-se de Jesus uns fariseus para O porem à prova e perguntaram-Lhe:«Pode um homem repudiar a sua mulher?» Jesus disse-lhes: «Que vos ordenou Moisés?» Eles responderam: «Moisés permitiu que se passasse um certificado de divórcio, para se repudiar a mulher». Jesus disse-lhes: «Foi por causa da dureza do vosso coração que ele vos deixou essa lei. Mas, no princípio da criação, ‘Deus fê-los homem e mulher. Por isso, o homem deixará pai e mãe para se unir à sua esposa, e os dois serão uma só carne’. Deste modo, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus uniu». Em casa, os discípulos interrogaram-n’O de novo sobre este assunto. Jesus disse-lhes então: «Quem repudiar a sua mulher e casar com outra, comete adultério contra a primeira. E se a mulher repudiar o seu marido e casar com outro, comete adultério». Apresentaram a Jesus umas crianças para que Ele lhes tocasse, mas os discípulos afastavam-nas. Jesus, ao ver isto, indignou-Se e disse-lhes: «Deixai vir a Mim as criancinhas, não as estorveis: dos que são como elas é o reino de Deus. Em verdade vos digo: Quem não acolher o reino de Deus como uma criança, não entrará nele». E, abraçando-as, começou a abençoá-las, impondo a mão sobre elas.


FIDELIDADE E PERDÃO
Até mesmo uma pessoa que não acredita em Jesus Cristo, consegue facilmente intuir a beleza e a força do ideal que Ele propõe. Tudo começa com um homem e uma mulher que se encontram. Nasce o amor e um dia escolhem-se um ao outro para criar uma comunidade de vida estável, indissolúvel, de profunda comunhão. Casam-se e a partir daquele momento, «já não são dois, mas uma só carne». É assim o ideal de matrimónio que a Igreja, desde o início da sua história, propõe aos seus fiéis: um ideal alto, bonito e ambicioso, a que corresponde um caminho muitas vezes árduo e exigente.

A Igreja não renuncia ao modelo de casamento apresentado por Jesus (não pode; não quer), mas reconhece a gradualidade do projecto e vê nas palavras de Cristo o “rumo” que cada casal deve dar à própria vida. Entre a realidade que vivemos quotidianamente e a proposta que escutámos no Evangelho, dificilmente encontramos uma perfeita sintonia, mas a nossa fé é caminho e o matrimónio não foge a esta regra. Um caminho feito de momentos bons e maus, bonitos e feios, alegres e tristes...

Apesar dos nossos esforços e da nossa boa vontade, infelizmente, nem sempre conseguimos ser fiéis aos ideais que Deus propõe. Em Janeiro de 2008 o Cardeal Tettamanzi, Arcebispo de Milão, numa carta pastoral aos esposos em situação de separação, divórcio e nova união escrevia o seguinte: «A Igreja sabe que, em certos casos, não só é lícito, mas inevitável decidir pela separação; para defender a dignidade da pessoa, evitar traumas mais profundos e manter a grandeza do matrimónio, que não se pode transformar numa série insustentável de agressões recíprocas».

A vida de todos nós está cheia de fracassos, de infidelidades, de falhas. A comunidade cristã não pode desamparar os irmãos e as irmãs que sofrem por um matrimónio falido, mas deve testemunhar continuamente a bondade e a misericórdia de Deus para com todos aqueles que (muitas vezes sem culpa) viram desmoronar-se o próprio projecto de amor. Não se trata de renunciar ao “ideal” que Deus propõe: trata-se de reconhecer os nossos limites e fragilidades, confiando que o amor, a compreensão e o perdão de Deus são muito mais fortes que os nossos erros e insucessos.


(Tenham uma boa semana!)


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